sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Frutos do Cacto (Sabar Bonda, Índia/Reino Unido/Canadá, 2025)

“Frutos do Cacto”, estreia em longa-metragem de Rohan Parashuram Kanawade, surge como uma obra de delicadeza rara dentro do cinema queer contemporâneo. Ambientado na Índia rural, o filme articula luto, desejo e tradição sem recorrer ao choque fácil ou à denúncia estridente. Ao contrário, Kanawade aposta no silêncio, na contenção e na observação paciente dos gestos cotidianos, construindo um drama íntimo em que a transformação acontece quase imperceptivelmente, como algo que cresce por dentro antes de se tornar visível.

A premissa é simples, mas carregada de camadas simbólicas: Anand (Bhushan Manoj), homem urbano na casa dos 30 anos, retorna à aldeia para cumprir os dez dias de rituais fúnebres pelo pai. Esse retorno forçado ao espaço da tradição o coloca em suspensão, isolado, vigiado, submetido a códigos de pureza masculina. É nesse intervalo entre dever e deslocamento que surge Balya (Suraaj Suman), agricultor local igualmente preso a expectativas familiares. O encontro entre os dois não é narrado como ruptura imediata, mas como reconhecimento mútuo de solidões semelhantes.

Kanawade conduz esse vínculo com notável sensibilidade. O romance queer se constrói nos detalhes: toques hesitantes, conversas interrompidas, olhares que duram um pouco mais do que deveriam. A escolha de situar o desejo em meio aos rituais de luto, cremações, banhos purificadores, rezas repetidas, reforça o contraste entre repressão social e pulsão vital. O filme compreende que o desejo não surge apesar da morte, mas muitas vezes por causa dela, como resposta à consciência da finitude.

Visualmente, “Frutos do Cacto” é um trabalho de grande rigor. A fotografia de Vikas Urs, com a proporção 4:3 e cantos arredondados, cria um enquadramento quase tátil, que aproxima os corpos e comprime o espaço ao redor deles. A aldeia não é retratada como paisagem exótica, mas como um ambiente funcional, áspero e íntimo. O motivo recorrente dos frutos do cacto, espinhosos por fora, úmidos por dentro, funciona como metáfora precisa para esse amor: atraente, doloroso e inevitavelmente vulnerável.

As atuações sustentam essa economia expressiva. Bhushan Manoj compõe um Anand silencioso, marcado mais pelo que reprime do que pelo que verbaliza. Seu arco é o de alguém que chega para cumprir um dever e descobre, no processo, uma urgência afetiva que não pode mais ignorar. Suraaj Suman, como Balya, oferece um contraponto de resistência tranquila: um homem acostumado à solidão, cuja recusa ao casamento arranjado ganha novo sentido quando o desejo finalmente encontra um espelho.

O desfecho, deliberadamente ambíguo, confirma a maturidade do projeto. Kanawade não entrega uma resolução conciliatória nem uma tragédia exemplar. Prefere encerrar o filme em estado de suspensão, fiel à lógica interna da narrativa e à realidade social que retrata. “Frutos do Cacto” não propõe soluções fáceis para o conflito entre tradição e autenticidade, mas afirma algo mais profundo: mesmo em contextos de vigilância e silêncio, o desejo encontra formas de existir. É um filme que floresce lentamente, e, como o cacto, sobrevive em terrenos áridos sem perder sua potência vital.


quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

O Mágico de Oz (The Wizard of Oz, EUA, 1939)

 

“O Mágico de Oz”, de  Victor Fleming, começa no Kansas sépia e apresenta Dorothy Gale (Judy Garland), uma garota deslocada que sonha com outro lugar enquanto canta “Somewhere Over the Rainbow”. A canção virou hino queer, assim como Judy Garland se tornou ícone gay, ligada ao termo “Friend of Dorothy”, código de reconhecimento em tempos de repressão, e também à herança de seu pai, Frank Gumm, do ‘vale’ e artista vaudeville.

Em “O Mágico de Oz”, a oposição visual entre o Kansas em tons apagados e o Technicolor explosivo de Oz funciona como metáfora do armário e da descoberta. O momento em que a porta se abre e o mundo ganha cor é pura revelação, uma experiência sensorial de liberdade, desejo e espanto que marcou gerações de espectadores.

A tempestade atua como catalisador de mudança, empurrando Dorothy para uma jornada de amadurecimento próxima ao coming of age de hoje. Oz surge como território do novo, do estranho e do possível, e a Estrada de Tijolos Amarelos marca o início simbólico de uma caminhada rumo à autonomia e ao autoconhecimento.

Quando Glinda, a Bruxa Boa do Norte (Billie Burke), pergunta “Você é uma bruxa boa ou uma bruxa má?”, ela oferece mais que sapatos mágicos, que simbolizam o glamour e a libertação, inaugura uma escolha identitária. Já a Bruxa Má do Oeste (Margaret Hamilton) encarna a figura opressora, vigilante e punitiva, uma força que tenta conter quem ousa ser diferente. Glinda ainda incentiva os munckins a "Come Out, Come Out where you are", o que ressoa diretamente como a saída do armário.

