“Me Ame com Ternura”, de Anna Cazenave Cambet, observa a autodescoberta queer não como libertação idealizada, mas como um gesto que cobra um preço social alto. Inspirado em uma experiência autobiográfica da própria diretora, o filme transforma vivência pessoal em crítica, acompanhando a trajetória de Clémence (Vicky Krieps) após um divórcio inicialmente cordial que rapidamente se converte em campo de punição moral.
A revelação de seus relacionamentos com mulheres ao ex-marido Laurent (Antoine Reinartz) aciona um mecanismo de violência institucionalizada. A retenção do filho Paul (Viggo Ferreira-Redier) e a escalada judicial que se segue não são tratadas como exceções emocionais, mas como procedimentos legitimados por normas patriarcais. O fato de Cambet ter sido advogada antes de se tornar escritora e cineasta confere ao filme uma lucidez rara sobre como o sistema jurídico opera a exclusão sob aparência de neutralidade.
A narrativa fragmentada, marcada por elipses temporais e saltos abruptos, funciona como comentário político direto. O tempo não atua como cura, mas como instrumento de desgaste. Cada elipse corresponde a anos de afastamento entre mãe e filho, convertendo a morosidade judicial em violência contínua. Essa escolha formal nasce da experiência vivida e evita qualquer traço de espetacularização, apostando na acumulação silenciosa da injustiça.
Vicky Krieps sustenta o filme com uma atuação de contenção rigorosa, alinhada à economia expressiva da direção. Seu corpo retraído, os gestos interrompidos e os silêncios prolongados constroem uma resistência que nunca se afirma como discurso, mas como permanência. A fotografia de Kristy Baboul acompanha esse movimento com discrição, reforçando a sensação de um labirinto moral onde cada saída é adiada por procedimentos e pareceres.
Ao ancorar sua ficção em uma história pessoal, Anna Cazenave Cambet realiza um gesto político preciso: expõe como o desejo de mulheres lésbicas pode ser convertido em infração social por meio da burocracia estatal. “Me Ame com Ternura” não pede empatia, exige atenção. É um filme que transforma o íntimo em denúncia e reafirma o cinema como espaço de confronto entre experiência vivida e estruturas de poder.

