sábado, 3 de janeiro de 2026

Drácula (Dracula, Romênia/Áustria/Luxemburgo/Brasil/Reino Unido/Suíça, 2025)

 “Drácula”, de Radu Jude, parte de um gesto deliberadamente tosco para desmontar o mito vampírico como produto cultural global. A estrutura fragmentada, composta por 14 vinhetas geradas a partir de um chatbot de IA usado por um cineasta frustrado, vivido por Adonis Tanta, assume o fracasso criativo como motor estético. O filme transita entre perseguições em cidades contemporâneas, campos romenos assombrados e paródias de novelas vampíricas, criando um mosaico caótico que ridiculariza tanto o cinema médio quanto a ignorância ocidental sobre a Romênia como cenário exótico e intercambiável.

A presença da inteligência artificial não funciona como curiosidade tecnológica, mas como ferramenta crítica. Jude expõe a IA como máquina de reprodução de fórmulas, clichés narrativos e moralidades previsíveis, questionando autoria, originalidade e a transformação da experiência humana em dado explorável. As imagens baratas e o acabamento propositalmente precário aproximam o filme de uma herança de cinema B e sexploitation, assumida pelo próprio diretor como uma carta de amor a Ed Wood, mas filtrada por uma consciência política contemporânea.

É nesse terreno que a dimensão queer se impõe com mais contundência. O cineasta dentro do filme rejeita as histórias “heteronormativas” geradas pela IA, exigindo mais vampiras lésbicas, mais erotismo e mais desvio. O resultado são vinhetas que escancaram a lógica do desejo como espetáculo, culminando em imagens deliberadamente obscenas, como a célebre árvore de dildos ou a história de amor que termina com um padre sodomizado por um artefato voador. A provocação não busca choque gratuito, mas expõe como até a subversão pode ser rapidamente absorvida como fórmula.

A figura do mestre de cerimônias, efeminado e desbocado, concentra muitas dessas tensões. Atuando como apresentador e cafetão de um show de jantar vampírico, ele convida turistas a pagar por sexo com os performers, borrando as fronteiras entre performance queer, exploração econômica e fetichização cultural. A encenação kitsch e autoconsciente transforma o cabaré em alegoria direta do capitalismo vampírico, onde corpos, identidades e desejos são constantemente sugados e revendidos.

O erotismo em “Drácula” é sempre vulgar, exagerado e intrínseco ao humor grotesco. As cenas de sedução entre Drácula (Gabriel Spahiu) e Vampira (Oana Maria Zaharia), com fusões para quartos kitsch e sofás em forma de lábios, operam como paródia de um imaginário dionisíaco esvaziado pela repetição. Ao mesmo tempo, o filme mantém uma autocrítica constante, reconhecendo a própria dependência de códigos heteronormativos para atrair público, enquanto empurra esses códigos até o limite do desconforto.

Ao articular mito, IA, sexualidade e identidade nacional, Radu Jude constrói um filme que transforma o vampiro em síntese de exploração cultural, econômica e simbólica. A representação queer surge imersa nesse caos deliberado, não como enclave moralmente separado, mas como parte de uma paisagem de excessos, sacrilégios e performances. “Drácula” assume o risco de parecer indigesto para expor como desejo, mercado e imaginação coletiva continuam presos a ciclos de extração, reciclagem e circo.


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