Totó (interpretado pela cadela Terry) representa o aliado inesperado e fiel, enquanto os companheiros de estrada formam uma família escolhida. O Espantalho (Ray Bolger), em busca de cérebro, o Homem de Lata (Jack Haley), que deseja um coração, e o Leão Covarde , (Bert Lahr), marcado pela falta de coragem de uma geração, são outsiders completos, facilmente lidos como personagens queer-coded.

O campo de papoulas surge como último obstáculo antes da Cidade das Esmeraldas, um entorpecimento perigoso que pode ser lido como anestesia social ou fuga antes da afirmação plena. Superá-lo é atravessar o medo e seguir em direção a um espaço de visibilidade e celebração.

A Cidade das Esmeraldas é puro encantamento, exagero e fascínio: cavalos coloridos, música, maquiagem, performance e o famoso penteado do Leão. Ali, o Mágico (Frank Morgan) se revela como alguém que usa truques para esconder sua verdadeira persona, uma figura que vive de fachada, ecoando experiências de dissimulação vividas por muitas pessoas queer.

Ao impor uma missão impossível, o Mágico testa o grupo, mas “O Mágico de Oz” deixa claro que aquilo que eles buscavam sempre esteve dentro deles. A frase final, “Não há lugar como nosso lar”, é uma ode a aceitação e amadurecimento, afirmando que o verdadeiro retorno é para um lugar onde só se pode existir com verdade.


quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

O Dia de Peter Hujar (Peter Hujar's Day, EUA/Alemanha/Reino Unido/Espanha, 2025)


 “Peter Hujar’s Day”, de Ira Sachs, é um filme pequeno em escala, mas atento aos detalhes que constroem uma vida. Ambientado em Nova York, em dezembro de 1974, o longa recria uma conversa real entre o fotógrafo Peter Hujar (Ben Whishaw) e a escritora Linda Rosenkrantz (Rebecca Hall). Em pouco mais de uma hora, acompanhamos um dia comum narrado em palavras, sem ação externa, apostando na força da direção.

O longa se passa quase todo dentro de um apartamento meticulosamente decorado com objetos dos anos 1970. Hujar conta para Linda como foi seu dia anterior, desde acordar tarde até fotografar amigos e circular pela cena artística da cidade. Ele fala de dinheiro escasso, de pequenos encontros e de figuras conhecidas como Allen Ginsberg e Susan Sontag. Nada é tratado como grande evento, e é justamente aí que o filme encontra seu tom, no valor do cotidiano.

A dimensão queer do filme aparece de forma natural, sem discurso ou explicação. Hujar fala de amantes, de desejo e de sexo com a mesma leveza com que comenta o clima ou o cansaço. A amizade com Linda, uma mulher hétero, é marcada por confiança e liberdade, mostrando como laços queer também se constroem fora do romance. Tudo soa natural, não encenado.

Ira Sachs filma em 16mm, o que dá ao longa uma textura quente e imperfeita, próxima da época retratada. A câmera observa os corpos, os silêncios e as pausas da conversa. O filme lembra uma peça de teatro, mas nunca fica preso a isso. Os olhares e os pequenos gestos dizem tanto quanto as palavras, reforçando a intimidade da cena.
O roteiro aposta numa fidelidade rara ao material original, reproduzindo quase literalmente a conversa de quatro horas gravada entre Peter Hujar e Linda Rosenkrantz, condensada para 76 minutos. O corte elimina repetições, mas preserva o tom íntimo, o humor seco e os detalhes banais, como telefonemas sexuais e comentários cotidianos, que dão espessura à experiência queer e artística daquele dia. Não há invenções narrativas, apenas escolhas de ritmo que mantêm viva a textura da fala e a sensação de tempo compartilhado.

Ira Sachs estrutura o filme em tempo real, num apartamento, usando closes para captar microexpressões e silêncios ausentes da transcrição sonora. Ben Whishaw constrói um Hujar atento, irônico, afetado e vulnerável, a partir de estudo intenso de sua vida e fotografias, enquanto Rebecca Hall, guiada pelas gravações de Linda Rosenkrantz, equilibra escuta e presença, fazendo de sua personagem uma interlocutora ativa e afetuosa. Ensaiados como teatro, os diálogos ganham corpo sem perder a crueza original, e a química entre os dois sustenta o filme, transformando uma conversa cotidiana em retrato sensível de uma época.

