terça-feira, 31 de maio de 2022

We the Animals(EUA, 2018)


We the Animals, apresenta um conto de amadurecimento ambientado no cenário de uma família hispânica na zona rural dos EUA. Adaptação do célebre romance semiautobiográfico de Justin Torres, o longa, de Jeremiah Zagar, mistura animação, performances abertas e um cenário sombrio.

Os três irmãos, Manny (Isaiah Kristian), Jonah (Evan Rosado) e Joel (Josiah Gabriel) navegam em sua juventude contra o relacionamento volátil de seus pais apaixonados. Enquanto Manny e Joel crescem lentamente em comportamentos destrutivos, Jonah escapa para um mundo de fantasia como uma distração de sua alienação e dos perigos ao seu redor.


A narrativa e o estilo de direção fazem um trabalho sublime ao capturar um mundo não infantil, através dos olhos de seus três protagonistas mirins. Manny, Joel e Jonah testemunham a dinâmica acalorada de seus pais. Essas cenas são retratadas com a energia frenética que se poderia esperar ver quando a orientação e a estrutura são retiradas da vida das crianças.

Zagar lida com cuidado com essa representação dos pais (excelentemente interpretados por Raúl Castillo e Sheila Vand), eles não são vilões ou negligentes, apenas despreparados para as pressões e responsabilidades de manter uma família. Há uma doçura inerente na representação dos relacionamentos entre pais e irmãos.

À medida que o relacionamento entre seus pais se abala, o mais velho dos meninos cai em um caminho de álcool, pornografia e abuso de substâncias, mas Jonah, o mais novo, tem suas próprias lutas. Há um conto delicadamente tratado de identidade queer dentro de We the Animals,  e quando isso é colocado contra o pano de fundo das classes trabalhadoras hispânicas na América rural, cria uma nova perspectiva cinematográfica.

Jonah absorve tudo do ambiente ao seu redor, mas não é atraído pelo comportamento de seus irmãos, em vez disso enfrenta seus próprios demônios. Esses demônios são explorados através de impressionantes animações desenhadas à mão que capturam as lutas internas enfrentadas por ele.

Apresentado com a ferocidade da juventude, essas animações capturam a raiva, a confusão e os sonhos de fuga de Jonah. Isso é combinado com uma estética pantanosa do mundo real que é uma paisagem gótica, quase onírica, criando um cenário inebriante e macabro, surpreendentemente fotografado por Zak Mulligan.


We the Animals é uma visão nova da identidade queer apresentada em um cenário único. A performance central de Evan Rosado, a animação ardente e uma exuberância sutil na direção de Zagar garantem que esse filme brilhe.



segunda-feira, 30 de maio de 2022

Even Lovers get the Blues(Bélgica, 2016)



Ana(Marie Denys) dorme com Hugo(Gaël Maleux), Dalhia(Adriana da Fonseca) com Graciano(Gabriel da Costa), Léo(Séverine Porzio) com Louis(Arnaud Bronsart) e Arthur(Tristan Schotte) com todos. Entre as celebrações e o amor surgem questionamentos, desejos profundos e a urgência de viver. Even Lovers Get The Blues pinta um retrato romântico e sexual de uma juventude desiludida e apaixonada.

Tudo gira em torno de um grupo unido de 30 e poucos anos, na estreia de Laurent Micheli, cada um em diferentes estágios de sua maturidade sexual, alguns querem se estabelecer, alguns querem festejar, alguns querem experimentar algo novo, outros querem alguém.


Da banalidade de uma vida despreocupada de trinta e poucos anos, os protagonistas gostam de festejar, beber, comer, usar drogas e mais ainda dormir, fazer amor, beijar. O filme é uma sucessão de cenas de vida e sexo.

De morte também. Porque a morte de um protagonista imediatamente depois de ter feito amor terá consequências sobre sua parceira, suas escolhas de vida, seu modo de viver em sua casa, mas também sua busca por muitos parceiros de uma noite só.

O diretor não esconde nada, inclusive certas práticas sexuais. Há essa libido exacerbada. A representação de cenas de sexo explícito é parte integrante do filme, seu DNA de certa forma e sua própria expressão reflete um estado de vida dos jovens:

Todos os personagens se cruzam na aleatoriedade da noite de Bruxelas e depois novamente na cama. A estação do amor assume várias formas diferentes. A história, que começa no frio noturno dos paralelepípedos do inverno, migra, com a chegada da primavera, para um lago rural, antes de terminar no calor do verão dos jardins secretos da cidade.

De um banheiro de bar, às alcovas de uma boate, de um sofá-cama, a uma praia deserta, corpos se entrelaçam e amores se perdem, são procurados e, às vezes, (re)descobertos. Os caminhos dos personagens se cruzam e se descruzam, casais são feitos e desfeitos, experimentando uma sexualidade em constante evolução, buscando o tipo de amor que os faz sentir vivos. 


