terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

A Good Child (Hao haizi, Singapura, 2025)

“A Good Child”, de Ong Kuo Sin, uma narrativa intimista sobre retorno, cuidado e identidade a partir de um gesto simples e profundamente deslocador. Jia Hao, uma drag queen que vive afastada da família, volta para casa após a morte do pai para cuidar da mãe, Ju Hua, diagnosticada com demência. Inspirado na história real de Christopher Lim, conhecido como Sammi Zhen, o filme desloca o foco do conflito aberto para a convivência forçada, observando como o passado ressurge não como confronto direto, mas como camadas de silêncio, culpa e afeto mal resolvido.

Jia Hao (Ritchie Koh) surge pela primeira vez em cena apresentado em sua persona drag marcada por humor camp e uma atitude defensiva, quase performática. Já Ju Hua aparece vivida por Hong Huifang, inicialmente confusa, fragmentada, mas ainda dotada de gestos cotidianos que revelam um afeto persistente. David (Stanley Lu), o companheiro de Jia Hao, representa o afeto externo que resiste à desintegração; o irmão (Charlie Goh) e a cunhada (Cheryl Chou) encarnam a lógica prática e os limites frequentemente silenciados do cuidado familiar.

O tema central do filme é o cuidado como prática ética, não como obrigação idealizada. A demência de Ju Hua reorganiza o tempo e a linguagem, criando um espaço em que verdades antigas não podem mais ser ditas frontalmente. É nesse vazio que Jia Hao encontra uma possibilidade inesperada de aproximação ao assumir o papel da filha que a mãe acredita ter perdido. Essa encenação não funciona como engano cruel, mas como um acordo afetivo, um modo de existir junto quando a verdade literal já não é suficiente para sustentar a relação.


A partir dessa escolha, o filme investiga a identidade não como afirmação pública, mas como vivência relacional. A drag de Jia Hao não é apresentada apenas como performance artística ou expressão de gênero, mas como ferramenta de sobrevivência emocional. O longa sugere que a fluidez entre filho e filha, entre personagem e pessoa, não apaga quem Jia Hao é, mas permite que ele ocupe um lugar de cuidado que antes lhe havia sido negado.

O irmão de Jia Hao representa a piedade filial delegada, enquanto a cunhada verbaliza limites que o discurso tradicional da família chinesa costuma calar. O filme não julga; expõe.Ong Kuo Sin recusa soluções exemplares e prefere observar como cada personagem lida com aquilo que não pode ser reparado.

“A Good Child” constrói sua força ao tratar a reconciliação não como redenção plena, mas como possibilidade parcial e imperfeita. Ao articular demência, drag, família e memória, o filme propõe que o afeto pode surgir mesmo em condições precárias, quando a lembrança falha e o passado não se deixa organizar.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

A Miss (Brasil, 2025)

“A Miss”, primeiro longa de Daniel Porto, chega aos cinemas brasileiros após uma trajetória consistente em festivais europeus. O filme é uma comédia dramática afiada sobre afeto, projeção e identidade. Ambientado em um universo familiar, e também os concursos de Misses, marcados pelo excesso e pela performance, o filme parte de uma premissa simples e eficaz: uma mãe que nunca abandonou o brilho de seu passado como rainha da beleza e dois filhos tentando sobreviver às expectativas herdadas. O resultado é uma narrativa que combina humor escrachado e melancolia íntima, sem nunca perder de vista o peso real que essas fantasias exercem sobre quem cresce à sua sombra.

No centro da história está Iêda, vivida com vigor por Helga Nemetik, numa atuação que reverbera os momentos mais inspirados de Paulo Gustavo, uma ex-miss que transforma a própria casa em um palco permanente de competição simbólica. Sua obsessão em ver a filha Martha(Maitê Padilha) repetir o feito que marcou sua juventude revela menos ambição materna e mais recusa em aceitar o tempo, o fracasso e a autonomia alheia. É o arquétipo claro da “Mãe de Miss”. Martha, deslocada e sem interesse algum pelo universo dos concursos, funciona como corpo de resistência silenciosa a esse projeto de continuidade forçada, enquanto absorve as frustrações que não lhe pertencem.

É nesse desequilíbrio que Alan(Pedro David) encontra espaço para surgir como o verdadeiro motor do filme. Irônico, sensível e claramente mais afinado com o imaginário da mãe, ele encarna uma inversão direta das expectativas de gênero que estruturam o sonho de Iêda. A ideia de fazê-lo disputar o concurso no lugar da irmã, com a ajuda do pintoso “tio Athena”, personagem de Alexandre Lino, transforma o filme em uma comédia de erros que nunca esconde sua vocação política. O riso nasce justamente da exposição do absurdo que sustenta normas rígidas de masculinidade e feminilidade.

“A Miss” assume sem pudor uma estética vibrante, com cores saturadas e uma direção de arte que busca diálogo com o melodrama mais pop de Pedro Almodóvar, uma influência declarada do diretor. Essa estética, entre concursos e o lar, reflete o modo como os personagens performam identidades para sobreviver dentro da família.

O queer do filme não aparece como subtrama, mas como eixo organizador da narrativa. Ao colocar um personagem masculino como aquele que melhor encarna o ideal da "Miss Grajaú", Daniel Porto desmonta a lógica cisnormativa do concurso de beleza e a transforma em metáfora para pertencimento e reconhecimento. A sexualidade e a expressão de gênero de Alan não são tratadas como problema a ser resolvido, mas como potência criativa.

Sem moralismos, “A Miss” é sobre coragem cotidiana. Coragem de rir da própria dor, de desobedecer expectativas familiares e de reinventar tradições que já não fazem sentido. Daniel Porto, vindo do teatro e do cinema queer de curta-metragem, demonstra segurança ao expandir seu universo para o longa, equilibrando humor, crítica social e afeto genuíno. Entre faixas, coroas e perucas, a mensagem que ecoa é um clichê, mas sempre infalível: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.