“O Mágico de Oz”, de Victor Fleming, começa no Kansas sépia e apresenta Dorothy Gale (Judy Garland), uma garota deslocada que sonha com outro lugar enquanto canta “Somewhere Over the Rainbow”. A canção virou hino queer, assim como Judy Garland se tornou ícone gay, ligada ao termo “Friend of Dorothy”, código de reconhecimento em tempos de repressão, e também à herança de seu pai, Frank Gumm, do ‘vale’ e artista vaudeville.
Em “O Mágico de Oz”, a oposição visual entre o Kansas em tons apagados e o Technicolor explosivo de Oz funciona como metáfora do armário e da descoberta. O momento em que a porta se abre e o mundo ganha cor é pura revelação, uma experiência sensorial de liberdade, desejo e espanto que marcou gerações de espectadores.
A tempestade atua como catalisador de mudança, empurrando Dorothy para uma jornada de amadurecimento próxima ao coming of age de hoje. Oz surge como território do novo, do estranho e do possível, e a Estrada de Tijolos Amarelos marca o início simbólico de uma caminhada rumo à autonomia e ao autoconhecimento.
Quando Glinda, a Bruxa Boa do Norte (Billie Burke), pergunta “Você é uma bruxa boa ou uma bruxa má?”, ela oferece mais que sapatos mágicos, que simbolizam o glamour e a libertação, inaugura uma escolha identitária. Já a Bruxa Má do Oeste (Margaret Hamilton) encarna a figura opressora, vigilante e punitiva, uma força que tenta conter quem ousa ser diferente. Glinda ainda incentiva os munckins a "Come Out, Come Out where you are", o que ressoa diretamente como a saída do armário.
Totó (interpretado pela cadela Terry) representa o aliado inesperado e fiel, enquanto os companheiros de estrada formam uma família escolhida. O Espantalho (Ray Bolger), em busca de cérebro, o Homem de Lata (Jack Haley), que deseja um coração, e o Leão Covarde , (Bert Lahr), marcado pela falta de coragem de uma geração, são outsiders completos, facilmente lidos como personagens queer-coded.
O campo de papoulas surge como último obstáculo antes da Cidade das Esmeraldas, um entorpecimento perigoso que pode ser lido como anestesia social ou fuga antes da afirmação plena. Superá-lo é atravessar o medo e seguir em direção a um espaço de visibilidade e celebração.
A Cidade das Esmeraldas é puro encantamento, exagero e fascínio: cavalos coloridos, música, maquiagem, performance e o famoso penteado do Leão. Ali, o Mágico (Frank Morgan) se revela como alguém que usa truques para esconder sua verdadeira persona, uma figura que vive de fachada, ecoando experiências de dissimulação vividas por muitas pessoas queer.
Ao impor uma missão impossível, o Mágico testa o grupo, mas “O Mágico de Oz” deixa claro que aquilo que eles buscavam sempre esteve dentro deles. A frase final, “Não há lugar como nosso lar”, é uma ode a aceitação e amadurecimento, afirmando que o verdadeiro retorno é para um lugar onde só se pode existir com verdade.
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