sexta-feira, 21 de junho de 2024

Queendom (EUA/França, 2023)

Para ê artista performátique Gena Marvin, sua casa se tornou o principal perigo para sua vida. O documentário que acompanha há quatro anos, entre 2019 e 2022, logo no início da invasão da Ucrânia que também se tornou uma ameaça para um certo número de jovens russos, justifica-se através dos seus figurinos escandalosos e criativos e em passeios a pé pelas ruas de Moscou perante o olhar curioso, mas também furioso, dos transeuntes.

Queendom, de Agniia Galdanova, apresenta-se, assim, como um retrato que se expande progressivamente para um olhar mais coletivo, sem que Gena Marvin se manifeste realmente como  ativista global representando um grupo de pessoas que não são aceitas em seu país, mas como uma reivindicação de sua identidade pessoal. Aos 21 anos, elu decidiu mostrar sua arte e não-binariedade sem medo: "Não me identifico com nenhum gênero ou orientação sexual. Mas também não tenho medo de nada." 


O documentário mostra algumas das atuações de Gena Marvin em gravações que ê tornaram popular nas redes sociais, mas que geralmente têm um fundo de opressão e solidão, em espaços vazios onde elu rasteja pela lama, ou em que anda perdide enrolade em fitas. E, no entanto, elu é reconhecide nos círculos artísticos, participando de uma sessão de fotos para a Vogue Rússia ou de um desfile de moda em que sua presença também desafia a beleza das modelos russas. 


Os momentos mais íntimos e frustrantes acontecem quando elu interage com seus avós, com quem fala ao telefone de Moscou ou quando volta para casa em Magadan, uma cidade de pescadores. Lá, elu  ajuda o avô no trabalho de pesca, mas também ouve novamente os comentários que mostram a incompreensão sobre o tipo de vida que leva ou como está constrangendo sua família.

Na realidade, parece haver um profundo sentimento de amor por parte dos avós, uma espécie de resignação que, no entanto, especialmente por parte do avô, é cheia de reprovações, mesmo que tentem ser afetuosas. A única vez que Gena realmente expressa medo é quando a invasão da Ucrânia está prestes a acontecer e elu tenta obter um visto para deixar a Rússia antes de ser convocade, ciente de que "entrar para o exército significa morte para mim". 


Queendom captura a situação de uma geração de pessoas LGBTQ+ enquanto Galdanova observa Gena em casa e em público. A diretora fez uma bela produção com muito amor pela imagem dos figurinos insanos que Gena faz e veste. Para ela, o documentário é sobre amor, resistência e compaixão. Uma vez em Paris, a emoção vem à tona. Ouvindo os resmungos do avô e depois conversando com a avó, elu percebe que não consegue viver sem eles, pois são os únicos que sabem quem elu é.



Spark(EUA, 2024)

Dirigido por Nicholas Giuricich, Spark tem um grande ponto positivo a seu favor, ele não usa a narrativa LGBTQIA+ tradicional, e sim a do loop temporal. Aaron (Theo Germaine) se vê revivendo o mesmo dia: sendo acordado pelu  amigue e colegue de quarto Dani (Vico Ortiz), indo em uma festa de aniversário com um belo estranho, Trevor(Danell Leyva), e transando com ele. O que parece desencadear o ciclo é o sexo.

Outro aspecto bastante positivo é que o filme mostra Germaine como uma estrela trans e não-binárie interpretando um personagem que compartilha o que significa se sentir confortável na própria pele enquanto explora os corpos de seus colegas na tela e navega pelas leis da atração.


Os loops temporais de Aaron em Spark são acionados durante cenas de sexo com Trevor, frequentemente quando um deles aumenta a paixão para ficar um pouco mais áspero. O que permanece constante são os esforços de Aaron para maximizar o loop temporal, descobrindo os gostos e desgostos de Trevor para seduzi-lo.


