quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

1 Girl Infinite (EUA, 2025)

“1 Girl Infinite”, estreia de Lilly Hu, é um retrato febril do amor jovem quando ele deixa de ser abrigo e passa a funcionar como risco. Ambientado em uma Changsha saturada de cor e ruído, o filme acompanha Yin Jia (Chen Xuanyu) e Tong Tong (, a própria diretora Lilly Hu), duas adolescentes que dividem casa, rotina e um afeto desigual, carregado de dependência, projeção e desespero. 

Hu filma a adolescência como um território onde tudo pode ruir a qualquer gesto mal calculado. O ritmo deliberadamente lento não suaviza o desconforto, ao contrário, o prolonga, tornando cada silêncio e cada aproximação mais carregados. O mundo de Yin Jia e Tong Tong parece sempre à beira do colapso, e a diretora sustenta essa sensação por meio de um movimento constante de câmera, que nunca se aquieta. Desejo, ingenuidade e medo coexistem em estado bruto, sem filtros ou ironia.

Quando Tong Tong se afasta e se envolve com um traficante (Bo Yang), a assimetria entre as duas torna-se insustentável. Yin Jia ama com uma devoção que beira o autoaniquilamento, enquanto Tong Tong transita pelo mundo com uma leveza que mascara sua própria violência emocional. A dinâmica entre elas ecoa, de forma inquietante, a tradição sáfica do cinema de formação, lembrando o deslocamento doloroso vivido pelas adolescentes de “Lírios da Água”, de Céline Sciamma, onde uma personagem é condenada a assistir, impotente, à partida da outra. Aqui, porém, o cenário chinês e a precariedade social adicionam uma camada de urgência menos abstrata e mais física.

As atuações sustentam esse desequilíbrio com precisão incômoda. Hu constrói Tong Tong como alguém volátil, performática, capaz de alternar charme e frieza conforme a situação exige, enquanto Chen Xuanyu faz de Yin Jia uma presença sensível e explosiva, marcada por uma lealdade que não encontra retorno. Jia é órfã, endurecida pela necessidade de sobreviver sozinha, mas ainda profundamente frágil diante da brutalidade do mundo, algo explicitado em sequências como a observação silenciosa do mercado de peixes, onde a violência cotidiana se impõe sem metáfora.

“1 Girl Infinite” aposta em cores vibrantes e escolhas de edição que intensificam o estado mental das personagens. À medida que a relação se deteriora, a mise-en-scène se torna excessiva, quase sufocante, como se a realidade estivesse se dissolvendo em estímulos. Em alguns momentos, essa estratégia escorrega para a repetição, com flashes de luz e música surgindo como tentativas nervosas de manter a sanidade narrativa. Ainda assim, há algo de coerente nesse excesso, já que o filme nunca promete equilíbrio.

Hu não suaviza os aspectos mais duros da adolescência, tampouco tenta moralizar seus personagens. Drogas, violência e comportamentos abusivos aparecem sem a distância confortável da alegoria. “1 Girl Infinite” pode ser difícil de assistir justamente porque é convincente demais em sua recusa ao alívio. Como estreia, é um gesto arriscado, imperfeito e intensamente pessoal, que deixa no espectador um gosto amargo.


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