sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Lisbon (Reino Unido, 2025)

“Lisbon” é um curta queer de humor ácido e tensão acelerada, dirigido por Matthew Jacobs Morgan, que transforma um encontro íntimo e transacional em um estudo afiado sobre precariedade, desejo e ética. No centro da narrativa está um jovem queer em dificuldades financeiras que aceita encontrar um homem mais velho, esperando apenas sobreviver ao fim do dia. Tudo muda quando esse homem faz um pedido inesperado, capaz de deslocar qualquer senso de limite.

A força do curta está na forma como expõe a intimidade transacional queer sem estetizar o sofrimento ou recorrer a caricaturas. O encontro, mediado pelo dinheiro, revela fissuras emocionais e sociais de maneira direta. A vulnerabilidade do jovem, interpretado pelo próprio diretor, não é apresentada como fragilidade romântica, mas como realidade material que define escolhas extremas. Nesse espaço tenso, a narrativa abre espaço para camadas de solidão, dependência e medo,  elementos que ressoam dentro das dinâmicas queer atravessadas pela precariedade contemporânea.


A estética escolhida por Morgan opera com precisão: ritmo curto, enquadramentos que capturam pequenas variações de expressão e uma atmosfera concentrada que pressiona os personagens de todos os lados dentro do apartamento de luxo. Nada é supérfluo. A direção constrói um território emocional comprimido, onde cada gesto carrega peso específico.


É exatamente nesse ambiente que John Cameron Mitchell se torna o eixo gravitacional do filme. Sua atuação é visceral desde o primeiro movimento. A forma como ele usa o corpo, como interage com Morgan cria uma presença que domina a cena sem exagero. Mitchell entrega uma performance que mistura fragilidade contida e autoridade desconfortável, fazendo do homem mais velho uma figura impossível de prever. Seu olhar, muitas vezes fixo e quase indecifrável, mantém a narrativa em estado de alerta constante. Ele conduz o curta para territórios que seriam inócuos sem a profundidade que imprimiu ao personagem.


Essa construção é essencial para que “Lisbon” consiga subverter o estereótipo do sugar daddy poderoso e unidimensional. O filme recusa esse caminho fácil. A relação entre os dois homens é marcada por ambivalência moral, por zonas cinzentas que dificultam qualquer julgamento imediato. O jovem não é apenas vítima; o mais velho não é apenas opressor. Ambos carregam necessidades urgentes, afetivas e materiais, que se chocam de maneira devastadora.


No circuito queer contemporâneo, “Lisbon” tem impacto pela honestidade com que aborda a precariedade emocional e econômica que atravessa parte da comunidade LGBTQIA+, além de tocar num tema espinhoso, o suicídio assistido. O curta conversa com debates reais sobre sobrevivência, intimidade como moeda e as negociações que surgem quando o afeto é mediado pela urgência.

“Lisbon” é incômodo, um curta inquieto e incisivo, sustentado por uma direção segura e por uma atuação central que pulsa intensidade. Mitchell transforma o filme em algo maior, elevando cada camada emocional e empurrando a narrativa para uma zona de desconforto necessária. Uma obra que permanece pulsando depois do corte final.

🎄 Mimo de Natal CINEMATOGRAFIA QUEER Como nosso presente especial de fim de ano, liberamos uma seleção imperdível de 10 curtas aclamados do NewFest (The New York LGBTQ+ Film Festival): uma maratona que vai do drama premiado de One Day This Kid e Lisbon, passando pelo homoerotismo corajoso e cru de Within a Quiet Body e Spa Night. A lista ainda inclui a fantasia queer-negra de Orion's Quest, o drama familiar de The Immaculate Honey, a crise de fé de The Upper Room, a tensão performática de Brief Somebodies, a urgência social de Home, e a ficção científica apaixonada de Houston, We Have a Crush. Todos esses 10 títulos já estão disponíveis para download na nossa pasta do Google Drive, nos comentários. Aproveitem a curadoria e feliz cinema!


Within a Quiet Body (EUA/Chile, 2025)

 “Within a Quiet Body”, de José Manuel Vélez, mergulha na rotina de Alex (Charlie Solis), um faxineiro cínico que circula por um clube de sexo gay enquanto tenta silenciar seus desejos mais intensos. O curta acompanha essa tentativa de controle emocional e físico em um ambiente cuja lógica é o excesso, a nudez, o risco e a entrega. O encontro com um visitante interpretado por Ryan Czerwonko funciona como catalisador para que o protagonista confronte o que ainda tenta negar sobre si.