À medida que aprendemos sobre Trevor, ele se torna mais atraente. Spark se encaixa em algum lugar entre um romance e um filme de gênero, é preciso dizer que a apresentação naturalizada de personagens trans e não-bináries é muito bem vinda.



quinta-feira, 20 de junho de 2024

QUEM QUER QUEER



De 26/06 a 03/07 acontece no Rio de Janeiro, nos cinemas do Estação,  a mostra Quem Quer Queer. São mais de 20 obras selecionadas para compor um rico catálogo de representatividade, dentre mais e menos conhecidas pérolas do cinema LGBTQIAPN+. Vem conferir a programação

Programação (Estação NET Botafogo 1):


Quarta, 26/06:

21h - Orlando, Minha Biografia Política


Quinta, 27/06:

14h - Teorema

16h - Caravaggio

17h55 - Colegas de Classe

19h15 - Nunca Fui Santa

21h - Cidade dos Sonhos


Sexta, 28/06:

11h - Orlando, Minha Biografia Política (NET Rio)

14h - A Lei do Desejo

16h - O Funeral das Rosas

18h05 - Tangerina

19h55 - E Sua Mãe Também

22h - Pink Flamingos

23h59 - Crash: Estranhos Prazeres


Sábado, 29/06:

11h - O Funeral das Rosas (NET Rio)

14h - Nunca Fui Santa

15h45 - Lírios D’Água

17h40 - Blue

19h55 - Mistérios da Carne

22h - Paris Is Burning

23h59 - Ligadas pelo Desejo


Domingo, 30/06:

14h - Cidade dos Sonhos

16h50 - Batguano

18h25 - Priscilla, a Rainha do Deserto

20h30 - O Segredo de Brokeback Mountain


Segunda, 01/07:

14h30 - Caravaggio

16h25 - Blue

18h50 - A Lei do Desejo

21h - A Bela da Tarde


Terça, 02/07:

14h - E Sua Mãe Também

16h20 - Teorema

18h15 - Lírios d’Água

20h - Orlando, Minha Biografia Política


Quarta, 03/07:

14h - Tangerina

15h50 - Mistérios da Carne

18h - Batguano

19h40 - Colegas de Classe

21h - Filmes Queer em Super-8 na Paraíba

Quinta, 04/07:

21h -  Novos Filmes Queer

Sexta, 05/07:

21h -  Toda Noite Estarei Lá

Programação (Estação NET Gávea):

Sábado, 06/07:

14h30 - Ligadas Pelo Desejo, das Irmãs Wachowski, com 105 min.

16h35 - Nunca Fui Santa, de Jamie Babbit, com 84 min.

18h30 - Crash: Estranhos Prazeres, de David Cronenberg, com 100 min. 20h30 - Cidade dos Sonhos, de David Lynch, com 147 min. VALORES: 16 reais a unidade das sessões regulares. 18 reais os Filmes da Meia-Noite e as matinês. Pacotes de ingressos (7 ingressos a 12 cada e 14 ingressos a 11 cada) disponíveis na bilheteria local do Estação NET Botafogo.



Becoming Karl Lagerfeld (França, 2024)

Vagamente baseado na biografia Kaiser Karl, de Raphaëlle Bacqué, publicada logo após a morte de Lagerfeld, em 2019, Becoming Karl Lagerfeld apresenta um exame muito bem fundamentado do homem mais lembrado por seus cabelos brancos, rabo de cavalo e icônicos óculos escuros.

É aqui que conhecemos o ambicioso freelancer que estava desesperado para deixar sua marca, forjando rivalidades ferozes e emaranhados românticos ao longo do caminho. No centro de tudo está o hipnotizante retrato de Daniel Brühl como o enigmático jovem Karl.

A série cobre aproximadamente dez anos da vida de Lagerfeld, bem no auge de sua carreira como designer para Chloé e Fendi, antes de seu trabalho com a Chanel transformá-lo no Karl Lagerfeld que lembramos hoje. Mas Becoming Karl Lagerfeld não está interessado nesse aspecto de sua vida, pelo menos não nas minúcias dele. Em vez disso, a série se concentra em relacionamentos interpessoais,


A atração não se esquiva dos aspectos mais pesados de seu envolvimento com Yves Saint Laurent (Arnaud Valois, de 120BPM). A história explora a rivalidade florescente, mas tensa, de Karl e Yves, enquanto ambos buscavam chegar ao topo e definir a era através de seus designs. A competição só foi intensificada pelo carinho que ambos passaram a desenvolver pelo mesmo homem, Jacques de Bascher(Theodore Pellerin). Como Karl continuou seu romance com Jacques, apesar de inúmeros obstáculos, isso colocou ainda mais tensão em seu relacionamento com Yves. 


