“A Metros de Distância”, longa de estreia do argentino Tadeo Pestaña Caro, segue uma tendência de observar a intimidade mediada pela tecnologia. A narrativa segue Santiago (Max Suen, de "O Prazer é Meu"), um jovem de 20 anos que, cansado da curadoria performática exigida pelos aplicativos de encontro, mergulha em uma noite errante pelas ruas de Buenos Aires. O filme articula essa jornada noturna como radiografia de uma geração que encontra proximidade física a poucos metros de distância, mas permanece colada a uma solidão estrutural.
O diretor estrutura a trama a partir de uma lógica de espiral, conduzindo o protagonista por chats, encontros fugazes e clubes de sexo que sugerem abundância enquanto reiteram a frustração. O gesto de deslizar na tela, repetido como mantra, funciona como alegoria para o ciclo de desejo instantâneo e esvaziamento afetivo que molda parte da sociabilidade gay contemporânea. Nesse movimento, “A Metros de Distância” questiona a promessa de conexão dos aplicativos, desvelando a tensão entre performance de identidade e intimidade possível em ambientes onde tudo se dá à velocidade do toque.
A construção de Santiago revela o âmago dessa experiência. Max Suen imprime ao personagem uma corporeidade tensa, que contrasta com a persona fluida que ele projeta online. Nos encontros presenciais, gestos contidos e inseguranças latentes desmontam a versão idealizada que os aplicativos permitem fabricar. As identidades que ele inventa para cada parceiro ilustram uma tentativa de se tornar desejável em múltiplas versões, enquanto o vínculo com a colega Karen (Jazmín Carballo) expõe o abismo entre convivência cotidiana e o teatro emocional dos apps.
A estética noturna criada pelos diretores de fotografia Joaquín Castro e Andrés González reforça esse percurso. A câmera acompanha o protagonista por ruas iluminadas por néons, becos vazios e interiores abafados que oscilam entre erotismo e desconforto. A montagem imprime ritmo febril à narrativa, enquanto a trilha sonora alterna batidas dançantes e momentos de suspensão, evocando tanto a pulsação da noite queer quanto a vertigem de quem procura sentido na efemeridade.
"A Metros de Distância" combina drama, comédia e elementos de suspense, ecoando referências que vão de “After Hours”, de Martin Scorsese, às novas narrativas queer que observam a liquidez das relações mediadas pela tecnologia. Há uma recusa deliberada à moralização, e o filme aposta na ambiguidade desse protagonista que performa segurança digital, mas se retrai diante da vulnerabilidade real. A noite que se estende como labirinto urbano sublinha o colapso entre fantasia e cotidiano, desejo e autopreservação.
“A Metros de Distância” se destaca menos por eventuais respostas do que pela maneira como expõe fraturas emocionais de uma geração que encontra no digital tanto abrigo quanto espelho distorcido. Ao condensar solidão, busca por afeto e excesso de estímulos em um recorte de poucas horas, o cineasta entrega uma obra que observa com rigor e sensibilidade o impacto da cultura de encontros num sujeito em formação. No percurso de Santiago, a proximidade prometida pelo Grindr revela sua ironia fundamental: corpos a poucos metros, afetos sempre à deriva.
https://drive.google.com/file/d/1-_6nJNXwi0-rF0PdwjjAaFnW3-G9Wm-5/view?usp=sharing
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