“Ato Noturno”, thriller erótico dirigido por Marcio Reolon e Filipe Matzembacher, mergulha na interseção tensa entre sexualidade e esfera pública. O filme segue Matias (Gabriel Faryas), um ator em ascensão, e Rafael (Cirillo Luna), um político emergente, cujo caso secreto desenrola-se em Porto Alegre enquanto ambos lidam com o risco de exposição. A narrativa articula de forma densa a cultura do cruising, o encontro e o sexo em lugares públicos como expressão de desejo, com as imposições do armário político que ainda molda a vida de figuras públicas queer no Brasil contemporâneo.
O fetiche que une Matias e Rafael não é tratado como escapada ou transgressão isolada, mas como espelho das contradições que atravessam identidade, poder e visibilidade. O cruising funciona como metáfora de uma sexualidade que se afirma à margem das normas, expondo corpos em sua relação com o olho vigilante da sociedade. A escolha de explorar esse território não problematiza o ato em si, mas as estruturas institucionais e sociais que ainda condicionam como e onde o desejo pode existir.
A escolha de Porto Alegre, terra dos diretores, como cenário é mais do que geográfica: a cidade e seus ícones, do Teatro São Pedro à Praça Marechal Deodoro, passando pelas ruas do centro e pelo Parque da Redenção, onde as orgias acontecem, são componentes narrativos que ancoram o filme em uma cartografia afetiva e política. A fotografia de Luciana Baseggio utiliza esses espaços para refletir a tensão entre público e privado, luz e sombra, desejo desinibido e olhar social vigilante, imprimindo ao longa uma textura visual que dialoga com a presença urbana e sua história queer no Sul do Brasil.
Em “Ato Noturno”, cenas de palco, sejam ensaios teatrais, sejam performances íntimas, adicionam ao filme um deslumbramento que vai além do impacto emocional. Estas sequências funcionam como metáforas visuais da performance social que os personagens são forçados a encenar, tanto na vida artística quanto em suas vidas privadas. A maneira como o sexo é filmado é sofisticada e cheia de tesão: está integrado à estética do thriller erótico, com clareza e atenção que reforçam a potência dramática do desejo sem jamais cair no soft porn, transformando cenas íntimas em momentos de tensão narrativa e simbólica.
A trilha musical original e atmosférica composta por Thiago Pethit, Arthur Decloedt e Charles Tixier, alterna com nomes como Maysa, Oliver Sim, Devendra Banhart e Gustavo Bassani, e inscreve o tempo afetivo dos personagens numa cadência sensorial que reforça o clima de desejo, nostalgia e inquietude. Cada enquadramento contribui para a sensação de voyeurismo constante, um elemento que ecoa o estigma social enfrentado pelos protagonistas. O personagem Fábio (Henrique Barreira) adiciona camadas de conflito íntimo e profissional, contrapondo ambição, rivalidade e vergonha internalizada, enriquecendo o painel emocional da obra.
“Ato Noturno” caminha por territórios sombrios em que desejo e poder se entrelaçam, construindo uma narrativa que é ao mesmo tempo sensual e politicamente afiada. Reolon e Matzembacher consolidam com o filme uma obra que transcende o thriller erótico, situando o corpo não apenas como objeto de desejo, mas como vetor de reflexão sobre visibilidade, risco e agência.


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