“Peter Hujar’s Day” é menos sobre um grande artista e mais sobre um modo de existir. O filme celebra uma vida queer antes da AIDS, e pós-Stonewall, marcada por risco, amizade e criação constante. Ao transformar o banal em cinema, Ira Sachs lembra que a memória também se constrói a partir de dias comuns, ditos em voz alta, entre pessoas que confiam uma na outra.


terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Eduardo Casanova e A Beleza do Grotesco

Eduardo Casanova é um dos nomes mais singulares do cinema espanhol contemporâneo. Nascido em Madri, em 1991, ele construiu uma carreira multifacetada como ator, diretor e roteirista, sempre guiado por uma obsessão estética muito clara e por um desejo constante de provocar o espectador. Seu cinema ignora os consensos, busca reação. Entre o grotesco e o delicado, o pop e o perturbador, Casanova criou uma obra que dialoga com tradições queer e com autores como John Waters, Alex de la Iglesia e Pedro Almodóvar, mas com uma identidade muito própria. É cinema de autor!

O grande público espanhol o conheceu ainda adolescente, como Fidel Martínez González na série “Aída", exibida entre 2005 e 2014. O personagem, assumidamente gay, foi um marco na TV popular espanhola pela forma direta com que tratava a sexualidade. Foram mais de 200 episódios que transformaram Casanova em um rosto familiar, mas também o colocaram em uma posição delicada: a de escapar do rótulo de ator televisivo.

A estreia em  longas acontece com “Pieles" (2017), produzido por Álex de la Iglesia. O filme apresenta personagens com deformidades físicas e corpos fora do padrão, filmados com cores suaves, iluminação delicada e uma encenação quase infantil.  Em “La Piedad" (2022), ele radicaliza sua visão ao explorar o complexo de Édipo, uma relação mãe e filho marcada por dependência, controle e excesso de afeto, vivida por Ángela Molina e Manuel Bollero. Já em “Al Margen", seu primeiro documentário, (2024), Casanova mistura realidade e delírio ao retratar a história de um homem que ateia fogo ao próprio corpo em Madri, um gesto extremo tratado com lirismo, estranhamento e inquietação política. Antes e entre os longas, Casanova construiu uma filmografia sólida de curtas-metragens. Trabalhos como “Ansiedad”, “Hora del Baño”, “Fumando espero”, "Lo Siento Mi Amor", “Amor de madre” e o provocador “Eat My Shit”, onde nasceu “Peles”, antecipam temas e imagens que depois ganhariam escala maior. 

Lo Siento Mi Amor

Esse percurso desemboca recentemente em "Silencio" (2025), minissérie apresentada no Festival de Locarno e depois lançada na Movistar+. Com três episódios, a série consolida a estética de Casanova no formato episódico “Silencio” mantém o uso de cores suaves para tratar temas duros, como violência, repressão, dor íntima e segredos, ampliando seu cinema para uma narrativa fragmentada, mas coerente com sua obsessão pelo não dito e pelo incômodo. O realizador já tinha dirigido episódios de outras séries como "Nacho", mas aqui estampa sua marca autoral.


A estética pastel, muitas vezes chamada de “realismo rosa”, é mais do que um estilo visual: é uma estratégia política. Casanova filma o nojento como se fosse belo, forçando o espectador a rever seus próprios limites de empatia. Seus personagens raramente habitam qualquer normatividade. Eles ocupam o quadro, exigem atenção e recusam a normalização. É um cinema profundamente queer, não apenas por temas, estética, mas pela forma como desestabiliza padrões de gosto, moral e representação.

Recentemente, Eduardo Casanova revelou publicamente que vive com HIV. A informação lança uma nova luz sobre sua obra, marcada por corpos vigiados, fragilizados e expostos ao julgamento social. Assim como Derek Jarman, que transformou sua sorologia em gesto artístico e político, Casanova se inscreve em uma linhagem de criadores que fazem da própria vulnerabilidade matéria de arte. Sua filmografia, agora, pode ser lida também como um arquivo sensível sobre sobrevivência, estigma e afirmação. Um cinema que incomoda, mas porque se recusa a silenciar.


La Piedad

domingo, 4 de janeiro de 2026

Pink Lady (Israel/Itália, 2025)

"Pink Lady", de Nir Bergman, é um drama contido e profundamente inquietante que mergulha no cotidiano de uma comunidade judaica ultraortodoxa em Jerusalém para expor fraturas íntimas entre fé, desejo e identidade. A partir de um incidente abrupto, a revelação do caso homossexual secreto de Lazer (Uri Blufarb), o filme desloca o foco do escândalo para suas reverberações silenciosas, transformando a vida doméstica em um campo de tensão moral e emocional.

A grande força do filme está na decisão de Bergman de narrar essa história pela perspectiva de Bati (Nur Fibak). Inicialmente apresentada como uma esposa apagada, submersa em deveres religiosos e familiares, Bati não é apenas vítima colateral da repressão que cerca o marido, ela é também produto direto de um sistema que exige silêncio, obediência e apagamento do desejo feminino. Essa escolha narrativa amplia o alcance político do filme e reposiciona a questão queer.