O filme ousa com franqueza apresentar cenas de sexo longe das normas codificadas e higienizadas. Mas ao contrário de ser objeto de pura provocação, ele aborda com um senso de vibração, livre da linguagem cinematográfica padronizada. Essa liberdade pode carregar o peso da estranheza, mas injeta um frescor real no filme e retrata habilmente a procrastinação dos personagens em sua busca por significado em sua vida.

domingo, 29 de maio de 2022

Wildhood(Canadá, 2021)

Link (Philip Lewitski) vive com seu pai(Joel Thomas Hynes) e o meio-irmão Travis (Avery Winters-Anthony), sua mãe já se foi há muito tempo e seu pai bate nele, e está ficando pior porque ele está achando mais difícil esconder o fato de que ele é um espírito livre.

Quando ele e Travis são presos por tentar vasculhar sucata de uma fábrica abandonada, ele é espancado até ficar inconsciente pela polícia e sabe que quando chegar em casa, seu pai aumentará o dano.

Desesperado, ele procura no quarto de seu pai um meio de resistência ou fuga e encontra, em vez disso, uma caixa de cartas de sua mãe. Seu pai mentiu para ele. Ela ainda está viva e tem escrito para ele todos esses anos.


Assim começa a busca de Link para se reunir com uma mulher que pode ou não querê-lo em sua vida. Ele leva Travis para a viagem, talvez para mantê-lo seguro, talvez apenas para irritar seu pai, que os persegue.

Os irmãos  têm um golpe de sorte em uma loja de alimentos, onde um estranho, Pasmay (Joshua Odjick), intervém enquanto o lojista os acusa de roubar e depois lhes oferece uma carona. Pasmay é um Mi'kmaw de sangue puro, ganhando a vida viajando e realizando danças tradicionais em eventos sociais.


Link fica desconfortável com a situação no início, talvez por causa da óbvia atração de Pasmay por ele, que ele não sabe como processar, tendo internalizado muito preconceito de seu tempo na sociedade branca – mas ele e Travis não têm muitas opções, então quando Pasmay se oferece para ajudá-los na próxima etapa de sua jornada, eles concordam.

A confiança em estranhos é um grande tema neste filme de natureza doce, que é baseado no curta Wildfire, de 2019 ,do diretor Bretten Hannam. O estilo de vida de Pasmay significa que ele está à vontade com todos os tipos de pessoas com as quais Link está cético, o que cada vez mais leva Travis a olhar para ele como uma fonte de autoridade, mas ele está menos confiante ao lidar com o establishment branco. 


A jornada psicológica pela qual Link passa enquanto os três viajam juntos é pelo menos tão importante quanto a física. Aprender a deixar de lado sua luta pelo privilégio branco torna-se mais fácil quando ele encontra pessoas Mi'kmaw que querem ajudá-lo e apoiá-lo em parte porque o veem como um deles. Enquanto isso, ele gradualmente baixa a guarda com Pasmay, levando um romance terno cuja inevitabilidade Travis parece estar ciente antes dele. 


Hannam preenche a narrativa com sequências sonhadoras dos três curtindo a vida ao ar livre juntos. Por outro lado, a cena em que Link finalmente cede aos seus sentimentos por Pasmay carrega muito mais significado e é narrativamente poderosa e erótica. 


O conto é, em última análise, bastante robusto, com o talento indígena drasticamente sendo representado, uma conquista importante. É um filme refrescante que celebra a autorrealização e as chances.

sábado, 28 de maio de 2022

A Voz Suprema do Blues(Ma Rainey's Black Bottom, EUA, 2020)


A Voz Suprema do Blues, do diretor George C. Wolfe, é uma celebração a três artistas e lendas negras da vida real. Há a cantora, muitas vezes referida como a “Mãe do Blues”. Há o autor, August Wilson, que, inspirado por Ma Rainey e a época em que ela encontrou fama, criou sua peça, de 1984, em torno de sua personalidade maior que a vida. E há Chadwick Boseman, tirado de nós muito cedo, que escolheu esse material difícil, para ser seu último, enquanto vivia com câncer. 

Levee(Boseman) é um encantador ambicioso de fala rápida, tão rápida quanto seu trompete. Levee tem objetivos mais elevados do que seu trabalho atual como membro da banda de apoio de Ma Rainey (Viola Davis). Ele quer arranjar músicas existentes e compor sua própria música, algo que Sturdyvant (Jonny Coyne), o gerente da gravadora, parece encorajar.

