Criado em 1987, o Teddy Award é mais do que um prêmio paralelo do Festival de Berlim: ele funciona, há quatro décadas, como um dos principais termômetros globais do cinema queer, legitimando estéticas, narrativas e corpos que muitas vezes ainda circulam à margem do circuito dominante. Ao longo de sua história, o Teddy não apenas reconheceu filmes LGBTQIA+, na Berlinale, mas ajudou a moldar uma ideia de cinema queer como campo artístico autônomo, politicamente atento e formalmente ousado. E no line up de seu Jubileu de Esmeralda, o Teddy traz um acervo de 40 FILMES que é puro ouro!
Um dos eixos mais evidentes da seleção de longas de ficção é o corpo queer como território de poder, violência e transformação. Em “Rosebush Pruning”, Karim Aïnouz retorna ao melodrama como campo sensorial, acompanhando personagens atravessados por desejo, deslocamento e memória em uma Europa fragmentada. Já “Narciso”, de Marcelo Martinessi, aprofunda sua investigação sobre masculinidade e culpa a partir de um homem que confronta a própria imagem,, enquanto “Die Blutgräfin”, de Ulrike Ottinger, é o aguardado longa sobre uma condessa vampira, interpretada por Isabelle Huppert, que revisita a figura histórica de Erzsébet Báthory .
Outro pilar forte está nas relações afetivas marcadas por assimetrias e silêncios. “À voix basse”, de Leyla Bouzid, trabalha a intimidade e o desejo a partir de uma escuta delicada. Em “Staatsschutz”, de Faraz Shariat, o conflito entre imigração, sexualidade e Estado ganha contornos explícitos. Já “Iván & Hadoum”, de Ian de la Rosa, explora o encontro entre dois trabalhadores de uma estufa na Espanha, enquanto “Rose”, de Markus Schleinzer, e estrelado por Sandra Hüller, narra as suspeitas sobre a identidade de um soldado em uma vila isolada no século XVII. Do México, “Cuando llegue a casa”, de Edgar Adrián, observa a autodescoberta de um adolescente dividido entre o desejo e as tradições religiosas.
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| Construí um Foguete Imaginando sua Chegada |
Há também filmes que se dedicam a imaginar comunidades alternativas e formas de pertencimento fora da norma através do humor ou do sonho. O Brasil é representado com “Feito Pipa”, de Allan Deberton, que fala do afeto queer no centro de uma família. “Construí um Foguete Imaginando sua Chegada”, de Janaína Marques, fabula o desejo como gesto de espera: Rosa, aos 50 anos, mergulha em uma viagem mental terapêutica. No espaço, “Cosmonauts”, de Leo Černic, traz um cruzeiro intergaláctico para solteiros como palco de uma colisão colorida entre desejo e absurdo, acompanhado pelo sonho febril de “Stallion y la bola de cristal”, de Christian Avilés e Dani Flamarique, sobre a magia e o mistério da adolescência.
O Teddy reafirma sua vocação para pensar a história queer como arquivo vivo e ato de resistência nos documentários: “Joy Boy: A Tribute to Julius Eastman” revisita a obra do compositor afro-americano como ato político. “Prénoms”, de Nurith Aviv, investiga o peso dos nomes, enquanto “What Will I Become?”, de Lexie Bean e Logan Rozos, aborda a juventude trans. “Jaripeo”, de Efraín Mojica e Rebecca Zweig , investiga a masculinidade nos rodeios tradicionais de Michoacán, México. A metalinguagem ganha força em “TAXI MOTO”, de Gaël Kamilindi, onde um diretor precisa reimaginar um filme proibido em seu país, e em “Uchronia”, de Fil Ieropoulos, que promove encontros impossíveis entre o fantasma de Rimbaud e figuras revolucionárias para questionar o papel da vanguarda artística.
Entre 12 e 22 de fevereiro a premiação articula contextos políticos distintos, muitas vezes sob vigilância, censura ou risco direto, sendo um dos poucos espaços internacionais onde essas vozes circulam com centralidade. Ao completar 40 anos e homenagear Céline Sciamma com o Special Teddy Award, o prêmio reafirma seu papel não como museu de uma identidade fixa, mas como parte do legado do cinema queer mundial.
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