domingo, 8 de fevereiro de 2026

We Will Never Die (Alemanha, 2023)


“We Will Never Die”, de Tor Iben, parte de um desejo antigo do cinema queer: apropriar-se do thriller criminal não apenas como gênero, mas como território afetivo. Desde a primeira sequência em Rodes, onde Luca (Jacopo Garfagnol) se deixa capturar pelo magnetismo de Philipp (Sascha Weingarten), o filme articula erotismo e perigo como forças indissociáveis. O encontro não é romântico no sentido clássico, mas pulsional, atravessado por álcool, música e a promessa de algo que pode dar muito errado. O gesto de testemunhar uma negociação de drogas não funciona só como gatilho narrativo, mas como rito de passagem, um momento em que o desejo deixa de ser fantasia e passa a ter consequências materiais.

Quando a narrativa se desloca para a Alemanha, o filme ganha outro corpo. Philipp surge como figura em fuga, um criminoso cansado, cujo corpo carrega tanto ameaça quanto exaustão. No hotel decadente onde conhece Deniz, o thriller desacelera e se transforma em drama íntimo. Deniz (Talha Akdeniz ), isolado e carente: o homem comum que confunde acolhimento com salvação.

Tor Iben dirige o filme como quem costura obsessões pessoais. Ao assinar roteiro, câmera e edição, ele imprime uma unidade autoral que privilegia corpos, olhares e deslocamentos noturnos. O crime nunca é espetacularizado, mas tratado como ambiente constante, quase banal, o que reforça a sensação de que esses personagens vivem sempre à beira do colapso. A ideia de “imortalidade” sugerida pelo título não remete à grandiosidade, mas à ilusão de que o amor pode interromper a repetição da violência, nem que seja por algumas horas.

O queer em “We Will Never Die” não está apenas nas relações homoafetivas, mas na recusa de separar desejo de perigo. O filme insiste em personagens que escolhem amar mesmo quando tudo aponta para a perda. Philipp não é um herói redimido, e Deniz não é inocente; ambos operam numa zona cinzenta onde o afeto é atravessado por interesse, medo e projeção. Essa ambiguidade dá ao filme uma textura melancólica, próxima de uma balada criminal, em que o romance surge como último gesto de resistência num mundo hostil.

Os pontos fracos, no entanto, são difíceis de ignorar. O baixo orçamento pesa na fluidez narrativa, com transições abruptas, som irregular e personagens secundários pouco desenvolvidos. As duas linhas narrativas nem sempre se integram com clareza, criando a sensação de episódios soltos mais do que de um arco coeso. Algumas motivações ficam vagas, e o ritmo, especialmente na versão longa, tende a se arrastar, diluindo a tensão que o próprio filme constrói com tanto cuidado.

Ainda assim, “We Will Never Die” encontra sua força justamente no excesso de tentativa. É um thriller queer imperfeito, mas sincero, que prefere arriscar do que se acomodar. Entre perseguições mal resolvidas e cenas de sexo filmadas com urgência quase adolescente, o filme se afirma como objeto de culto para um público que reconhece valor no gesto, não apenas na execução. Tor Iben entrega uma obra que pode tropeçar tecnicamente, mas acerta ao tratar o desejo queer como algo indomável, perigoso e, por isso mesmo, impossível de ser apagado.


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