Levee até tentou forçar a banda a fazer um cover de seu arranjo de Ma Rainey’s Black Bottom` apesar do sucesso de sua encarnação original. Isso certamente causará dissidência, porque, como Cutler (Colman Domingo), o trombonista aponta, Ma, em última análise, dá todas as ordens, não Levee. 


Levee e Ma são os fios condutores, mas o resto da banda é mais pragmático, seja devido à idade, sabedoria ou simplesmente querendo entrar e sair o mais rápido possível. Além de Cutler, que atua como chefe, há o baixista Slow Drag (Michael Potts) e o pianista Toledo (Glynn Turman). Eles são os três primeiros a chegar, encontrando o agente de Ma, Irvin (Jeremy Shamos), no estúdio de gravação bastante decadente, onde eles gravarão um álbum com os maiores sucessos de Ma, e um possível cover de Bessie Smith.

O diretor de fotografia Tobias A. Schliessler faz um contraste inicial entre o mundo exterior e o porão úmido do estúdio ao banhar uma tomada de Cutler, Slow Drag e Toledo atravessando a rua em uma beleza sobrenatural que chama a atenção para sua falsidade. Este é o mesmo local onde encontraremos Ma Rainey, embora em circunstâncias muito mais realistas. Nossa apresentação à cantora ocorre depois que alguém bate em seu carro novo.

Quando, Ma chega, coberta de graxa, chateada com seu carro e arrastando Dussie Mae (Taylour Paige), sua amante, Rainey nunca fez nenhuma tentativa de esconder seu prazer sexual com as mulheres, e expressava isso abertamente em suas canções, Irvin precisa subornar um policial para que possa liberá-la.

Um dos requisitos de Ma antes de gravar Ma Rainey’s Black Bottom é que seu sobrinho Sylvester (Dusan Brown) faça a introdução falada da música. O arranjo de Levee não tem esse recurso - é um número mais rápido e mais suingado que sugere corretamente as tendências musicais que se seguirão - mas Ma previsivelmente veta sua entrada.

Viola Davis, em seu papel cinematográfico mais grandioso, aprecia a oportunidade de ser difícil, autoconfiante e dominante. Mesmo nos momentos mais calmos, sua Ma Rainey enche a sala.  Ela é coberta por uma fina camada de suor, ela tem uma raiva e um cansaço subjacentes. É uma performance deliciosa.


Apesar de vários monólogos, A Voz Suprema do Blues guarda seus momentos mais emocionantes para Levee e Boseman os devora com uma ferocidade que queima a tela. Antes de sua maior cena, o diretor George C. Wolfe faz algo bastante magnífico. Ele aponta sua câmera para Boseman ouvindo uma conversa em outra sala. A cena é silenciosa, mas uma onda de emoções passa pelo rosto do ator.


A Voz Suprema do Blues, é sobre a amarga ironia da desigualdade racial, um comentário trágico sobre a realidade enfrentada pelos músicos negros da época. O filme  é incrivelmente fluido, movendo-se pelos interiores da história como uma melodia de blues, hábil, sábia e cheia de tristeza. 

sexta-feira, 27 de maio de 2022

A Constituição(Ustav Republike Hrvatske, Croácia/República Theca, 2016)


Vjeko (Nebojsa Glogovac) está na casa dos cinquenta e é um professor croata que foi condenado ao ostracismo e ridicularizado por ser gay. Sua única trégua vem quando ele usa roupas femininas e lembra de seu antigo amor, que teve uma morte prematura e dolorosa. Seu pai, que já foi um oficial de alto escalão da Ustasha (um grupo neonazista) durante a Segunda Guerra Mundial, nunca aceitou sua homossexualidade e ainda desgastou seu filho, Vjeko agora cuida dele, lembrando-o de todas as dificuldades que ele o fez passar enquanto crescia.

Uma noite, enquanto Vjeko caminha pelas ruas de Zagreb como Katarina, ele é atacado por um bando homofóbico e levado para o hospital, onde é recebido por sua vizinha, Maja (Ksenija Marinkovic). Ela não apenas o ajuda a se recuperar do espancamento, mas também o substitui como cuidador de seu pai, que está deitado na cama depois de sofrer uma amputação acima do joelho de ambas as pernas.

Como agradecimento, Vjeko concorda em ler a constituição croata para seu marido disléxico, Ante (Dejan Acimovic), que precisa passar em um exame para manter seu emprego como policial. Como Vjeko é croata, ele tem preconceito contra Ante por causa de suas origens sérvias, mas à medida que os dois se conhecem, ambos aprendem gradualmente o verdadeiro significado da constituição croata.


Grande parte de A Constituição, do premiado Rajko Grlic,  se passa em um prédio de apartamentos em Zagreb, a capital e maior cidade da Croácia, que fazia parte da Iugoslávia até o violento rompimento desse estado-nação na década de 1990.


