Uma viagem de férias que não conduz apenas de um cenário pitoresco a outro, mas da infância à vida adulta. “Estrany Riu”, estreia em longa-metragem de Jaume Claret Muxart após o curta homônimo de 2023, parte de códigos conhecidos do coming-of-age, mas os reconfigura com delicadeza e convicção autoral. Há o protagonista adolescente de beleza convencional, interpretado com contenção por um jovem ator em início de carreira; há o despertar difuso da sexualidade atravessado por um véu de misticismo; e há um conjunto de referências culturais que não funciona como ostentação, mas como o vocabulário natural de um universo familiar onde arte e sensibilidade fazem parte do cotidiano. O fio dramático é frágil, sim, mas essa fragilidade parece intencional: o filme aposta na suspensão, não no conflito.
Dídac (Jan Monter), 16 anos, surge pela primeira vez envolto pela luz quente do verão, enquadrado de forma tão idealizada quanto em um editorial de moda. Ele viaja de bicicleta ao longo do rio com a mãe Monika (Nausicaa Bonnín), atriz em processo contínuo de ensaio; o pai Albert (Jordi Oriol), arquiteto; e os dois irmãos mais novos, Biel (Bernat Solé) e Guiu (Roc Colell). Embora o filme sugira um “rio estranho” quase mítico, trata-se claramente do Danúbio, já explorado por Muxart em sua obra anterior, o curta que originou o longa. O deslocamento geográfico, no entanto, importa menos do que o deslocamento sensorial: “Estrany Riu” rapidamente abandona qualquer expectativa de road movie romântico para se dedicar à observação de estados de espírito.
É justamente nessa recusa ao arco narrativo tradicional que o filme encontra sua força. Muxart constrói “Estrany Riu” como um campo de sensações, onde o crescimento não se mede por eventos, mas por mudanças quase imperceptíveis no modo de olhar. A fotografia em 16mm, de Pablo Paloma, dá ao filme uma textura quente, que transforma a paisagem em memória em formação. A câmera demora na água, na pele, na folhagem atravessada pelo sol, como se tentasse fixar aquilo que normalmente escapa. As conversas sobre arquitetura modernista e as citações de Hölderlin não soam pretensiosas, mas ajudam a delinear os temas centrais: herança cultural, educação sensível e a lenta construção de um desejo ainda sem nome.
A curiosidade do jovem protagonista, no entanto, se fixa em uma figura específica: um jovem misterioso, Alexander (Francesco Wenz), visto pela primeira vez nadando nu no rio, depois surgindo entre as sombras da floresta e, mais adiante, caminhando sozinho pelos corredores quase vazios da escola de arte. A partir desse encontro, o filme desloca seu centro narrativo. Não fica claro se esse personagem é real ou a materialização de um desejo difuso, sexual, estético ou ambos. Muxart e o roteiro optam pela ambiguidade, tratando o rapaz como um fantasma íntimo que atravessa o verão de Dídac.
Esse encontro funciona menos como motor dramático e mais como catalisador interno. O jovem desconhecido não exige explicações, nem resolução, apenas intensifica o estado do protagonista. O filme entende o despertar da sexualidade não como revelação súbita, mas como um processo feito de projeções, silêncios e pequenos deslocamentos do corpo no espaço.
“Estrany Riu” é um coming-of-age que encontra coerência justamente na sua delicadeza e no seu tom contemplativo. Seus temas principais, desejo emergente, contemplação, herança artística e passagem do tempo, são trabalhados por acúmulo de imagens e atmosferas, não por declarações. Se o filme se apaixona pela própria beleza, esse gesto não soa narcisista, mas orgânico a um projeto que entende a juventude como um estado de hipersensibilidade. Muxart entrega um retrato em que a identidade não se anuncia, mas se pressente, como a corrente silenciosa de um rio que atravessa o verão e permanece, invisível, na memória.
https://pinkmovie.com.br/movies/details/estrany-riu/2105
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