quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Primeiras Impressões sobre THE BEAUTY: LINDOS DE MORRER

Depois de uma duvidosa incursão no melodrama jurídico com “All’s Fair”, a nova aposta de Ryan Murphy ao lado de Matthew Hodgson, “The Beauty”, mistura sci-fi, horror corporal e crítica cultural. A série estreia já despejando três episódios de uma vez e acompanha uma onda de mortes grotescas no mundo da moda internacional, ligadas a uma droga revolucionária chamada The Beauty. Entram em cena Cooper Madsen (Evan Peters), agente do FBI consumido pela investigação, Jordan Bennett (Rebecca Hall) como contraponto racional, o bilionário messiânico vivido por Ashton Kutcher, além de Jeremy Pope, Anthony Ramos e Bella Hadid. Desde os primeiros minutos, Murphy deixa claro que não se trata apenas de um thriller estilizado, mas de um comentário venenoso sobre desejo, poder e a obsessão contemporânea pela perfeição física.

A estrutura narrativa é a de uma conspiração clássica, com investigação, vírus misterioso e corpos caindo em sequência, mas tudo filtrado pelo que já vem sendo chamado de o fator Ozempic. A série não perde tempo em apresentar a fantasia do “corpo ideal” como mercadoria extrema. A sequência de abertura em Paris, eletrizante e autoconsciente, ecoa “O Quinto Elemento”, de Luc Besson, inaugurando a carnificina fashion com gosto de espetáculo. Nesse início surge o arco de Jeremy, interpretado por Jaquel Spivey antes da transformação e depois por Jeremy Pope, um corpo antes rejeitado que agora passa a ter a chance de se tornar um “Chad”. Murphy não está interessado em sutileza: o culto à magreza, à simetria e à juventude é apresentado como epidemia global.

Visualmente, “The Beauty” abraça o horror corporal sem economia, mas com método. Clínicas assépticas, fraturas expostas e explosões que acontecem de dentro para fora transformam os corpos em “sacos de carne”, flesh sacks moldáveis, descartáveis e reprogramáveis. O mundo da moda entra literalmente em combustão de vísceras. Murphy atualiza obsessões antigas, cirurgia plástica, fetiche médico, mutilação, agora filtradas por um sci-fi mais brutal bem definido por The Prodigy na sequência inicial. O conceito de “Self-ignition ketosis”, a cetose de autoignição, dá verniz técnico à ideia de corpos que explodem por colapso interno. Aqui, Alien encontra “Nip/Tuck”, mas com menos glamour e mais placenta, já que as transformações lembram partos grotescos de versões “melhoradas” de si mesmas.

A leitura queer ainda se apresenta de forma difusa nesses primeiros episódios, mas pulsa no subtexto. Há muito sexo hétero, corpos musculosos e suor, mas a assinatura de Murphy está ali, vibrando nas frestas. Ben Platt surge com sangue respingando no olho, entregando a cota de pinta que o público agradece, enquanto os bastidores da moda se revelam como espaço de desejo, comparação e fetichização do corpo masculino. O arco de Jeremy Pope, um outsider desesperado por aceitação, concentra a potência simbólica da série. Antes da transformação, ele odiava como o mundo o via. Depois, passa a odiar o que precisa se tornar para ser desejado. O corpo como passaporte social nunca pareceu tão violento.

As referências se acumulam sem pudor: Cronenberg, “O Iluminado”, “Star Wars”, “A Substância”, “A Morte Lhe Cai Bem”, além do próprio universo de “American Horror Story”. Entre Itália e Nova York, Evan Peters fala italiano sem que ninguém questione muito, enquanto Ashton Kutcher surge com mais força no terceiro episódio, ostentando em um barco de luxo ao lado de Isabella Rossellini, eterna guardiã da Fonte da Juventude. Anthony Ramos aparece como assassino funcional, e Kutcher crava a filosofia da série em uma frase: pessoas bonitas não devem seguir regras.

As primeiras impressões de “The Beauty” são instigantes, mas exigem receio.. A contaminação de Jordan, personagem de Rebecca Hall, e seu desaparecimento empurram Cooper para uma busca obsessiva por cura, enquanto o arco de Jeremy se expande como peça-chave da narrativa. O que está em jogo não é apenas quem controla a droga, mas quem decide quais corpos merecem existir. Ainda é cedo para saber se Murphy vai sustentar a crítica ou se perder em excesso e autoindulgência, algo que seu histórico recente recomenda temer. Por ora, “The Beauty” promete um pesadelo elegante, inflamado e perversamente divertido. O perigo, como sempre, é Ryan Murphy ser Ryan Murphy.

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