Nesse cenário, o diretor explora homofobia, tensões interétnicas, crueldade animal, diferenças de classe e excesso policial uso da força como metáfora para o colapso da Iugoslávia e suas consequências.

O que é ótimo em A Constituição é que nenhum dos personagens são estereótipos, eles são indivíduos totalmente desenvolvidos com a complexidade, nobreza e loucura que fazem parte da condição humana. Isso pode ser mais verdadeiro para Ante do que qualquer outro personagem.


A Constituição aborda uma série de questões sociais, políticas e étnicas ainda não resolvidas nos antigos territórios iugoslavos. Vjeko é um professor corajoso e mimado e um amigo gentil, mas passou a vida fingindo ser alguém que não é porque tem medo de ser fisicamente perseguido e estigmatizado.

Isso o tornou bastante amargo. Ante e Maja são um casal com pouco dinheiro e estão tentando obter todas as permissões necessárias para adotar uma criança. Nossos quatro personagens vivem todos no mesmo prédio, mas compartilham origens muito diferentes e assumem a vida a sua maneira e esta é uma metáfora maravilhosa para a Croácia moderna. No centro do filme encontramos arrogância e preconceito e vemos estes como as principais causas de uma sociedade que foi fundada na ira e no ódio. 

quinta-feira, 26 de maio de 2022

Deuses e Monstros(EUA/Reino Unido, 1998)


Dirigido e adaptado  por Bill Condon, do romance Father of Frankestein, de Christopher Bram, o filme é uma homenagem ficcional aos últimos dias do diretor James Whale, de filmes como O Homem Invisível(1933) e A Noiva de Frankenstein(1935), interpretado brilhantemente por IanMcKellen.

O longa, pinta uma imagem vívida de um homem que em uma época em que a maioria dos homossexuais permaneceu no armário, foi um dos poucos que assumiu sem remorso sua sexualidade. No entanto, essa abertura sexual, juntamente com um estilo de direção altamente pessoal, acabaria fazendo com que Whale caísse em desuso entre os altos escalões do estúdio.

Longe dos dias em que jovens musculosos se amontoavam em torno do brilhante e rico James em torno da piscina, hoje o cineasta vive sozinho com sua governanta Hanna( Lynn Redgrave) que cuida dele com amor demais, embora ela sempre tenha rejeitado sua homossexualidade.


Nesta situação, quando James descobre seu novo e altamente atraente jardineiro, Clayton (Brendan Fraser), ele decide tentar um último jogo. Ele convida Clayton para um chá e o contrata como modelo facial para um retrato. Clayton, que pode realmente usar o dinheiro, concorda, e um pouco mais tarde os dois homens estão sentados de frente um para o outro no estúdio.


Em vez dos desenhos, no entanto, sua conversa intensa logo se torna o foco. Clayton faz James mergulhar mais fundo em seu passado do que em décadas. Ao mesmo tempo, Clayton reconhece a personalidade sentada à sua frente e o quanto ele precisa dessas conversas.

Clayton demora a entender que Whale é gay. Em 1957, muitas pessoas podem não ter entendido. Quando ele descobre, não fica zangado e não há uma cena dolorosa. Em vez disso, o filme prossegue em um curso agridoce em que um homem jovem e não muito brilhante amadurece  gostando de um homem velho e muito inteligente.

Ian McKellen entrega um desempenho brilhante neste filme que raramente é visto nos cinemas. Ele encarna o diretor James Whale, no final de sua vida, com uma mistura tão intensa de fraqueza física e força de vontade que o espectador é profundamente tocado em inúmeras cenas.


Bill Condon conseguiu tirar o máximo proveito do potencial de seu elenco. Com cenas intercaladas dos filmes de Frankenstein e inúmeras sutilezas cinematográficas, ele potencializa habilmente o efeito da conversa entre os dois personagens principais. Deuses e Monstros  é uma pequena joia cinematográfica.

quarta-feira, 25 de maio de 2022

Los Miembros de La Familia(Argentina, 2019)

Os irmãos Lucas(Tomás Wicz) e Gilda(Laila Malts) viajam para uma pequena cidade litorânea para tentar realizar o último desejo de sua mãe recém-falecida: depositar seus restos mortais no mar. Infelizmente, o único que lhes resta é sua mão protética.

Prontos para ir para casa, uma greve nacional de transporte os deixa presos na cidade. Lucas, obcecado por musculação, encontra terras férteis no litoral para explorar sua sexualidade e os limites de seu corpo. Gilda, ainda afetada por sua recente estadia em um centro de reabilitação e obcecada por sua "má energia", testa inúmeras terapias e métodos de misticismo para tentar encontrar algum significado no mundo ao seu redor.

