“Sinfonia de Guerra”, de Nicholas Hytner a partir de um roteiro de Alan Bennett, é um filme que entende a repressão não apenas como contexto histórico, mas como forma estética. Ambientado na Inglaterra de 1916, em plena Primeira Guerra Mundial, o longa acompanha uma sociedade coral em Ramsden, Yorkshire, transformando a música em espaço de contenção, sublimação e sobrevivência emocional. Tudo ali é dito pelas bordas: sentimentos passam por eufemismos, desejos se escondem em gestos mínimos, e a política do corpo se manifesta mais pelo silêncio do que pela afirmação.
No centro desse arranjo está o Dr. Henry Guthrie (Ralph Fiennes), figura imediatamente marcada como outsider. “Não um homem de família”, filogermânico, ateu e avesso ao patriotismo performático, Guthrie carrega uma homossexualidade nunca verbalizada, mas cuidadosamente codificada. A morte de seu amante alemão, um marinheiro do encouraçado Pommern, surge sob a máscara do “amigo”, permitindo apenas um luto privado, contido, quase clandestino. É um retrato pungente de como o amor queer, naquele contexto, só podia existir como perda silenciosa.
O pianista Robert Horner (Robert Emms) amplia esse subtexto ao encarnar uma outra variação da dissidência. Ao pedir para ser “amigo” de Guthrie, pedido recusado com uma frieza protetora, e ao se tornar objetor de consciência, Horner passa a ser interrogado não apenas por sua política, mas por sua masculinidade. O tribunal que o questiona sobre esportes, hábitos alimentares e postura moral deixa claro que a homossexualidade, mesmo sem nome, é o fantasma em julgamento. O filme nunca explicita, mas insiste em fazer o espectador ouvir o que não pode ser dito.
O coral, por sua vez, funciona como metáfora queer por excelência. É um espaço de reunião para corpos desviantes da norma bélica: mulheres, idosos, feridos, homens que não foram ao front e gays. Cantar juntos torna-se um ato de resistência sensível, um modo de experimentar comunhão em um mundo que exige virilidade, sacrifício e silêncio emocional. A escolha de “The Dream of Gerontius”, de Elgar, encenada com o protagonista como um soldado ferido, reforça essa dimensão: a transcendência não vem da glória patriótica, mas da arte compartilhada e da aceitação da finitude.
Ainda assim,o filme desloca o foco para romances heterossexuais juvenis, suavizando os fios queer em nome de uma recepção mais ampla. A homossexualidade de Guthrie, especialmente, permanece mais como atmosfera do que como conflito dramático pleno, e a interpretação de Fiennes, precisa, estoica, quase rígida, evita a vulnerabilidade erótica que poderia aprofundar o personagem.
Mas essa recusa ao explícito também inscreve o filme numa tradição muito específica do cinema queer britânico: elegante, sugestivo e melancólico. Hytner e Bennett, ambos abertamente gays, parecem menos interessados em reivindicação do que em memória, menos em escândalo do que em eco. “Sinfonia de Guerra” não oferece declarações sob o luar, mas trocas de olhares durante um réquiem, afetos codificados em disciplina artística e desejos enterrados sob a harmonia coletiva.