A homossexualidade de Lazer surge menos como transgressão e mais como desejo impossível de acomodar dentro das normas rígidas da comunidade Haredi. O filme se interessa pouco pelo ato em si e muito pelo peso do segredo, pela violência da chantagem e pela lógica cruel que transforma a intimidade em arma. Nesse contexto, a terapia de conversão é exposta como ritual de desespero, encenado como ineficaz, humilhante e emocionalmente devastador.

Paralelamente, "Pink Lady" constrói uma crítica social incisiva ao revelar como a repressão não opera apenas sobre quem foge da norma, mas também sobre quem é convocado a sustentá-la. A gangue que chantageia o casal, liderada pelo chamado Lobo, funciona como catalisador narrativo e símbolo da vigilância constante, da ameaça de exposição e da violência que mantém a fachada moral intacta.

Há também um trabalho refinado de encenação no modo como Bergman articula performance e identidade. A casa, o banho ritual Mikvah e o quarto conjugal tornam-se palcos onde os personagens encenam papéis exigidos, enquanto o desejo escapa em gestos mínimos, olhares prolongados, toques hesitantes e no vínculo transformador que Bati estabelece com Natalie (Gal Malka). A economia expressiva transforma o filme em uma investigação íntima sobre quem se pode ser sob vigilância permanente.

"Pink Lady" é uma obra de empatia radical, interessada menos em condenar do que em compreender os mais invisíveis dentro de estruturas opressivas. Ao acompanhar a transformação de Bati, da submissão à reivindicação de sua autonomia e sexualidade, o filme desloca o eixo da narrativa queer para um território raramente explorado, onde desejo feminino, fé e ruptura coexistem como forças em conflito. Bergman entrega um drama sóbrio, politicamente incisivo e emocionalmente preciso.

sábado, 3 de janeiro de 2026

Drácula (Dracula, Romênia/Áustria/Luxemburgo/Brasil/Reino Unido/Suíça, 2025)

 “Drácula”, de Radu Jude, parte de um gesto deliberadamente tosco para desmontar o mito vampírico como produto cultural global. A estrutura fragmentada, composta por 14 vinhetas geradas a partir de um chatbot de IA usado por um cineasta frustrado, vivido por Adonis Tanta, assume o fracasso criativo como motor estético. O filme transita entre perseguições em cidades contemporâneas, campos romenos assombrados e paródias de novelas vampíricas, criando um mosaico caótico que ridiculariza tanto o cinema médio quanto a ignorância ocidental sobre a Romênia como cenário exótico e intercambiável.

A presença da inteligência artificial não funciona como curiosidade tecnológica, mas como ferramenta crítica. Jude expõe a IA como máquina de reprodução de fórmulas, clichés narrativos e moralidades previsíveis, questionando autoria, originalidade e a transformação da experiência humana em dado explorável. As imagens baratas e o acabamento propositalmente precário aproximam o filme de uma herança de cinema B e sexploitation, assumida pelo próprio diretor como uma carta de amor a Ed Wood, mas filtrada por uma consciência política contemporânea.

É nesse terreno que a dimensão queer se impõe com mais contundência. O cineasta dentro do filme rejeita as histórias “heteronormativas” geradas pela IA, exigindo mais vampiras lésbicas, mais erotismo e mais desvio. O resultado são vinhetas que escancaram a lógica do desejo como espetáculo, culminando em imagens deliberadamente obscenas, como a célebre árvore de dildos ou a história de amor que termina com um padre sodomizado por um artefato voador. A provocação não busca choque gratuito, mas expõe como até a subversão pode ser rapidamente absorvida como fórmula.

A figura do mestre de cerimônias, efeminado e desbocado, concentra muitas dessas tensões. Atuando como apresentador e cafetão de um show de jantar vampírico, ele convida turistas a pagar por sexo com os performers, borrando as fronteiras entre performance queer, exploração econômica e fetichização cultural. A encenação kitsch e autoconsciente transforma o cabaré em alegoria direta do capitalismo vampírico, onde corpos, identidades e desejos são constantemente sugados e revendidos.

O erotismo em “Drácula” é sempre vulgar, exagerado e intrínseco ao humor grotesco. As cenas de sedução entre Drácula (Gabriel Spahiu) e Vampira (Oana Maria Zaharia), com fusões para quartos kitsch e sofás em forma de lábios, operam como paródia de um imaginário dionisíaco esvaziado pela repetição. Ao mesmo tempo, o filme mantém uma autocrítica constante, reconhecendo a própria dependência de códigos heteronormativos para atrair público, enquanto empurra esses códigos até o limite do desconforto.