O filme constrói sua força a partir da fricção constante entre o desejo e a repressão. Alex se entrega ao sexo extremo e à dor como tentativa de sentir algo que não seja o entorpecimento emocional que o consome. Vélez evita categorizações fáceis e trabalha a sexualidade de modo fluido, entendendo o corpo como campo de vulnerabilidade, agência e autodestruição coexistindo. O clube aparece como espaço onde prazer e desgaste psíquico se misturam, um lugar que oferece contato e ameaça na mesma medida.


A direção aposta em uma cadência sensorial que se choca com a crueza do cruising. A fotografia cria uma atmosfera etérea que destaca a pele, o toque e a proximidade, mas essa delicadeza é imediatamente tensionada pelo ambiente árido do sexo casual. Essa combinação reforça a ambiguidade que atravessa o curta, já que o olhar poético nunca suaviza totalmente a dureza do que está em jogo. Vélez constrói imagens que valorizam o erotismo sem desmontar a brutalidade emocional do protagonista.


“Within a Quiet Body” é um retrato incômodo e necessário da sexualidade queer em suas zonas mais marginais. Vélez entrega um curta que encara o desejo como força vital e como mecanismo de fuga, sem simplificar a solidão que atravessa certas práticas e ambientes. O corpo quieto do título revela uma trajetória onde prazer e dor disputam espaço, revelando o que ainda resiste quando tudo ao redor parece ruído. É uma obra breve, mas densa, que convida a olhar de frente para aquilo que muitos preferem manter fora de quadro. 🎄 Mimo de Natal CINEMATOGRAFIA QUEER Como nosso presente especial de fim de ano, liberamos uma seleção imperdível de 10 curtas aclamados do NewFest (The New York LGBTQ+ Film Festival): uma maratona que vai do drama premiado de One Day This Kid e Lisbon, passando pelo homoerotismo corajoso e cru de Within a Quiet Body e Spa Night. A lista ainda inclui a fantasia queer-negra de Orion's Quest, o drama familiar de The Immaculate Honey, a crise de fé de The Upper Room, a tensão performática de Brief Somebodies, a urgência social de Home, e a ficção científica apaixonada de Houston, We Have a Crush. Todos esses 10 títulos já estão disponíveis para download na nossa pasta do Google Drive, nos comentários. Aproveitem a curadoria e feliz cinema!!


Wicked: Parte 2 (Wicked: For Good, EUA, 2025)

“Wicked: For Good”, de Jon M. Chu, reafirma como o musical pode funcionar como território simbólico para narrativas queer ao revisitar Oz por meio de figuras historicamente marginalizadas. A jornada de Elphaba (Cynthia Erivo), marcada pela rejeição desde o nascimento devido à pele verde, transforma o mito da “Bruxa Má” em uma reflexão sobre diferença e estigma. Glinda (Ariana Grande) ganha nuances que vão além da bondade idealizada, exibindo privilégios, inseguranças e a busca por pertencimento. O filme estabelece, desde o início, que histórias sobre bruxas são histórias sobre quem vive fora das normas.

A partir desse eixo, Chu amplia a alegoria política ao mostrar Elphaba como alvo de perseguição estatal, usada como símbolo para justificar pânico moral. Os Animais Falantes surgem como metáfora para grupos marginalizados cuja voz é apagada, ecoando legislações contemporâneas anti-LGBTQIA+. “Wicked: For Good” se afasta do escapismo puro e assume um comentário social claro, aproximando Oz de debates atuais sobre controle, desinformação e violência institucional.


O elo afetivo entre Elphaba e Glinda torna-se a espinha dorsal da narrativa. O filme não verbaliza um romance, mas constrói uma intimidade sáfica reconhecível, onde transformação e cuidado mútuo moldam o percurso das duas. “For Good” funciona como síntese dessa relação, não como gesto subtexto, mas como confirmação emocional. É um vínculo queer estruturante, capaz de sustentar o peso do melodrama e das perdas.

Fiyero (Jonathan Bailey), concebido como figura de fluidez afetiva, reforça um imaginário onde desejo não se apresenta de forma fixa. Chu não o utiliza como triângulo romântico convencional, mas como personagem que vive sua própria amplitude. Sua presença sugere um universo onde pluralidade sexual é regra, não exceção, e onde relações afetuosas existem sem hierarquias previsíveis.


