terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Eduardo Casanova e A Beleza do Grotesco

Eduardo Casanova é um dos nomes mais singulares do cinema espanhol contemporâneo. Nascido em Madri, em 1991, ele construiu uma carreira multifacetada como ator, diretor e roteirista, sempre guiado por uma obsessão estética muito clara e por um desejo constante de provocar o espectador. Seu cinema ignora os consensos, busca reação. Entre o grotesco e o delicado, o pop e o perturbador, Casanova criou uma obra que dialoga com tradições queer e com autores como John Waters, Alex de la Iglesia e Pedro Almodóvar, mas com uma identidade muito própria. É cinema de autor!

O grande público espanhol o conheceu ainda adolescente, como Fidel Martínez González na série “Aída", exibida entre 2005 e 2014. O personagem, assumidamente gay, foi um marco na TV popular espanhola pela forma direta com que tratava a sexualidade. Foram mais de 200 episódios que transformaram Casanova em um rosto familiar, mas também o colocaram em uma posição delicada: a de escapar do rótulo de ator televisivo.

A estreia em  longas acontece com “Pieles" (2017), produzido por Álex de la Iglesia. O filme apresenta personagens com deformidades físicas e corpos fora do padrão, filmados com cores suaves, iluminação delicada e uma encenação quase infantil.  Em “La Piedad" (2022), ele radicaliza sua visão ao explorar o complexo de Édipo, uma relação mãe e filho marcada por dependência, controle e excesso de afeto, vivida por Ángela Molina e Manuel Bollero. Já em “Al Margen", seu primeiro documentário, (2024), Casanova mistura realidade e delírio ao retratar a história de um homem que ateia fogo ao próprio corpo em Madri, um gesto extremo tratado com lirismo, estranhamento e inquietação política. Antes e entre os longas, Casanova construiu uma filmografia sólida de curtas-metragens. Trabalhos como “Ansiedad”, “Hora del Baño”, “Fumando espero”, "Lo Siento Mi Amor", “Amor de madre” e o provocador “Eat My Shit”, onde nasceu “Peles”, antecipam temas e imagens que depois ganhariam escala maior. 

Lo Siento Mi Amor

Esse percurso desemboca recentemente em "Silencio" (2025), minissérie apresentada no Festival de Locarno e depois lançada na Movistar+. Com três episódios, a série consolida a estética de Casanova no formato episódico “Silencio” mantém o uso de cores suaves para tratar temas duros, como violência, repressão, dor íntima e segredos, ampliando seu cinema para uma narrativa fragmentada, mas coerente com sua obsessão pelo não dito e pelo incômodo. O realizador já tinha dirigido episódios de outras séries como "Nacho", mas aqui estampa sua marca autoral.


A estética pastel, muitas vezes chamada de “realismo rosa”, é mais do que um estilo visual: é uma estratégia política. Casanova filma o nojento como se fosse belo, forçando o espectador a rever seus próprios limites de empatia. Seus personagens raramente habitam qualquer normatividade. Eles ocupam o quadro, exigem atenção e recusam a normalização. É um cinema profundamente queer, não apenas por temas, estética, mas pela forma como desestabiliza padrões de gosto, moral e representação.

Recentemente, Eduardo Casanova revelou publicamente que vive com HIV. A informação lança uma nova luz sobre sua obra, marcada por corpos vigiados, fragilizados e expostos ao julgamento social. Assim como Derek Jarman, que transformou sua sorologia em gesto artístico e político, Casanova se inscreve em uma linhagem de criadores que fazem da própria vulnerabilidade matéria de arte. Sua filmografia, agora, pode ser lida também como um arquivo sensível sobre sobrevivência, estigma e afirmação. Um cinema que incomoda, mas porque se recusa a silenciar.


La Piedad

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