“Lisbon” é um curta queer de humor ácido e tensão acelerada, dirigido por Matthew Jacobs Morgan, que transforma um encontro íntimo e transacional em um estudo afiado sobre precariedade, desejo e ética. No centro da narrativa está um jovem queer em dificuldades financeiras que aceita encontrar um homem mais velho, esperando apenas sobreviver ao fim do dia. Tudo muda quando esse homem faz um pedido inesperado, capaz de deslocar qualquer senso de limite.
A força do curta está na forma como expõe a intimidade transacional queer sem estetizar o sofrimento ou recorrer a caricaturas. O encontro, mediado pelo dinheiro, revela fissuras emocionais e sociais de maneira direta. A vulnerabilidade do jovem, interpretado pelo próprio diretor, não é apresentada como fragilidade romântica, mas como realidade material que define escolhas extremas. Nesse espaço tenso, a narrativa abre espaço para camadas de solidão, dependência e medo, elementos que ressoam dentro das dinâmicas queer atravessadas pela precariedade contemporânea.
A estética escolhida por Morgan opera com precisão: ritmo curto, enquadramentos que capturam pequenas variações de expressão e uma atmosfera concentrada que pressiona os personagens de todos os lados dentro do apartamento de luxo. Nada é supérfluo. A direção constrói um território emocional comprimido, onde cada gesto carrega peso específico.
É exatamente nesse ambiente que John Cameron Mitchell se torna o eixo gravitacional do filme. Sua atuação é visceral desde o primeiro movimento. A forma como ele usa o corpo, como interage com Morgan cria uma presença que domina a cena sem exagero. Mitchell entrega uma performance que mistura fragilidade contida e autoridade desconfortável, fazendo do homem mais velho uma figura impossível de prever. Seu olhar, muitas vezes fixo e quase indecifrável, mantém a narrativa em estado de alerta constante. Ele conduz o curta para territórios que seriam inócuos sem a profundidade que imprimiu ao personagem.
Essa construção é essencial para que “Lisbon” consiga subverter o estereótipo do sugar daddy poderoso e unidimensional. O filme recusa esse caminho fácil. A relação entre os dois homens é marcada por ambivalência moral, por zonas cinzentas que dificultam qualquer julgamento imediato. O jovem não é apenas vítima; o mais velho não é apenas opressor. Ambos carregam necessidades urgentes, afetivas e materiais, que se chocam de maneira devastadora.
No circuito queer contemporâneo, “Lisbon” tem impacto pela honestidade com que aborda a precariedade emocional e econômica que atravessa parte da comunidade LGBTQIA+, além de tocar num tema espinhoso, o suicídio assistido. O curta conversa com debates reais sobre sobrevivência, intimidade como moeda e as negociações que surgem quando o afeto é mediado pela urgência.
“Lisbon” é incômodo, um curta inquieto e incisivo, sustentado por uma direção segura e por uma atuação central que pulsa intensidade. Mitchell transforma o filme em algo maior, elevando cada camada emocional e empurrando a narrativa para uma zona de desconforto necessária. Uma obra que permanece pulsando depois do corte final.
🎄 Mimo de Natal CINEMATOGRAFIA QUEER Como nosso presente especial de fim de ano, liberamos uma seleção imperdível de 10 curtas aclamados do NewFest (The New York LGBTQ+ Film Festival): uma maratona que vai do drama premiado de One Day This Kid e Lisbon, passando pelo homoerotismo corajoso e cru de Within a Quiet Body e Spa Night. A lista ainda inclui a fantasia queer-negra de Orion's Quest, o drama familiar de The Immaculate Honey, a crise de fé de The Upper Room, a tensão performática de Brief Somebodies, a urgência social de Home, e a ficção científica apaixonada de Houston, We Have a Crush. Todos esses 10 títulos já estão disponíveis para download na nossa pasta do Google Drive, nos comentários. Aproveitem a curadoria e feliz cinema!