O design de produção, de Jean Barrasse, é bastante glamouroso. Não faltam a alta-costura colorida dos anos 70 ou o estilo moderno, mas marcante, característico do próprio Lagerfeld. No entanto, a série de televisão francesa, criada por Isaure Pisani-Ferry, Jennifer Have e Bacqué, usa todo esse glamour e beleza como fachada, revelando os impulsos mais sombrios e isolados do designer. A incrível trilha sonora funciona como um cronômetro dos anos.


O desempenho sensível de Daniel Brühl humaniza Karl Lagerfeld sem descartar suas arestas mais afiadas. Entendemos as inseguranças e os muros defensivos por trás de sua persona distante. Mesmo momentos que poderiam mexer com julgamentos, como o tratamento dado aos rivais, tornam-se mais perdoáveis em seu devido contexto. A série acompanha como sua natureza protegida evoluiu em uma indústria implacável.


Brühl e Theodore Pellerin compartilham uma tremenda química na tela, eletrizando até mesmo os momentos apáticos de seus personagens. Seus olhares saudosos e trocas agridoces ressoam com emoção reprimida.


Ainda há espaço para uma narrativa bastante profunda e o estudo de personagem de Lagerfeld, que está quase desesperadamente se esforçando para triunfar, escondendo-se, mascarando-se e isolando-se, porque enfim, tinha um estilo peculiar.


quarta-feira, 19 de junho de 2024

Tudo o que Você Podia Ser (Brasil, 2023)

A amizade pulsa no coração de Tudo o que você podia ser, de Ricardo Alves Jr., que faz referência à canção de Milton Nascimento em seu título. O roteiro, de Germano Melo, com uma boa dose de improviso, é íntimo e cru, e traz um novo olhar sobre as narrativas LGBTQIA+ para a tela. “As origens são misturar realidade e ficção, com um elenco vivendo um pouco sua vida mas também uma fábula sobre ela, essa é a origem do projeto”, de acordo com o diretor. 

O roteiro foi elaborado a partir de histórias e vivências do próprio elenco, que estrutura as cenas enquanto o motor da construção do filme. “Tem um procedimento muito teatral, da sala de ensaio, de improvisação, diálogos que a gente mesmo cria, enquanto atrizes, dramaturgas, roteirista…”, completa Bramma Bremmer.


O longa acompanha o último dia de Aisha em Belo Horizonte, uma despedida que se desenrola na companhia de suas melhores amigas: Bramma, Igui e Will. Através das interações cotidianas entre as personagens, o filme oferece um retrato afetuoso da família acolhida, onde cada personagem corresponde a um espaço de vivências muito próprias.

Pinta, colocação, maquiagem, e uma linguagem muito específica, o pajubá, servem como pano de fundo para tratar temas como comunidade, HIV, afeto e sexualidade.  Alguns diálogos foram improvisados no set, partindo de indicações da direção e do roteirista Germano Melo. “Como ela vai chegar nessa questão está na base do improviso dela. O roteiro não está no modelo tradicional, mas constrói uma estrutura dramática onde cada personagem tem suas questões, tem seu drama, tem seu ponto de virada”, refere o diretor.



Como um filme de processo, Tudo o que Você Podia Ser, combina perfeitamente bem, e trata de temas autobiográficos com naturalidade, política e história. “Narrativas de pessoas HIV positivas sempre foram muito conectadas com a morte e com a tristeza, mas hoje qualquer pessoa que faz o tratamento vai se tornar indetectável. É importante falar isso e trazer uma história de vida”, revela Bramma.

Outro aspecto, é que o longa retrata Belo Horizonte, como poucas vezes vimos no cinema, como uma personagem. Em tom quase documental, a fotografia, de Ciro Thielmann, traz cenas gravadas em diferentes bairros e regiões da cidade, como Aglomerado da Serra, Bonfim, Centro, Lagoinha e Santa Tereza, construindo diferentes imagens desse espaço urbano.


A cumplicidade desses personagens em seus momentos compartilhados reafirmam o conceito de que a família é aquela que escolhemos, a que acolhe. É o registro de um tempo. E esses são questionamentos que o filme gera, mas que em um tom muito intimista, também celebra a amizade e a liberdade de se expressar e viver como quiser e puder.