Ao articular mito, IA, sexualidade e identidade nacional, Radu Jude constrói um filme que transforma o vampiro em síntese de exploração cultural, econômica e simbólica. A representação queer surge imersa nesse caos deliberado, não como enclave moralmente separado, mas como parte de uma paisagem de excessos, sacrilégios e performances. “Drácula” assume o risco de parecer indigesto para expor como desejo, mercado e imaginação coletiva continuam presos a ciclos de extração, reciclagem e circo.


quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Ato Noturno (Brasil, 2025)

“Ato Noturno”, thriller erótico dirigido por Marcio Reolon e Filipe Matzembacher, mergulha na interseção tensa entre sexualidade e esfera pública. O filme segue Matias (Gabriel Faryas), um ator em ascensão, e Rafael (Cirillo Luna), um político emergente, cujo caso secreto desenrola-se em Porto Alegre enquanto ambos lidam com o risco de exposição. A narrativa articula de forma densa a cultura do cruising, o encontro e o sexo em lugares públicos como expressão de desejo, com as imposições do armário político que ainda molda a vida de figuras públicas queer no Brasil contemporâneo. 

O fetiche que une Matias e Rafael não é tratado como escapada ou transgressão isolada, mas como espelho das contradições que atravessam identidade, poder e visibilidade. O cruising funciona como metáfora de uma sexualidade que se afirma à margem das normas, expondo corpos em sua relação com o olho vigilante da sociedade. A escolha de explorar esse território não problematiza o ato em si, mas as estruturas institucionais e sociais que ainda condicionam como e onde o desejo pode existir. 

A escolha de Porto Alegre, terra dos diretores, como cenário é mais do que geográfica: a cidade e seus ícones, do Teatro São Pedro à Praça Marechal Deodoro, passando pelas ruas do centro e pelo Parque da Redenção, onde as orgias acontecem, são componentes narrativos que ancoram o filme em uma cartografia afetiva e política. A fotografia de Luciana Baseggio utiliza esses espaços para refletir a tensão entre público e privado, luz e sombra, desejo desinibido e olhar social vigilante, imprimindo ao longa uma textura visual que dialoga com a presença urbana e sua história queer no Sul do Brasil. 

Em “Ato Noturno”, cenas de palco, sejam ensaios teatrais, sejam performances íntimas, adicionam ao filme um deslumbramento que vai além do impacto emocional. Estas sequências funcionam como metáforas visuais da performance social que os personagens são forçados a encenar, tanto na vida artística quanto em suas vidas privadas. A maneira como o sexo é filmado é sofisticada e cheia de tesão: está integrado à estética do thriller erótico, com clareza e atenção que reforçam a potência dramática do desejo sem jamais cair no soft porn, transformando cenas íntimas em momentos de tensão narrativa e simbólica. 


A trilha musical original e atmosférica composta por Thiago Pethit, Arthur Decloedt e Charles Tixier, alterna com nomes como Maysa, Oliver Sim, Devendra Banhart e Gustavo Bassani,  e inscreve o tempo afetivo dos personagens numa cadência sensorial que reforça o clima de desejo, nostalgia e inquietude. Cada enquadramento contribui para a sensação de voyeurismo constante, um elemento que ecoa o estigma social enfrentado pelos protagonistas. O personagem Fábio (Henrique Barreira) adiciona camadas de conflito íntimo e profissional, contrapondo ambição, rivalidade e vergonha internalizada, enriquecendo o painel emocional da obra.


“Ato Noturno” caminha por territórios sombrios em que desejo e poder se entrelaçam, construindo uma narrativa que é ao mesmo tempo sensual e politicamente afiada. Reolon e Matzembacher consolidam com o filme uma obra que transcende o thriller erótico, situando o corpo não apenas como objeto de desejo, mas como vetor de reflexão sobre visibilidade, risco e agência.


quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Holy Trinity (EUA, 2019)

“Holy Trinity” , dirigido com espírito anárquico e estrelado por Molly Hewitt como a dominatrix Trinity, o filme se estabelece com gosto no território do cinema B e Camp, onde espiritualidade, fetiche, drogas e humor escrachado coexistem.  Ambientado na cena artística queer de Chicago, o longa transforma trabalho sexual, visões induzidas por aerossol e mediunidade improvisada em matéria-prima narrativa, como se John Waters tivesse resolvido filmar uma catequese anticapitalista após uma rave BDSM.

A premissa é deliciosamente absurda. Trinity inala o conteúdo da misteriosa lata Glamhag, depois rebatizada de Orishako, e passa a ouvir os mortos. O dom, longe de ser tratado como maldição solene, vira um recurso caótico que a empurra para encontros com padres confusos, drag queens iluminadas e bruxas de aconselhamento espiritual duvidoso. A herança católica opressiva, sempre à espreita, surge como vilã estética e moral, um fantasma institucional contrastando com a liberdade vibrante das espiritualidades queer e sincréticas que o filme celebra com deboche.


