Com nove indicações ao Goya, incluindo Melhor Filme, o vencedor do Sebastiane Award, no Festival de San Sebastián, “Maspalomas” chega a 2026 como o filme queer espanhol da temporada. Dirigido por Aitor Arregi e Jose Mari Goenaga, o longa encara de frente o desejo gay na velhice. Desde a primeira cena, uma imersão impactante no cruising, a história de Vicente (José Ramón Soroiz) recusa qualquer verniz de respeitabilidade triste. O filme entende que envelhecer não significa apagar o corpo, muito menos o tesão, e constrói sua força justamente a partir dessa fusão entre medo social e pulsão vital.
Vicente é um homem de 76 anos que, após um derrame e o fim de uma relação longa, se muda para uma residência assistida em San Sebastián. Ali, ele decide voltar ao armário, não por falta de desejo, mas por sobrevivência. O roteiro de Goenaga é afiado ao mostrar como a homofobia não precisa ser explícita para funcionar. Ela se infiltra nos olhares, nas piadas, no silêncio constrangido, na ideia persistente de que idosos são assexuados e, por extensão, héteros. Soroiz entrega uma atuação devastadora e sensual, feita de pequenos gestos, culpas acumuladas e uma dignidade que nunca se rende ao autoapagamento.
O contraponto surge nas relações que Vicente estabelece dentro da própria residência, especialmente com o colega Xanti(Kandido Uranga), cuja presença desestabiliza certezas e cria fissuras inesperadas. O elenco, todo basco e composto majoritariamente por atores maduros, sustenta um filme onde o afeto se constrói sem pressa e sem caricatura. Nerea (Nagore Aranburu) aparece como figura essencial nesse equilíbrio, trazendo humanidade às tensões familiares e afetivas que atravessam o protagonista. “Maspalomas” entende que a saída do armário na velhice não é um gesto único, mas um processo cheio de idas e voltas.
Quando o filme se desloca para Gran Canaria, o impacto é imediato. As dunas de Maspalomas, fotografadas com luz quente por Javier Agirre, funcionam como território de liberação, desejo e memória. O contraste entre o cinza da residência e a vibração solar do sul da Espanha não é sutil, mas também não é gratuito. O espaço queer aqui é político, erótico e coletivo. O filme celebra o cruising, o flerte e o prazer maduro sem exotizar corpos envelhecidos, algo ainda radical mesmo dentro do cinema LGBTQIA+.
Há humor em “Maspalomas”, e isso é crucial. Arregi e Goenaga evitam o melodrama fácil ao apostar em situações cotidianas, diálogos secos e uma ternura que nunca infantiliza seus personagens. A trilha sonora, indicada ao Goya, mistura folk basco com uma energia solar que acompanha a redescoberta do desejo como direito básico. O filme fala de masculinidade frágil, culpa católica, família tóxica e amizade intergeracional sem transformar nada disso em discurso explicativo.
“Maspalomas” é um filme sobre sair do armário outra vez e outra vez, mesmo quando o mundo insiste em dizer que já passou da hora. Ao colocar um homem gay idoso no centro da narrativa, desejante, contraditório e vivo, o longa amplia o imaginário queer contemporâneo e reivindica prazer sem prazo de validade. Não é à toa que o filme acumula indicações, prêmios e buzz. “Maspalomas” não trata a velhice como epílogo, mas como reinvenção, e faz isso com sol, sexo, orgulho e um sorriso.
Onde assistir?
ResponderExcluirhttps://drive.google.com/file/d/1tYZEwnLP0jxSKLlCFI12R4a6U2WeIx1j/view?usp=sharing
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