A Sessão Vitrine Petrobras, que é o projeto da Vitrine Filmes em parceria com a Petrobras, está fazendo possível a distribuição desse filme. A Sessão Vitrine Petrobras  tem uma distribuição diferenciada, que permite que filmes brasileiros cheguem a um público que nem sempre teria acesso à produção nacional independente. Colaborou Marco Gal.

19 DE JUNHO - DIA DO CINEMA NACIONAL



Desde os tempos remotos das chanchadas com Oscarito e Grande Otelo, caracterizados com roupas femininas, já havia uma certa representatividade queer, porém, ela só começou a ser levada a sério mesmo a partir da década de 1960, com personagens mais matizados. Não é uma lista de favoritos, embora goste de todos, mas uma cronologia da representatividade LGBTQIA+, no cinema nacional, dos personagens marginalizados à crítica política, para celebrar a data de hoje.


terça-feira, 18 de junho de 2024

O Estranho (Brasil/França, 2023)

Como no clássico do cinema nacional Iracema - Uma Transa Amazônica(1975), o progresso tomado pelo homem está no centro de O Estranho. Dirigido por Flora Dias e  Juruna Mallon, o filme tem como principal cenário o Aeroporto de Guarulhos (SP), um símbolo de avanço, por onde circulam diariamente mais de 35.000 pessoas, e um monumento do mundo globalizado, mas também um marco do agressivo processo de colonização e ocupação de território. 

As personagens de Alê(Larissa Siqueira) e Silvia(Patricia Saravy) trabalham no aeroporto. Pertencentes ao estrato mais baixo das classes sociais, não se sabe ao certo o quanto de sangue nativo corre em suas veias. Entretanto, ambas as mulheres, circulam o ambiente mesmo em momentos de folga. Brincam de correr por uma aldeia que não existe mais e contemplam a natureza como ser superior.


Filmado ao longo de seis semanas, O Estranho mistura um interesse plural, o universo do aeroporto e o território de Guarulhos, com disposições das diretoras, como a ancestralidade indígena, as religiões de matrizes africanas, personagens e histórias profundas de pessoas encontradas ao longo da pesquisa: “uma pesquisa cinematográfica sobre como o processo de autoconhecimento individual e de ativação da memória ancestral se conjuga com a busca por território e a construção de paisagem” afirma Flora Dias.


Radical em termos de linguagem, o filme é ambientado na Guarulhos de hoje e do passado. O longa é um grande feito por ter a função de retratar vivências indígenas e trabalhar bem o debate e com respeito, ainda que com um orçamento limitado. “Cada minoria precisa contar a história”, defende diretora Flora Dias.


Com meditações políticas e uma história de amor queer, as diretoras propõem um filme mutável, capaz de questionar as promessas de progresso, dissecar o discurso colonial e, ao mesmo tempo, evitar o didatismo. A aldeia, o terreiro, são lugares bastante horizontais, com locais inclusive indicados por um babalorixá. “Toda essa preocupação a gente teve com todo mundo que colocou o seu corpo no filme", completa Flora.


Ganhador do Queer Lisboa, como filme de arte, o longa não nega suas raízes conceituais. É um filme que debate diversos assuntos, mas ainda assim não deixa de apresentar um relacionamento sáfico no centro. Essa construção das personagens não está num lugar de debate e sim naturalizado entre elas e a comunidade mais próxima. Aqui, a sexualidade não é questionada, ela simplesmente acontece.


Assim como Alê, o cenário também é um personagem central dentro da narrativa. O aeroporto, como representante da modernidade e descaracterizador da natureza. As memórias e o futuro dela e de seus companheiros estão permeados por uma questão comum: rastros de um passado em um território em constante transformação.



 Colaborou Stefano Maximo.

sábado, 15 de junho de 2024

Nosso Verão Daria um Filme(To kalokairi tis Karmen, Grécia, 2023)

Da Grécia vem o provocante Nosso Verão Daria um Filme, de Zacharias Mavroeidis, com um delicioso senso de subversão. Não faltam luxúria e drama de relacionamento, mas a amizade platônica no centro é o motor que faz o longa acelerar.