Ao lado de Trinity está Baby (Theo Germaine), parceira submissa, musicista e âncora emocional dessa espiral lisérgica. A relação entre ambos, construída com afeto genuíno e humor autoconsciente, impede que “Holy Trinity” escorregue para o cinismo total. O BDSM aqui não é fetiche ornamental, mas linguagem de intimidade e pacto, com direito a colar simbólico funcionando como compromisso espiritual. Heather Lynn, como Carol, encarna as dualidades místicas do filme, enquanto Imp Queen aparece como ela mesma, reforçando o clima de comunidade queer onde performance e vida cotidiana se misturam sem pudor.


O dom de falar com os mortos ganha contornos inesperadamente sensíveis quando Trinity passa a mediar lutos e traumas alheios. O que começa como alucinação barulhenta se transforma em ferramenta de cuidado coletivo, conectando vivos e mortos para fechar feridas emocionais antigas. Essa mediação espiritual funciona como comentário social, propondo uma ética baseada em empatia e escuta comunitária em oposição ao dogma repressivo. O filme sugere que cura e transcendência podem muito bem vir embaladas em spray fluorescente e sarcasmo.


Visualmente, “Holy Trinity” é um ataque sensorial. A fotografia saturada, os figurinos inspirados em BDSM e drag, e o design de produção anticapitalista transformam cada cena em um pequeno manifesto estético. Cores explosivas, close-ups excessivos e cenários que parecem montados com cola quente e coragem criam um universo onde o grotesco vira glamouroso por insistência. A câmera se comporta como cúmplice dessa desordem, flertando com o exagero como método e recusando qualquer noção de bom gosto normativo.


“Holy Trinity” sabe exatamente o filme que é, e essa autoconsciência é sua maior força. Entre tentações de fama, visões sobrenaturais e dilemas comunitários, a narrativa opta por valorizar vínculos afetivos e autenticidade em detrimento do glamour vazio. O resultado é uma fábula queer debochada, espiritualmente promíscua e politicamente afiada, que transforma blasfêmia em afeto e caos em método. Cinema B, Camp até o talo, mas com coração coletivo pulsando forte.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

TOP 10 FILMES LGBTQIA+ 2025

 
Mais do que um ranking, esta lista desenha um mapa de tensões, desejos e disputas que atravessaram o cinema queer ao longo do ano. Do interior rural brasileiro às saunas de Copenhague, das estradas mexicanas aos centros urbanos filmados em sua crueza política, a seleção aposta em narrativas profundamente situadas. Os TOP 10 LGBTQIA+ DE 2025 evidenciam uma pulsão pelo risco. Thriller erótico, fábula política, animação pop, melodrama histórico e road movie coexistem sem hierarquia estética, unidos pela disposição de tensionar linguagem e expectativa.  Entre margens e consagrações, entre o desejo em risco e a liberdade encarnada, os filmes a seguir compõem um retrato de um ano em que o cinema queer se mostrou mais vivo, mais localizado e politicamente ainda mais afiado.

A Contagem Regressiva dos 10 Melhores

Animação 2D pop sobre a tímida Saira que precisa resgatar a ex, Kiki, das garras dos Straight White Maliens. Primeira animação a receber o Teddy Award em Berlim. Cria um cânone queer que celebra a alegria, transformando a labrys (arma simbólica sáfica) em herança afetiva e política.

Revisita a peça "Hedda Gabler" (Ibsen), transferindo a ação para a Inglaterra dos anos 1950. Tessa Thompson vive Hedda, mulher sofisticada e manipuladora, sufocada pelos códigos sociais. O olhar de Tessa Thompson basta para significar desejo e malícia. É um "baile em lava" onde o glamour é uma armadilha, explorando a elegância de época com tensões modernas.

Johan, jovem gay, se apaixona por William (Nina Rask), um homem trans, na sauna cruising Adonis em Copenhague. Romance ousado e terno, pioneiro por ter um homem trans como protagonista de uma trama de desejo e pertencimento em um espaço queer tradicional.

Policial Lucas (Tom Blyth) se infiltra em banheirões dos anos 90, mas entra em conflito com sua identidade ao se apaixonar por seu alvo, Andrew (Russell Tovey). Resgata a memória da repressão social na América dos anos 90. Explora com sensibilidade a vergonha, ansiedade e o conflito interno de assumir a sexualidade em um contexto repressivo.

06: VIVRE, MOURIR, RENAÎTRE , de Gaël Morel (França, 2024)

Drama nos anos 90 sobre o triângulo amoroso (Emma, Sammy, Cyril) cujas vidas são ligadas pelo amor e pela epidemia de AIDS. Retrata de forma nostálgica, mas inclusiva, as nuances de relacionamentos héteros, bi e homossexuais que resistiram à tragédia do HIV/AIDS, sendo uma celebração da amizade e do amor.

