A primeira metade é ancorada no desconforto. Kenji cresce sob o peso de expectativas rígidas, incapaz de se reconhecer no papel masculino que lhe é imposto. Matsumoto evita caricaturas fáceis. O bullying é cotidiano, repetitivo, quase burocrático em sua crueldade. Haruki Mochizuki constrói Kenji com contenção e uma vulnerabilidade que nunca se converte em histeria. Pequenos gestos, o modo como o corpo se fecha ou ensaia se expandir diante do espelho, comunicam mais do que discursos sobre identidade. O filme insiste que tornar-se Ai não é um evento, mas uma sucessão de microcoragens.
O encontro com o Dr. Koji Wada (Takumi Saito), introduz uma camada ética delicada. Inspirado no pioneiro médico real associado à história de Ai Haruna, Wada não é retratado como salvador, mas como alguém também aprendendo. As conversas entre os dois são marcadas por hesitação e escuta. Há uma cena de procedimento cirúrgico particularmente comovente em que o médico oferece conforto com uma frase simples, sem triunfalismo. O vínculo entre eles é de confiança construída no meio de incertezas médicas, sociais e morais, lembrando que o acesso à terapia hormonal e à cirurgia de afirmação ainda opera, muitas vezes, na fronteira da clandestinidade.
Quando Kenji encontra o cabaré cosmético, o filme muda de temperatura. As sequências musicais funcionam como pivôs narrativos. O lip sync não é apenas imitação, mas estratégia de sobrevivência. Ao encarnar uma idol cis, Ai questiona autenticidade e fabricação, expondo como o gênero sempre foi performance, apenas mais tolerada quando encaixada na norma. A trilha original de Akira Kosemura, com piano e arranjos orquestrais, cria um contraste entre a dor privada e a explosão pop do palco.
Ainda assim, o roteiro por vezes desconfia da própria força e sente necessidade de explicar o que já está claro. Em alguns momentos, a narrativa abandona a observação e opta por sublinhar sua mensagem, transformando experiências vividas em tese. Certos conflitos institucionais e midiáticos são resolvidos de maneira excessivamente limpa, suavizando a complexidade do escrutínio público enfrentado por figuras trans no Japão. A oscilação tonal entre estudo contido de personagem e biografia celebratória cria transições abruptas que nem sempre encontram equilíbrio.
Mesmo com essas hesitações, “Esta Sou Eu” permanece como um retrato sensível de identidade em construção. Tae Kimura, como a mãe de Ai, oferece uma composição dolorosamente humana, presa entre amor e incompreensão. O filme evita transformar a jornada em narrativa de superação simplificada. Ao articular corpo, mídia e desejo de reconhecimento, Matsumoto constrói uma obra que reconhece tanto o progresso quanto as fraturas ainda abertas. “Esta Sou Eu” pode não ser formalmente radical, mas é emocionalmente honesto e visualmente POP.