Os melhores amigos Demóstenes (Yorgos Tsiantoulas) e Nikitas (Andreas Labropoulos) passam o dia em uma praia de nudismo queer de Atenas, onde apreciam as rochas sob o sol, a bela água e o cruising rolando. Enquanto isso, eles discutem suas memórias de um verão recente e debatem transformá-lo em um roteiro para a estreia de Nikitas, no cinema.


O roteiro de Mavroeidis e Fondas Chalatsis traz uma qualidade lúdica para a tela, listando as "regras de ouro do roteiro" em uma exploração metalinguística da narrativa. Demóstenes e Nikitas tentam configurar pontos da trama a partir de situações da vida real. No entanto, a vida não não tem roteiro,


Após seu ato inicial, onde a cadela Carmen chega como mero catalisador simbólico das emoções contraditórias de Demóstenes, o filme muda um pouco do ritmo fantástico inicial à medida que oscila entre os dois períodos de tempo, sempre retornando ao processo de escrita do episódio contemporâneo, em paralelo com lições de vida que eles expressam enquanto escrevem.


O longa não é uma comédia de gargalhadas, mas tece momentos engraçados e alguns de vergonha alheia. Comparações com Rotting in the Sun, são inevitáveis, já que ambos são ambientados em uma praia de nudismo e usam da metalinguagem.


O sexo é uma parte importante dessa expedição, que o obriga os protagonistas a confrontarem seu futuro e o que realmente querem da vida. Yorgos Tsiantoulas, reforça seu status de Deus Grego em cenas de tirar o fôlego. Nosso Verão Daria um Filme reconfigura a comédia romântica sendo deliciosamente sexy e abordando identidade queer, amizade e as inseguranças que vêm com o questionamento do seu lugar no mundo.


Este não é o tipo de estudo de personagem que é brutal e sombrio, mas sim uma exploração emocionante e cativante do processo de chegar a um acordo com seus defeitos e o crescimento da autoconsciência.



sexta-feira, 14 de junho de 2024

I Saw The TV Glow(EUA, 2024)

Escrito e dirigido por Jane Schoenbrun, "I Saw the TV Glow" explora temas sobre depressão e identidade queer que são apresentados de maneiras abstratas. O longa foi descrito como um filme de terror, mas é realmente um drama psicodélico e psicológico. 

"I Saw the TV Glow", que é contado em ordem cronológica, se passa de 1996 a 2004, em um estado americano sem nome. O filme  começa mostrando clipes de uma rede de TV dos EUA chamada Young Adult Network, um dos programas originais mais populares da rede é uma série de fantasia semanal chamada "The Pink Opaque"(numa provável referência ao Cocteau Twins), onde o longa debocha um pouco da televisão, música e moda dos anos 1990.


No filme, Maddy (Brigette Lundy-Paine) e Owen (Justice Smith) se unem  pela paixão pelo programa e com o tempo, compartilham uma devoção fanática ao significado e às estrelas mais profundas da série, bem como uma amizade crescente.


A vida de Owen em casa é rígida, Embora sua mãe, interpretada por Danielle Deadwyler, seja amorosa e doce, seu padrasto, interpretado por Fred Durst, é raivoso e abusivo. Não vemos o abuso, mas está bem implícito. 




De uma forma muito precisa e sensível, que se tornou rara nos filmes juvenis, Jane Schoenbrun emula os produtos da cultura pop de uma época passada: "Buffy – A Caça-Vampiros", de Joss Whedon, por exemplo, é confiado e continuado de forma multifacetada.

O verdadeiro destaque do filme é o estilo de Schoenbrun. O design de produção e a fotografia tem muitos elementos surpreendentes, especialmente quando vemos The Pink Opaque.  Esses elementos do filme são granulados e propositalmente kitsch, ambientados na tradicional proporção 4:3. Há muitos tons de David Lynch aqui, mas o filme consegue encontrar sua própria voz.


A fotografia, de Eric Yue, é linda e rica, com uma pátina de escuridão. A música e as apresentações são agradáveis e integradas bem à contação de histórias. Em particular, as cenas de show lembram o Bronze de "Buffy", e dão uma sensação de um mundo alternativo e inclusivo.