Romance homoerótico rural intenso em 1984, narrando o encontro entre o rústico Antônio (Lucas Drummond) e o motociclista Marcelo, e suas vidas ao longo de décadas (com Fernando Libonati como Antônio na maturidade). É sobre o amor que resiste ao tempo e ao silêncio do campo. Traz uma bem-vinda representatividade a corpos maduros, investigando a convivência, o desejo e o pertencimento.

Fábula árida no Atacama (1982) sobre mulheres trans e travestis lidando com uma doença misteriosa (alegoria da AIDS), misturando realismo mágico e ativismo. Obra que reescreve a história da epidemia de AIDS sob a perspectiva trans chilena. Força no rigor formal e na reivindicação da dignidade no deserto.

Thriller erótico ambientado em Porto Alegre que acompanha o caso secreto entre Matias (Gabriel Faryas), um ator em ascensão, e Rafael (Cirillo Luna), político emergente em plena construção pública de imagem. Entre encontros furtivos, sexo em espaços públicos e jogos de poder, o filme tensiona o desejo como força íntima e risco social.

Road movie sombrio e ardente sobre Veneno (garoto de programa em fuga) e Muñeco (seu cafetão), que cruza o país em uma jornada de desejo, violência e sobrevivência. Filme sobre corpos que vendem prazer e compram tempo. Pablos compõe uma narrativa que transforma a prostituição masculina em paisagem e linguagem, expondo o desejo de ser visto à beira do abismo.

Cinebiografia vibrante de Ney Matogrosso, focada em sua luta por personalidade desde a infância (conflitos com o pai militar) até sua consagração como performer revolucionário. Coroação merecida do maior ícone da liberdade na cultura brasileira. Num tour de force de Jesuíta Barbosa, o filme pulsa com a energia subversiva de Ney, equilibrando fidelidade histórica com uma estética ousada e espetacular.

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Do thriller erótico em Porto Alegre à estrada mexicana, culminando na consagração de um ícone nacional, o nosso pódio reafirma que as narrativas mais viscerais e urgentes estão sendo contadas aqui e agora. Que essas histórias continuem a nos provocar, a nos excitar e, acima de tudo, a nos lembrar que a liberdade é um exercício diário de coragem. Até 2026!

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

TOP 10 SÉRIES LGBTQIA+ 2025

Chegamos ao momento de coroar o que de mais instigante e politicamente relevante a televisão nos entregou neste ano. Esta seleção não se prende a coming-of-age fofo; é uma lista de resistência que mergulha em dramas sobre a AIDS, analogias monstruosas, ficção científica existencial e resgate de memória histórica. 

🏆 O Ranking 

10: COBRAS E ESCADAS, de Manolo Caro (México, 2025)

Manolo Caro entrega um novelão ácido em uma escola de elite em Guadalajara, onde a professora ambiciosa Dora (Cecilia Suárez) e seu filho gay Toño navegam por chantagens ao lado do influente Oslo Muriel (Juan Pablo Medina). É Sociedade dos Poetas Mortos com A Usurpadora.

09: WHAT IT FEELS LIKE FOR A GIRL, de  Paris Lees (Reino Unido, 2025) Baseada nas memórias de Paris Lees, segue Byron, uma adolescente transicionando em Nottinghamshire nos anos 2000, enfrentando a hostilidade da classe trabalhadora.A série recusa filtros para mostrar o lado cru da sobrevivência trans, transformando o drama da exploração em uma poderosa narrativa de resiliência.

08: HEATED RIVALRY, de Jacob Tierney (Canadá, 2025)

“Heated Rivalry”, criada por Jacob Tierney para o Crave, surge como um raro exemplo de romance esportivo queer que entende o erotismo não como adereço, mas como motor. Adaptando o livro de Rachel Reid, a produção acompanha quase uma década da relação secreta entre Shane Hollander (Hudson Williams) e Ilya Rozanov (Connor Storrie), dois astros de hóquei no gelo, rivais da NHL. O que poderia facilmente descambar para o melodrama genérico  assume aqui, ser um estudo sobre desejo reprimido, masculinidade performativa e os custos emocionais de existir sob vigilância constante.

Minissérie que une vampiras, pandemias e memória histórica, conectando a Peste Negra à crise da AIDS nos anos 80 na Espanha. Horror queer como ferramenta política. Com estética rosa açucarada e horror camp, Casanova cria uma genealogia de dor e resistência, usando a figura da vampira para denunciar o silêncio do Estado (Silence = Death).

Benny (Benito Skinner), um ex-jogador de futebol americano, tenta esconder sua sexualidade em uma faculdade obcecada por fraternidades, ao som de hinos pop.Uma desconstrução queer do coming-of-age com sátira mordaz. A química explosiva entre Benny e Carmen ("fada viada") é o coração cômico que sustenta a crítica social.


05: JUICE (2ª TEMPORADA), de  Mawaan Rizwan (Reino Unido, 2025)

Jamma navega pela crise existencial e o desemprego morando no sofá de uma amiga, em um universo surreal que mistura animação e sitcom. O tom de Michel Gondry britânico-paquistanês. A série funde humor nonsense com drama profundo, colocando o espectador dentro da mente caótica e poética do protagonista.

