“Diabolic” é um terror sobrenatural dirigido por Daniel J. Phillips, que retorna ao gênero após seu trabalho anterior em "Awoken" (2020), combinando crença religiosa extrema e horror visceral numa história de trauma psicológico e possessão. O filme usa a tradição de horror religioso para explorar feridas pessoais e coletivas.
A protagonista Elise ( Elizabeth Cullen) é apresentada como alguém marcada por um passado brutal dentro de uma seita fundamentalista baseada na Fundamentalist Church of Jesus Christ of Latter-Day Saints (FLDS), um grupo conhecido pelo controle rígido de sexualidade, poligamia e práticas coercitivas. Elise sofreu blackouts e comportamentos autodestrutivos desde que saiu da comunidade, e, persuadida por quem a ama, volta ao local para uma espécie de “terapia de exposição” e “cura milagrosa”. O encontro com um ritual que invoca um espírito vingativo desencadeia o horror propriamente dito, colocando em cena possessão, vingança sobrenatural e um confronto direto com os traumas que ela nunca superou.
O terror de “Diabolic” se sustenta tanto nas imagens perturbadoras quanto na crítica às estruturas de poder que operam dentro de comunidades fundamentalistas. Ao usar a FLDS como pano de fundo, o roteiro de Phillips, coescrito com Mike Harding e Ticia Madsen, situa o horror não apenas no sobrenatural, mas no realismo brutal de sistemas que subjugam corpos e identidades sob a justificativa de fé e tradição. A cinematografia de Michael Tessari e a trilha tensa de Will Spartalis potencializam esse desconforto, criando uma atmosfera que se apoia tanto na sombra quanto na promessa de revelação iminente.
A narrativa de Elise e seu passado inclui elementos de atração e romance sáfico que foram suprimidos pela rigidez doutrinária da comunidade. Esse elemento funciona como uma camada adicional de medo: não apenas do espírito maligno, mas da própria experiência de repressão sexual e identidade negada como fonte de terror psicológico. Nesse sentido, o terror dialoga com outras obras do horror queer contemporâneo que usam o sobrenatural para comentar sobre marginalização, trauma e as famigeradas terapia de "conversão". A crítica ao fundamentalismo não se limita a um comentário social distante; ela infunde nos momentos de flashback e nos silêncios de Elise uma tensão entre quem ela poderia ter sido e a violência religiosa que tentou moldar seu corpo e desejos. Essa abordagem coloca o filme numa conversa mais ampla sobre como sistemas autoritários, religiosos ou culturais, moldam e frequentemente traumatizam vidas LGBTQIA+.
Mesmo com alguns momentos irregulares, especialmente em sua primeira metade, “Diabolic” se destaca por sua ambição ao tratar temas de trauma, memória e poder religioso com um olhar que é tanto imaginativo quanto tematicamente rico. A performance de Elizabeth Cullen é um dos pilares que mantém o filme emocionalmente ancorado, mesmo quando o terror sobrenatural domina as sequências mais intensas.
“Diabolic” é um dos exemplos mais intrigantes do horror indie australiano recente: um filme que não apenas assusta com espíritos, gore e rituais, mas que também convida à reflexão sobre o impacto duradouro de experiências opressivas, especialmente para quem foi moldado por instituições que negam identidade, desejo e poder individual.
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