"I Saw the TV Glow" é um exame sonhador, mas com tons de horror, da experiência queer especificamente trans. Esse é um dos aspectos definidores da narrativa, que a roteirista e diretora Jane Schoenbrun, ela mesmo transgênero, tem destacado em aparições na mídia para que ninguém entenda mal as escolhas feitas. 





quinta-feira, 13 de junho de 2024

Wild Eyed and Wicked(EUA, 2023)

O diretor Gordon Foxwood transita habilmente entre o drama e as sombras costurando ambiciosamente fios de terror, fantasia e intenso drama familiar, criando um rico tecido narrativo que, embora convincente, encontra alguns obstáculos.

Lily Pierce(Molly Kunz) lida com sombras de seu passado no filme independente Wild Eyed and Wicked. A história acompanha Lily enquanto ela retorna à casa de sua família, buscando respostas sobre a morte traumática de sua mãe anos atrás. Lá, pesadelos de sua infância voltam a assombrar, manifestando-se em visões perturbadoras de uma presença sombria que ainda assombra a linhagem familiar.

Lily embarca em uma busca corajosa para lutar contra esses demônios, literalmente, enquanto visões aterrorizantes de seu passado ganham vida. Sua jornada também requer reconexão com seu pai distante, Gregory(Michael X. Sommers), que nunca foi capaz de superar a dor de perder sua esposa. Seu relacionamento conturbado reflete as cicatrizes de tragédias passadas não enfrentadas, mostrando como traumas herdados podem distorcer os laços familiares entre gerações.


Explorando a profundidade temática do filme, Wild Eyed and Wicked mergulha nas lutas associadas ao enfrentamento dos medos e ao poder de superar desconsolos. Através da jornada de Lily, a história aborda o impacto dos fardos históricos na identidade pessoal e o processo libertador de enfrentar os medos mais sombrios.


A namorada de Lily, Willow (Claire Saunders), infunde o enredo com apoio emocional adicional, fortalecendo a determinação da protagonista em sua busca. Enquanto o filme resolve suas tramas principais, ele deixa alguns fios soltos.


Filmado na fazenda ancestral do diretor, na Pensilvânia, a locação do filme se torna outro personagem. Gerações de memórias são tecidas no próprio solo, e o cenário reflete essa linhagem emaranhada. Embora desgastada pelo tempo, a fazenda também abriga lampejos de renovação, assim como os temas da narrativa de enfrentar sombras passadas e crescer novamente.




terça-feira, 11 de junho de 2024

Tenho que Morrer Todas as Noites (Tengo que Morir Todas las Noches, México, 2024)

A adaptação do livro Tengo que morir todas las noches: Una crónica de los ochenta, el underground y la cultura gay, em que o jornalista mexicano Guillermo Osorno escreveu um ensaio sobre o movimento contracultural na Cidade do México nos anos oitenta. através de personagens reais que eram comuns em lugares como El Nueve, um emblemático bar gay na Zona Rosa, chega ao Brasil como uma atração episódica.

A série é criada e dirigida por Ernesto Contreras, de Sonho em Outro Idioma, e conta a história de Guillermo (José Antonio Toledano), um jovem estudante que se muda para a Cidade do México para estudar jornalismo na Universidade, descobrindo a vida noturna ao redor dos bares da Zona Rosa, e vivendo seus primeiros relacionamentos no início da epidemia de AIDS.

Entre os protagonistas da série está o ator espanhol Brays Efe, de Paquita Salas e Maricón Perdido, que interpreta um dos donos do El Nueve, junto com o amante Carlo(Humberto Busto). A boate é o palco onde boa parte da cena glam da época se encontra. Mas a atração pretende ser não apenas um reflexo da comunidade LGBTQ+ no México, mas sobretudo uma descrição da música alternativa e dos ambientes que enfrentam discriminação por parte das autoridades, com uma trilha sonora repleta de canções icônicas da época, tanto em inglês quanto em espanhol.


Para Guillermo, que é irmão de um policial, aceitar sua identidade sexual se torna uma espécie de libertação de segredos e mentiras. Ele inicia um relacionamento com o Dj Blas(David Montalvo). Mas o mais interessante é a recriação de pessoas que ou ainda estão vivas, ou existiam naquela época.

A série nos mostra um cenário poucas vezes retratado e narra um período da história, que parece que o México prefere esquecer. A perseguição aos homossexuais pela polícia. A crise sanitária causada pela AIDS que o governo preferiu ignorar, enquanto pessoas LGBTQIA+ revidaram com seu ativismo.