O segundo longa-metragem do diretor argentino Mateo Bendesky é um filme intimista, que paira entre sonhos e sensações desencadeadas pelas memórias, onde os jovens tentam reconstruir sua relação fraterna, marcada por questões que se revelam ao longo da trama.


O plano é ficar apenas uma noite, mas os irmãos são forçados a passar alguns dias juntos na antiga casa de sua mãe. Com o passar do tempo, velhas brigas entre os dois ressurgem, alegações de distanciamento e as diferentes formas como os dois lidam com a morte da mãe.

Neblina constante e amplos ângulos de câmera da costa, nas cenas com Lucas, simbolizam a abertura de uma busca sexual, uma busca que inclui outras pessoas, como o atraente Guido(Alejandro Russek), que começam a se tornar importantes nesse processo de descoberta. Por sua vez, Gilda é mostrada dentro de casa e de um ponto de vista um tanto voyeurístico.


A tensão entre os personagens principais é sentida durante a maior parte do longa. O filme explora cuidadosamente os temas de amadurecimento e de luto, misturando a busca de identidade da juventude com a aceitação da perda.


Drogas, relacionamentos amorosos, mentiras, luto, a descoberta da sexualidade, uma tragédia que ninguém quer falar e filosofias filtradas pela mercantilização das novas espiritualidades são alguns dos elementos narrativos que inundam este filme sobre as tensões entre as certezas e as dúvidas da adolescência que se desenrolam contra o vento e as ondas da costa argentina.


Los Miembros de La Família é um filme contemplativo com muitas cenas de rememoração que investigam a adolescência como importante instância de transição para a vida adulta, etapa que marca a identidade das pessoas. Mateo Bendesky narra assim uma história de ilusões e alusões sobre questões de um ontem enterrado para que os personagens desenterrassem seu passado e enfrentassem juntos um presente conflituoso. 



terça-feira, 24 de maio de 2022

Drag Becomes Him(EUA, 2015)

Jerick Hoffer, também conhecido como Jinkx Monsoon, teve a ousadia de um veterano da Broadway, e usou de influências como Meryl Streep, Jessica Rabbit, além das figuras matriarcais de sua família, para criar sua persona drag. O cineasta Alex Berry oferece um retrato íntimo, divertido e totalmente revelador ao capturar este garoto de Seattle que acendeu uma bola de fogo ao vencer a quinta temporada de RuPaul’s Drag Race.

Aos 3 anos, Jerick se perguntou por que não era uma menina. Sua mãe Deanne Hoffer sempre o apoiou. E mesmo quando a disfunção parental tomou conta da casa Hoffer, as manifestações de Jerick foram abraçadas de todo o coração com o tipo de amor raramente encontrado.

Antes de se formar em Performance Teatral, pelo Cornish College of the Arts, a evolução de Jinkx começou a tomar forma. Foi esse período que lhe permitiu incorporar ensinamentos da sala de aula em todos os aspectos de sua performance drag. Dos olhares de beleza poderosa de Joan Crawford às sensibilidades cômicas de Lucille Ball.


Drag Becomes Him soa como as reflexões confessionais de um membro do showbusiness  que alguém teria ouvido nos camarins. Berry enquadra Jinkx muito próxima da lente da câmera enquanto ao se montar, a drag exalta tanto as virtudes quanto as armadilhas de sua forma de arte.

Para Jinkx, a arte drag é o processo metódico de criação de personagens que permite trazer à tona questões e perspectivas nem sempre bem-vindas nas narrativas mainstream. E é revelado através de uma infinidade de performances, como Hedwig ou no espetáculo The Vaudevillians.


Os anos de dedicação à sua arte em que ele transformou e refinou o elenco de personagens cuidadosamente elaborados em seu arsenal acabaram chamando a atenção da queen mais poderosa de todas. Logo, Jinkx foi convidada para a 5ª temporada de RuPaul’s Drag Race. Com esta plataforma à sua disposição, as apostas e sua repercussão não poderiam ser maiores.

Todas as coisas bonitas com apenas uma pitada diabólica podem resumir a personalidade drag de Jinkx Monsoon. Em Drag Becomes Him, ganhamos os maiores insights não apenas com Jinkx, mas com um elenco de personagens coadjuvantes que influenciaram sua trajetória. O diretor sabiamente permite que as câmeras executem a dinâmica familiar e, ao fazê-lo, revela as histórias mais atraentes.

Desde seus dois irmãos mais novos e as influências que ele teve neles até seu pai ausente, que mostra sua aceitação ao estilo de vida, mesmo que apenas um pouco. A riqueza de fotos, vídeos de arquivo e entrevistas pontuais preenchem perfeitamente uma narrativa já colorida.