A integração entre este universo e a mitologia original de Oz fornece ao filme seus momentos mais engenhosos. Dorothy torna-se o ponto de convergência que redefine destinos, e o longa revela as origens de figuras clássicas como o Espantalho e o Homem de Lata a partir das consequências das escolhas de Elphaba e Glinda. Essa amarração cria continuidade emocional, sustentando a transição entre as obras.


Entre os pontos frágeis, está uma certa irregularidade no ritmo, especialmente em sequências musicais longas que diluem o impacto narrativo. Algumas cenas priorizam tanto o espetáculo que afrouxam a construção emocional, e há momentos em que a grandiosidade visual compete com o desenvolvimento dos personagens. Além disso, o CGI, às vezes satura a visão, com trechos em que a artificialidade compromete a imersão.


Mesmo com essas oscilações, “Wicked: For Good” é uma fantasia de grande impacto, guiada por ambição estética e compromisso com seu público histórico. Chu articula espetáculo e sensibilidade queer sem didatismo excessivo, permitindo que Elphaba e Glinda se solidifiquem como figuras de emancipação e transformação. O resultado é uma obra que reconhece sua herança, expande seu alcance e oferece ao cinema musical um gesto de renovação política e afetiva.


quinta-feira, 27 de novembro de 2025

O Prazer é Meu (El Placer es Mío, Argentina/França/Brasil, 2024)

 “O Prazer é Meu” inaugura a carreira em longas do brasileiro Sacha Amaral com a força de um grito urbano: acompanha Antonio (Max Suen), um jovem de Buenos Aires que sobrevive vendendo drogas e vivendo encontros sexuais casuais, utilizando seu magnetismo para furtos e enganos. A narrativa não romantiza sua vida nem busca redenção. Desde o início, Amaral expõe a dureza da marginalidade, a imprevisibilidade do desejo e o sofrimento de quem habita as sombras sociais, fazendo da sobrevivência uma coreografia de urgência, falta e pulsão.

Mas “O Prazer é Meu” não é apenas um retrato de miséria ou autoflagelação: ele inscreve o desejo e a sexualidade queer como parte intrínseca dessa existência vulnerável. A bissexualidade ou fluidez de Antonio, suas relações com pessoas de diferentes gêneros, sua busca por prazer e por anonimato, se articulam sem moralismo, sem choro de culpa, como potência de existência. Amaral parece afirmar que, mesmo nas margens, há espaço para subjetividades múltiplas, para identidades fluidas e para corpos que se afirmam em seu desejo.

A estética do filme reforça essa lógica. A fotografia de Pedro Knoll privilegia um realismo cru, muitas vezes frio, captando o concreto das ruas, os quartos precários, os corredores urbanos noturnos. Em contraste, os momentos de intimidade, encontros, devoluções de desejo, diálogos tortos, ganham luz própria, uma textura sensual marcada pela vulnerabilidade e pelo risco.

O filme lida com a ambiguidade moral e emocional de seu protagonista sem condenações  e nisso reside parte de sua força. Antonio mente, engana, rouba e manipula; ele não se apresenta como vítima nem como herói, mas como sobrevivente de um sistema que marginaliza e viola. O espectador é forçado a olhar para ele como ser humano complexo, com urgências contraditórias e desejos viscerais. Essa recusa ao julgamento simplista abre espaço para questionar normas de moral sexual, e remete ao cinema cru e indigesto de Eloy de la Iglesia.


Além disso, “O Prazer é Meu” destaca a precariedade social e familiar como elementos centrais na formação da subjetividade queer de Antonio. A relação conflituosa com a mãe (Katja Alemann) revela abandono, ausência de suporte emocional e a necessidade de construir uma família improvisada,  à custa de perigos e de um corpo constantemente exposto. Essa dinâmica faz ecoar as realidades de muitos jovens LGBTQIA+ nas periferias da América Latina: rejeição, exclusão, prostituição, migração interna, fome, desejo de fuga. Amaral não romantiza essa dor: expõe para incomodar, para mostrar que a sobrevivência queer também é luta por espaço, por dignidade, por corpo próprio. 


“O Prazer é Meu” alcança seu impacto ao apresentar a busca por prazer e pertencimento como ato de resistência. O desejo que domina Antonio, instável, voraz, às vezes destrutivo, não é mero escape: é afirmativa de presença, de recusa, de sobrevivência. A ambiguidade moral não diminui sua humanidade, ao contrário: humaniza o marginalizado, torna visível o invisível, dá voz a quem a sociedade prefere ignorar. Amaral entrega um corpo de cinema cru, incômodo, mas vital.