Cameron Cope (Miles Heizer) tenta sobreviver ao treinamento em Parris Island no início dos anos 90, quando ser gay nas Forças Armadas era ilegal. Um mergulho tenso na repressão masculina. A série mostra a vulnerabilidade como resistência em um ambiente desenhado para esmagar a identidade.

Após a humanidade ser conectada em uma consciência coletiva pacífica, a única imune é Carol Sturka (Rhea Seehorn), uma lésbica cínica e mal-humorada. Ficção científica existencial de alto nível. Carol torna-se a última representante da humanidade imperfeita, questionando se a felicidade forçada vale o preço da individualidade.

Docusérie de conversa profunda entre o mestre Pedro Almodóvar e seus herdeiros espirituais, Los Javis. Um documento cultural essencial. É uma aula magna íntima que recria momentos e revela o impacto de Almodóvar no cinema queer mundial através de confissões inéditas e belas recriações e depoimentos.

Minissérie brasileira sobre a epidemia de HIV/AIDS nos anos 80, focada no contrabando de AZT e nas redes de solidariedade clandestina. Necessária, ao transformar dor e estigma em memória viva, a produção se recusa a deixar o passado cair no esquecimento e celebra a resistência afetiva brasileira.


domingo, 28 de dezembro de 2025

Heated Rivalry (Canadá, 2025)

A primeira temporada de “Heated Rivalry”, criada por Jacob Tierney para o Crave, surge como um raro exemplo de romance esportivo queer que entende o erotismo não como adereço, mas como motor narrativo. Adaptando o livro mais popular da série “Game Changers”, de Rachel Reid, a produção acompanha quase uma década da relação secreta entre Shane Hollander (Hudson Williams) e Ilya Rozanov (Connor Storrie), dois astros de hóquei no gelo, rivais da NHL. O que poderia facilmente descambar para o melodrama genérico  assume aqui, ser um estudo sobre desejo reprimido, masculinidade performativa e os custos emocionais de existir sob vigilância constante.

Desde os primeiros episódios, “Heated Rivalry” revela sem pudor sua dimensão de soft porn, apostando em cenas sexuais frequentes, coreografadas com atenção ao prazer mútuo e à fisicalidade dos corpos. Longe de funcionar como exploração vazia, essa ênfase no sexo constrói intimidade e tensão dramática, sublinhando o contraste entre a violência ritualizada do hóquei e a vulnerabilidade dos encontros privados. O sucesso estrondoso da série nas redes sociais, com cenas viralizando no TikTok e no X, confirma que há uma audiência ávida por narrativas queer que não tratem o desejo como tabu ou punição.

A química entre Hudson Williams e Connor Storrie sustenta a série com notável precisão. Shane, capitão contido e estrategista, e Ilya, provocador e emocionalmente mais exposto, encarnam arquétipos clássicos que ganham densidade ao longo do tempo. A série acompanha sua evolução de 2008 a 2017 sem pressa, permitindo que ressentimentos, dependências e afetos se acumulem. O roteiro entende que rivalidade esportiva e atração sexual operam sob lógicas semelhantes, ambas alimentadas por obsessão, comparação constante e necessidade de validação.

Jacob Tierney imprime à adaptação uma assinatura autoral clara, mesmo trabalhando com orçamento limitado e cronograma apertado. Montagens ágeis, trilha sonora pulsante e um uso inteligente de elipses transformam restrições produtivas em escolhas estilísticas. Episódios como o terceiro, que rompe a linearidade, e o quarto, frequentemente apontado como o mais inspirado da temporada, demonstram uma confiança narrativa rara em séries de romance. O episódio cinco cristaliza a proposta da série ao fundir sexo, humor e angústia emocional sem hierarquizá-los.

As tramas paralelas ampliam o universo temático de “Heated Rivalry”, especialmente o arco de Scott Hunter (François Arnaud) e Kip (Robbie G.K.), que culmina em um coming out público de grande repercussão. Ao contrastar esse gesto político com o silêncio estratégico de Shane e Ilya, a série evita respostas fáceis sobre visibilidade e coragem. Cada personagem negocia sua sobrevivência de maneira distinta, expondo as assimetrias internas do próprio universo.

O finale da temporada sintetiza o que “Heated Rivalry” faz de melhor. Mais interessada em catarse afetiva do que em resoluções definitivas, a série encerra seu primeiro ciclo reafirmando o conflito entre desejo e carreira, amor e autopreservação. Ao combinar romance explícito, crítica à masculinidade tóxica e uma estética assumidamente sensual, “Heated Rivalry” se consoolida não apenas como fenômeno pop nas redes, mas como um marco recente do melodrama queer televisivo, um que entende que prazer também é política.