A intensidade com que a persona ilimitada de Jinkx Monsoon satura a tela com suas transformações e forma única de humor é o combustível que mantém o motor teatral funcionando no filme. Drag Becomes Him nos oferece uma vitrine para apreciar a singularidade do mundo drag e constatar que como disse RuPaul 'sempre será a temporada Monsoon'.


segunda-feira, 23 de maio de 2022

O Confeiteiro(The Cakemaker, Israel/Alemanha, 2017)

 
O Confeiteiro, impressionante filme de estreia do roteirista/diretor israelense Ofir Raul Graizer, é uma história inteligente e bem trabalhada com personagens lindamente bem desenhados em uma história de extraordinária delicadeza e contenção.

O longa começa em um pequeno e arrumado café alemão. Oren (Roy Miller), um engenheiro de transporte israelense barbudo que visita Berlim ocasionalmente a negócios, discute os bolos e doces exibidos com o jovem prestativo que trabalha atrás do balcão, Thomas (Tim Kalkhof).

Oren quer biscoitos de canela para levar para sua família, e logo ele também pede a ajuda de Thomas para encontrar um trem de brinquedo para seu filho, de seis anos. Nunca vemos aquela expedição de compras. Em vez disso, em um espaço privado, vemos uma mão pousar numa taça de vinho e os homens se beijam.


Corta para vários meses depois. Oren e Thomas agora estão morando juntos, embora o primeiro passe muito tempo em Israel. Um dia Oren vai embora e nunca mais volta. Quando Thomas investiga, ele descobre que seu amante morreu em um acidente de carro em Jerusalém.


Então Thomas vai lá. Acontece que a viúva de Oren, Anat (Sarah Adler), é dona de um café. Thomas  senta e pergunta se ela precisa de um funcionário. Ela diz que não. Mas logo depois, percebe que precisa de ajuda e oferece a ele um emprego de meio período. Ele nunca diz nada sobre conhecer seu falecido marido e, por um bom tempo, ela não tem motivos para suspeitar da conexão.

Thomas logo revela suas habilidades na confeitaria, e suas criações com farinha, manteiga e açúcar - que o filme fotografa com um cuidado delicioso - rapidamente se tornam adições populares ao menu do café. Sua contribuição, no entanto, não é isenta de complicações. Ao contrário de Anat, o irmão de Oren, Motti (Zohar Strauss), é religioso e insiste que Thomas ao tocar no fogão colocaria em risco as credenciais da loja.


As texturas da vida israelense contemporânea, incluindo o atrito entre judeus ortodoxos e não ortodoxos, são cuidadosamente e sensivelmente registradas, assim como as diferentes maneiras pelas quais os israelenses interagem com um alemão em seu meio. Embora haja olhares de suspeita e desgosto, eles são silenciosos e fugazes.


Na segunda metade do filme, o roteiro habilmente estruturado de Graizer retorna ao relacionamento de Oren e Thomas e nos permite aprender coisas sobre o passado do jovem que ajudam a explicar seu personagem e ações.


De forma louvável, o filme trata questões de sexualidade e identidade tão sutil e indiretamente quanto outros tópicos potencialmente polêmicos. Aqui, o desejo é fluido e multifacetado e conectado a muitas outras questões


Essa história é finalmente convincente e silenciosamente comovente, um conto de jornadas e provações emocionais e o desafio de começar de novo após uma tragédia. O brilho de sua narrativa marca uma estreia muito promissora do talentoso Ofir Raul Graizer.

domingo, 22 de maio de 2022

Mayor Pete(EUA, 2021)

 
Quando Pete Buttigieg fez campanha para ser o candidato democrata à presidência dos EUA em 2020, ele de alguma forma conseguiu voltar os holofotes para pautas LGBTQIA+. Este homem, intensamente privado,cuja sexualidade tornou sua candidatura tão única e involuntariamente um foco tão importante de sua plataforma ainda permanece principalmente um enigma, mesmo após o documentário de Jesse Moss.

Moss, segue Buttigieg durante o ano que antecedeu a campanha presidencial de 2020, nos EUA, vemos esse homem admirável tão ansioso para manter sua própria credibilidade e valores, começando a lutar com a realidade de que, para realmente vencer, ele deve ser tudo para todas as pessoas.

Este documentário pode ser sobre ele, mas duas outras estrelas emergem das sombras. Chasten seu marido e o maior fã do Mayor Pete é uma influência leal que sempre o encoraja a ser fiel a si mesmo. Ele é uma força tão positiva, feliz por permanecer em segundo plano, mas também intensificar e desempenhar qualquer papel central que a campanha precise que ele desempenhe. Por outro lado, Lis Smith, diretora de comunicação da campanha, e outra grande apoiadora do político e que é totalmente o oposto do calmo Chasten.


