quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Túnel de Lavado (Espanha, 2023)


“Túnel de lavado” é um curta que entende, desde o gesto inicial, que o desejo queer em ambientes hipermasculinizados não se organiza em trajetórias longas, mas em momentos-limite. Dirigido e roteirizado por Lucas Sogas, no seu primeiro filme autofinanciado, o trabalho condensa em cerca de 29 minutos uma experiência de tensão contínua, na qual o romance entre dois jogadores de futebol não busca redenção nem saída fácil. 

O universo do futebol não aparece como pano de fundo neutro, mas como estrutura disciplinadora do corpo e do afeto. Rubén (Marc Baltà) e Carlos (Álvaro Lucas) performam em público a camaradagem esperada, toques permitidos, risadas e brotheragem, enquanto recalcam qualquer gesto que possa denunciar outra natureza de vínculo. Essa duplicidade não é tratada como farsa consciente, mas como mecanismo de sobrevivência. O curta acerta ao mostrar que o armário, aqui, não é apenas imposto de fora: ele é reproduzido diariamente pelos próprios sujeitos que dele dependem.

É nesse contexto que o túnel de lavagem de carros surge como espaço simbólico central. Ao mesmo tempo refúgio clandestino e cápsula claustrofóbica, ele suspende o mundo exterior e intensifica o encontro sexual como experiência quase ritual. O sexo, filmado com forte ênfase na fisicalidade e no contato direto dos corpos, não é estetizado como libertação, mas como confronto. O prazer não apaga o medo; ao contrário, o amplifica. A metáfora da “lavagem” nunca sugere purificação moral, mas uma travessia violenta, na qual o que estava contido se torna impossível de reorganizar nos mesmos termos.

A estrutura em quatro blocos reforça essa lógica de condensação dramática. Sogas aposta em cenas longas, carregadas de silêncio e tensão, recusando a fluidez narrativa clássica. Cada bloco funciona como um acúmulo: desejo, culpa, desencanto e fratura. A fotografia e a encenação constroem uma atmosfera densa, quase opressiva, especialmente no contraste entre os espaços abertos do esporte, onde tudo é visível, mas nada pode ser dito, e o interior fechado do túnel, onde tudo é dito pelo corpo, sem mediação possível.

O conflito central de “Túnel de lavado” não é a ameaça explícita da homofobia externa, mas aquilo que o próprio filme reconhece como homofobia interiorizada. Rubén e Carlos carregam dentro de si o desprezo aprendido, a ideia de que seu desejo é incompatível com o futuro, com a normalidade, com o pertencimento. O melodrama nasce justamente dessa fricção: não há vilões claros, apenas a constatação de que o prazer vivido cobra um preço que nenhum dos dois sabe, ainda, se está disposto a pagar.

Como curta de situação, “Túnel de lavado” é rigoroso e incisivo. Ele não promete continuidade nem solução, apenas registra o instante em que a ficção da amizade deixa de ser suficiente para sustentar a invisibilidade. Ao recusar explicações psicológicas excessivas ou arcos redentores, Lucas Sogas entrega um filme seco, físico e dolorosamente honesto, que inscreve o desejo queer no esporte não como exceção espetacular, mas como presença incômoda, aquela que o sistema insiste em lavar, mas que sempre retorna, manchada ao final do túnel.

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