“Julian”, de Cato Kusters, parte de um gesto simples e radical: duas mulheres que dizem sim uma à outra repetidas vezes, em países diferentes, como se o amor precisasse ser reafirmado diante de cada fronteira que o nega. A história de Julian Boom e Fleur Pierets começa em 2017 com o chamado Project 22, um plano que transforma o casamento em ritual contínuo e ato político. Cada cerimônia é celebração, mas também denúncia silenciosa de um mundo que ainda regula quem pode amar quem. Desde o início, o filme deixa claro que essa não é uma narrativa sobre conquista de direitos abstratos, mas sobre a materialidade do afeto vivido sob vigilância.
A força emocional do filme se ancora na química entre Nina Meurisse, como Fleur, e Laurence Roothooft, como Julian. Meurisse irradia uma alegria expansiva, quase elétrica, enquanto Roothooft constrói Julian como presença serena, profundamente enraizada, alguém que ama sem precisar performar. O modo como elas se olham sustenta o filme inteiro. Há ali uma atenção quase devocional ao outro, como se cada gesto fosse precioso demais para ser desperdiçado. Esse amor tangível impede que o projeto político engula a intimidade, mesmo quando o mundo insiste em transformá-las em símbolo.
Kusters reforça essa sensação de proximidade ao recorrer com frequência à câmera de vídeo, permitindo improviso e uma textura quase documental. Essas imagens criam a impressão de que o espectador foi admitido no espaço privado do casal, sentado no canto da sala, testemunhando risos, cansaços e pequenas fricções. A decisão de alternar esse registro íntimo com uma fotografia mais controlada não é apenas estética, mas conceitual. O amor vivido e o amor narrado coexistem, às vezes em harmonia, às vezes em tensão.
Visualmente, “Julian” se constrói como um conto de fadas consciente de sua própria fragilidade. As cores quentes e douradas envolvem o início da jornada com uma promessa de eternidade, enquanto cidades e paisagens ganham um brilho quase excessivo, como se o mundo estivesse conspirando a favor delas. Quando a doença se anuncia, essa paleta se apaga, e a imagem se torna opaca, pesada. O corpo de Julian passa a ser o verdadeiro campo político do filme, lembrando que nenhuma vitória simbólica é capaz de negociar com a indiferença biológica.
A estrutura fragmentada, marcada por saltos temporais da vida de Fleur após a perda, tenta traduzir a lógica quebrada do luto, mas nem sempre funciona. Essas antecipações são repetitivas e por vezes didáticas, enfraquecendo a atmosfera construída com tanto cuidado e tornando o desfecho previsível cedo demais. Além disso, ao insistir nesse futuro sem Julian, o filme desloca excessivamente o foco para Fleur, deixando Julian paradoxalmente opaca. Sabemos quem ela é enquanto amada, mas pouco como sujeito fora dessa relação.
Ainda assim, “Julian” se impõe como uma celebração rara do amor lésbico vivido em plenitude, sem cinismo e sem punição moral. O filme escolhe valorizar o tempo compartilhado em vez de explorar a tragédia, recusando o melodrama fácil. Ao articular coração privado e corpo político, Kusters constrói uma ode à vida que também é um lembrete incômodo: os direitos conquistados são recentes, frágeis e desiguais. O legado de Julian e Fleur não é apenas o mapa de casamentos possíveis, mas a insistência de que amar, mesmo sob risco, ainda é um gesto profundamente revolucionário.
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