A sinceridade natural de Mayor Pete é um sucesso tão grande na TV nacional que impulsiona sua campanha para o primeiro plano. É um campo superlotado com cerca de 20 candidatos em potencial no total, então quando ele começa a chamar a atenção, ele acaba indo para o Iowa como um dos líderes.

Quando Mayor Pete acaba derrotando o suposto favorito Bernie Sanders contra todas as probabilidades e ganha Iowa como o primeiro estado a votar nas primárias, ele de repente se torna o candidato favorito. Sabemos disso quando alguns dos outros começam a atacá-lo. 


O impulso levou Buttigieg até as próximas primárias que aconteciam em New Hampshire, onde ele também conseguiu ultrapassar Sanders. Em seguida foi Nevada, onde ficou em terceiro, mas quando caiu para o quarto lugar na Carolina do Sul, Buttigieg decidiu que era o mais longe que podia ir. Seu fracasso em capturar votos da comunidade afro-americana foi uma grande decepção para ele, mas foi algo sobre o qual o documentário não se deteve muito.


Curiosamente, é depois da Carolina do Sul que testemunhamos Buttigieg como um político realmente de princípios. Ao contrário de veteranos como Sanders, que sempre insistem em arrastar a derrota inevitável e arruinar sua própria reputação e a do Partido Democrata, da noite para o dia encorajou seus apoiadores a apoiar a campanha de Biden.


Uma das cenas mais tocantes de todo o filme acontece aqui quando vemos Buttigieg recebendo um telefonema paternal de Biden. A corrida inovadora de Buttigieg merece um lugar cativo na história LGBTQIA + e este documentário fascinante ajudará a garantir que Mayor Pete esteja lá, como um novo ícone queer, atuando na política.


sábado, 21 de maio de 2022

Ellie & Abbie (& Ellie's Dead Aunt) (Austrália, 2020)


Há duas histórias de amor na comédia adolescente de Monica Zanetti. Uma, é claro, é o romance entre as alunas do ensino médio de Sydney, Ellie e Abbie. A outra é o afeto, respeito e solidariedade intergeracional que se desenvolve entre essas adolescentes e os queers que vieram antes delas.

Sim, Ellie (Sophie Hawkshaw) é lésbica, e sim, isso ainda vem com desafios que os heterossexuais não precisam enfrentar, mas não é como no passado e a última coisa que ela precisa é de sua tia Tara (Julia Billington) metendo o nariz, especialmente porque Tara está morta desde antes dela nascer.


A doce comédia é uma obra em grande parte focada em Ellie e sua tia e, claro, no objeto de seus desejos, Abbie (Zoe Terakes), mas também é uma comparação de como era a vida para as pessoas LGBTQ+ australianas agora e 20 anos atrás, com algo para ensinar a ambas as gerações.

O filme explora a tradição de pessoas mais velhas naquela comunidade ensinando aos mais jovens as habilidades necessárias para lidar com a hostilidade do mundo , mas reconhece que essa intolerância diminuiu e que as adolescentes lésbicas de hoje não acham o namoro algo tão difícil.



Abbie não é o tipo de garota que espera em silêncio por um possível encontro para fazer todo o trabalho. Quando ela sabe que Ellie está interessada nela - o que não é difícil de descobrir - ela deixa claro que o sentimento é mútuo. Isso não significa, no entanto, que ela está pronta para entrar em um relacionamento.


Ao mesmo tempo em que tenta lidar com isso, Ellie tem outro problema. Sair do armário para sua mãe não foi como ela esperava. Preocupada como está, não lhe ocorre que a morte de sua tia e a reação de sua mãe possam estar interligadas. Antes de estar pronta para construir seu futuro, ela terá que confrontar o passado de sua família.


Há um pouco de choque cultural em ambos os lados: os conselhos de namoro não solicitados e anacrônicos de Tara giram em torno de referências a KD Lang e Melissa Etheridge, enquanto Ellie argumenta que ela não precisa de ajuda porque “há uns cinco outros garotos gays no meu ano”.

A doçura dá o tom do filme como a habilidade de Zanetti de escrever e dirigir uma comédia romântica de ensino médio que funciona em seus próprios termos, amor e decepção não respeitam as fronteiras da sexualidade.


sexta-feira, 20 de maio de 2022

O Segredo de Davi(Brasil, 2018)



Nicolas Prattes é Davi, o personagem principal. Ele está passando por um momento de grande mudança. Primeiro de tudo, ele é um serial killer. E ele está filmando seus crimes e enviando-os para a internet, tornando-o uma misteriosa "celebridade". Segundo, ele está processando sentimentos sobre sua sexualidade, sentimentos que ele poderia ter mantido mais sob controle antes de fazer amizade com o belo Jônatas (André Hendges).

