“Transfariana”, de Joris Lachaise, é um documentário potente. A partir de uma história aparentemente improvável, o amor que nasce entre Jaison, um ex-líder das FARC preso em La Picota, e Laura Katalina, mulher trans e ex-trabalhadora sexual condenada à prisão perpétua, uma pena exagerada já que Katalina cometia crimes de extorsão e tráfico, mas jamais um homicídio, o filme constrói um retrato histórico e político único, situando afetos dissidentes no coração de tensões sociais profundas no centro da América Latina.
O que “Transfariana” faz tão bem é transformar esse encontro singular em lente para pensar formas de luta e solidariedade que atravessam fronteiras aparentemente irreconciliáveis. Inicialmente escandaloso no contexto carcerário e dentro da própria organização guerrilheira, o casamento de Jaison e Laura acaba gerando um diálogo inédito entre ex-combatentes e organizações trans em Bogotá, num momento de transição histórica marcado pelas negociações de paz colombianas. Essa convergência de lutas, de um grupo armado e de uma comunidade marginalizada, é explorada pelo filme com uma sensibilidade que ultrapassa a simples crônica de um romance. Aqui, literalmente, o cinema é de guerrilha!
Lachaise constrói sua narrativa com uma mistura de imagens filmadas no presente e registros históricos, criando um mosaico que capta tanto as transformações subjetivas dos protagonistas quanto às mudanças coletivas em curso. Não se trata apenas de documentar um casamento improvável, mas de observar como esse gesto íntimo pode desencadear mudanças de mentalidade e ativismo político, inclusive em contextos hostis como o carcerário ou no seio de uma organização com tradições conservadoras. Essa perspectiva amplia o alcance do filme, fazendo dele um documento sobre solidariedade, memória e resistência.
A força de “Transfariana” reside também em seu olhar não sensacionalista e profundo. Em vez de explorar o choque inicial da relação, Lachaise permanece atento aos movimentos subtis de transformação: as conversas, as trocas entre Jaison e Laura, as reações de seus pares e as estratégias de aliados trans. É uma obra que reconhece a complexidade da experiência trans em contextos de violência estrutural e, ao mesmo tempo, demonstra como o afeto pode ser ato político radical mesmo em espaços de máxima severidade,como uma prisão de segurança máxima.
O documentário foi amplamente reconhecido no circuito internacional de festivais, exibido na Berlinale (Panorama), ganhando prêmios como o XI Prêmio Sebastiane Latino no Festival de San Sebastián e o Grand Prix no Festival Jean Rouch. “Transfariana” funciona como uma reflexão profunda sobre como amor, solidariedade e resistência podem emergir em cenários de exclusão e violência. O casamento de Jaison e Laura se torna símbolo de uma possível aliança entre diferentes formas de luta e o filme, ao articular essas histórias, revela que os caminhos da transformação social muitas vezes passam por lugares inesperados.
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