“Elda y los Monstruos”, de Nicolás Herzog, parte de uma premissa simples para construir uma experiência sensorial e política rara. A narrativa acompanha Elda (Elda XXY), uma aspirante a estrela do glam rock, e seu alter ego Diego Detona, um professor tímido com quem compartilha o mesmo corpo. Desde o início, o filme deixa claro que não se trata de uma história de transformação linear, mas de um embate interno entre desejo, medo e a urgência de existir além das categorias fixas.
O conflito central entre Elda e Diego estrutura todo o filme. Elda é ambição, palco, brilho e excesso, enquanto Diego representa contenção, vida familiar e insegurança. Herzog filma essa dualidade sem buscar respostas fáceis, questionando o próprio conceito de alter ego. O que é performance e o que é identidade cotidiana? Onde termina o personagem e começa a pessoa? O filme recusa a lógica binária e transforma essa tensão em motor dramático.
A virada do filme acontece com a peregrinação ao altar de uma mulher trans assassinada, enterrada no meio da floresta. Esse gesto desloca a narrativa do conflito interno para uma dimensão espiritual e coletiva. O luto por uma vida trans interrompida pela violência se conecta à jornada de Elda e Diego, ampliando o filme para além do individual. A natureza surge como espaço de escuta, transformação e reconciliação, um lugar onde o binário perde força.
Herzog mistura drama, musical e documentário de forma orgânica. As performances de glam rock não funcionam apenas como espetáculo, mas como linguagem emocional. As músicas interpretadas por Elda XXY traduzem aquilo que as palavras não dão conta, desejo, raiva, libertação. À medida que a jornada avança, a trilha se torna mais introspectiva, dialogando com o silêncio da floresta e com o peso do luto, sem abandonar a pulsação política do rock.
A atuação de Elda XXY sustenta o filme com coragem e franqueza. A personagem transita entre palco e cotidiano com uma entrega rara, sem caricatura ou didatismo. O elenco de apoio, com Natalia Curcho, Calypso Summer, Anul Oribe e Fran Dacunda, ajuda a construir um entorno afetivo e social que reforça as tensões familiares, artísticas e comunitárias que atravessam Elda e Diego.
“Elda y los Monstruos” é um filme sobre integrar partes que aprenderam a se odiar para sobreviver. Ao unir música, espiritualidade e memória trans, Nicolás Herzog constrói um cinema queer que não busca normalização, mas expansão. É uma obra que entende a identidade como processo, ferida e celebração ao mesmo tempo, e que transforma a performance em gesto de resistência, cura e continuidade.
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