Estreia na direção de Diego Freitas, que trabalhou no roteiro com Gustavo Rosseb, O Segredo de David é o tipo de thriller sombrio com a narrativa mudando constantemente de foco, como uma lente de câmera tentando descobrir o que deve estar no centro de cada quadro.

Davi passa pela vida com uma estonteante variedade de influências constantemente bombardeando-o. Seu amor óbvio pelo cinema, sua família e infância, a ideia de fama, sua sexualidade e visões que ele não percebe mostram seu desapego da realidade.


Prattes é muito bom no papel principal, gostando de interpretar um personagem que pode ser visto como lamentável e muito perigoso. Neusa Maria Faro é adequadamente sombria como uma personagem que é "impactada" pelo protagonista antes de se tornar uma espécie de assessora dele, e João Côrtes interpreta um amigo em dificuldades, Caio.

Todos esses personagens, e mais, fornecem insights sobre o estado mental de Davi, enquanto a câmera carregada por ele continua tentando encontrar mais vítimas, procurando por todos os lugares, quase certamente os errados.


A jornada de O Segredo de Davi parece passar por um território muito familiar, seja o voyeurismo, a fama na internet, a mentalidade doentia do protagonista ou até mesmo a maneira como as coisas se constroem e se desconstroem para um terceiro ato que traz uma ou duas revelações inevitáveis ​​pouco antes de tudo terminar.

quinta-feira, 19 de maio de 2022

Tudo em Todo Lugar Ao Mesmo Tempo( Everything Everywhere All at Once, EUA, 2022)



Produzido pela A24, Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo é um filme sobre amor, família e a condição humana. Michelle Yeoh estrela como Evelyn, uma imigrante chinesa de meia-idade cuja infelicidade com a forma como sua vida acabou tem um efeito cascata sobre as pessoas mais próximas a ela. 

Sua filha Joy(Stephanie Hsu), abertamente gay, traz sua namorada para casa na esperança de se assumir para seu avô Gong Gong (James Hong), mas Evelyn abafa o caso. Ela é tolerante com a sexualidade de Joy, mas não quer sobrecarregar outras pessoas com isso. Joy está claramente magoada com a vergonha de sua mãe, mas engole essas emoções para fazer o que é melhor para sua família. 


O filme é surpreendentemente uma obra sobre a aceitação da identidade queer. O drama familiar quebra todos os gêneros cinematográficos e centra-se nas relações, em forma de saga repleta de ação, absurdos e referências, entre a dona de lavanderia Evelyn, seu marido genial, mas silenciosamente frustrado, Waymond (Ke Huy Quan), e sua filha adulta rebelde, Joy.


Ao se encontrar com uma agente do IRS, Deirdre (Jamie Lee Curtis), Evelyn é subitamente puxada para uma aventura multidimensional, na qual ela tem a tarefa de parar um “agente do puro caos” que procura destruir tudo o que existe. Essa força das trevas é revelada como Joy, que foi assumida por um alter ego vilão chamado Jobu Tupaki, sempre em figurinos deslumbrantes, sacudindo Evelyn para tentar recuperar sua filha, aprendendo a combater o mal com bondade.



O filme é uma ideia maluca dos diretores de Um Cadáver para Sobreviver(2016), Daniel Kwan e Daniel Scheinert, conhecidos coletivamente como Daniels. O enredo impacta e provoca uma forte reação emocional em quase todos que o assistem. Ao final, uma trama insana, lisérgica e quase indescritível, torna-se uma reflexão focada no conceito de niilismo.

Outro aspecto interessante do filme vem na forma de um dos muitos universos alternativos que Evelyn habita. Há um, em que os humanos evoluíram para ter hot-dogs nos dedos, e ainda assim o filme encontra uma maneira de equilibrar o humor desse aspecto com o coração, centrando esse universo em um relacionamento estranho entre Evelyn e Jamie Lee Curtis, Deirdre.

Ao tornar a estranheza um fator importante do longa, os Daniels, fazem  um trabalho fenomenal ao usá-la para transmitir um aspecto fundamental e criativo das famílias asiático-americanas, o cerne da narrativa, e para abrir caminho para novas formas de representação, aspectos e porque não, formas de fazer cinema?.

Apesar dos universos entre Evelyn e Joy, a horrível e incompatível quebra de identidade e compreensão, o amor é o que une tudo em todos os lugares ao mesmo tempo. Evelyn está disposta a arriscar tudo, o mundo inteiro, todo o universo, a ordem cósmica para entender sua filha.