Silvia Navarro, que é uma deusa das novelas mexicanas, traz uma grande e acolhedora performance como a lésbica Gloria e seu romance tumultuado com a cantora Aida(Cristina Roldo).  José Antonio Toledano, que já havia mostrado muita garra em Isso não é Berlim, protagoniza com muita segurança. Em meio às suas experiências pessoais, os personagens vivem as afrontas de uma sociedade e de um sistema judicial profundamente repressivos contra a liberdade sexual.


BIOPICS LGBTQIA+


Nas artes. Nas ciências. Na literatura.Na política. As pessoas LGBT sempre estiveram à frente(ainda que nas sombras) fazendo a diferença no curso da História. Em mais uma THREAD comemorativa, separei CINEBIOGRAFIAS, um gênero delicado, sobre personagens que deixaram para sempre sua marca. O Fio no X/TWITTER, com as indicações.

segunda-feira, 10 de junho de 2024

13 Sentimentos(Brasil, 2024)

Os sentimentos são o motor que move o novo longa de Daniel Ribeiro, pelo menos 13 deles. Mas o primeiro que bate é a confusão do fim de um relacionamento, João(Artur Volpi) acaba de sair de um casamento de 10 anos, e precisa agora descobrir a vida. E ele faz isso através de um método bastante contemporâneo no meio LGBTQIA+, pelos apps de namoro ou sexo.

Pela internet ele conhece Vitor, Michel Joelsas, de Boca a Boca, por quem realmente se interessa, mas quem não consegue conhecer por inteiro, No entanto, também uma variedade de outros homens, com quem logo após irá compartilhar sobre os encontros com seu diverso grupo de amigos.


E se em Hoje eu quero voltar Sozinho, Daniel Ribeiro soube muito bem filmar a descoberta sexual, o que lhe rendeu um Teddy, no Festival de Berlim, dessa vez o cineasta se destaca pelas cenas de sexo, tão reais, e naturais, quanto a vida, mas sem nunca cair num território apelativo ou voyeurístico, com diversidade de texturas e corpos. E é nessa aventura que, João, que é um cineasta, começa a terceirizar seus serviços para filmar outros encontros, e explorar a cultura OnlyFans.


Um cubo mágico, traz simbolismo e até um aspecto lúdico ao projeto, afinal, quem conseguir resolvê-lo, provavelmente conquistará João,  que precisa resolver a vida agora que ela está recomeçando, como o cubo, isso exige complexidade. Essa mistura de realidade e ficção, o cineasta atribui Bergman’s Island, de Mia Hansen-Løve, como uma das influências.


João também  está trabalhando num roteiro, o que brinca com o inevitável trocadilho de 13 centímetros,  e até mesmo em alguns diálogos, uma certa  metalinguagem se sobressai. É um caminho adotado pelo diretor, que também assina o roteiro, que afirma mais de uma vez que a vida imita a arte.


Lindamente fotografado, por Pablo Escajedo, o longa nos dá um vislumbre da vida queer em São Paulo, a maior metrópole do país, e como mesmo no meio da multidão, ela está repleta de sentimentos representado por um homem gay, que agora solteiro, precisa rever suas emoções. Um cena de festa foi rodada no estúdio fotográfico de Fábio Audi, que interpretou Gabriel em Hoje Eu Quero Voltar Sozinho. Nesta cena, ele fez uma participação especial.


O filme lida com conflitos universais e por isso é tão atual, seu elenco, bastante diverso, brilha em cena, principalmente o protagonista Artur Volpi, que compartilha uma química imbatível com todos com que divide a tela, tanto na cama ou numa mesa de bar com seus amigos, vividos por Marcos Olli e Julianna Gerais.


Temos um Mais que Amigos para chamar de nosso! Embora os filmes não se pareçam em seu conteúdo se parecem na forma, com uma abordagem mais comercial que pretende atingir a um público maior, mesmo que nichado, e sair do lugar de fala do cinema LGBTQIA+ conceitual e independente. Nesse ponto, mesmo que com orçamento limitado, o ensolarado longa de Daniel Ribeiro, irá levar vivências queer para as grandes plateias.