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Anapidae (Appelle-moi, França, 2024)


Produzido por Yann Gonzalez, “Anapidae (Appelle-moi)”, de Mathieu Morel, transforma luto, desejo e memória em cinema. O filme segue Mino (Pierre Léonard), guardião de um cemitério em Naarièges, que preserva os mortos enquanto tenta sobreviver à ausência do homem que amou. Nesse território isolado, a presença de uma aranha gigante, criatura metonímica que dá nome ao filme, materializa a dor que consome o protagonista, capturado por um luto que se recusa a dissolver. A narrativa abraça essa dimensão fantástica para encenar um processo emocional que transborda o realismo, insistindo que o sofrimento também possui corpo, textura e presença.

Ao adotar uma estética experimental construída em Super 8, VHS e cenários kitsch, Morel radicaliza a percepção do tempo e das lembranças. A combinação desses formatos cria uma granulagem instável que confere ao filme um aspecto de relíquia afetiva, como se a própria imagem estivesse corroída pela dor que define Mino. Elementos visuais desgastados, luz que atravessa espaços antigos e camadas texturais e ao mesmo tempo cenários coloridos numa vibe Pierre et Gilles criam um anacronismo vibrante. Essa escolha intensifica a atmosfera de ritual e vigília que sustenta a narrativa, transformando o ambiente em extensão emocional dos personagens.


A chegada de Maya (Léa Durocher), viúva do amante falecido de Mino, reorganiza essa paisagem afetiva. O encontro entre essas duas figuras, marcadas por diferentes formas de perda, revela um triângulo emocional que resiste à linearidade. Maya carrega a força de quem tenta seguir adiante, enquanto Mino permanece aprisionado ao fantasma que insiste em chamá-lo de volta, pedido que ecoa literalmente na súplica “appelle-moi”.

Simbolicamente, a aranha gigante condensa a experiência de Mino: um organismo que tece, captura e devora o que está ao alcance, funcionando como metáfora para um luto que paralisa e drena sua vitalidade. Morel investe na criatura como figura poética e monstruosa ao mesmo tempo, aproximando o curta de um imaginário fantástico que utiliza o corpo e o simbólico para discutir estados internos. Esse gesto inscreve o filme dentro de uma tradição queer de imagens que externalizam dores íntimas através de elementos fantásticos, reforçando a dimensão sensível e metafórica de sua dramaturgia.


Dentro de sua moldura estética, “Anapidae” mergulha no terror queer com uma precisão particular. As duas meninas, filhas de Maya, evocam de imediato a iconografia das gêmeas de “O Iluminado”. A própria biologia da aranha, filmada em detalhes, causa desconforto e contamina o espaço com uma presença que é ao mesmo tempo repulsiva e hipnótica. O desejo necrófilo que atravessa determinadas sequências intensifica o horror, aproximando o filme das obsessões temáticas encontradas em outros trabalhos de Moreau, onde corpo, morte e erotismo são forças que se enroscam.

“Anapidae (Appelle-moi)” é uma obra potente sobre o peso da memória e a impossibilidade de se desprender de certos amores. A mise-en-scène ritualista, o uso expressivo de formatos analógicos e a construção metafórica da aranha transformam o curta num estudo sensível e inquietante sobre um luto que se recusa a afrouxar seus fios. No encontro entre Mino e Maya, emerge a promessa de cura possível, mesmo que fragmentada, contrapondo dois modos de existir diante da perda. 

Six Candies (Argentina, 2025)

“Six Candies”, novo longa de Marcelo Briem Stamm, abraça o hedonismo como plataforma narrativa e estética, construindo uma comédia erótica onde múltiplas histórias de homens gays se entrelaçam por meio de um objeto inusitado, um livro de autoajuda que funciona como um manifesto libertário. Através dessa estrutura episódica, o filme organiza seus personagens em uma coreografia de desejos, encontros e pequenos rituais de prazer, sempre partindo da mesma pergunta, o que acontece quando o prazer deixa de ser exceção e passa a ser regra? É a partir desse ponto que a obra articula humor, erotismo e uma celebração explícita da sexualidade gay contemporânea.

A filmografia de Stamm, marcada por títulos como  “Somos Tr3s” e “Solo”, costuma circular entre tensões afetivas e dinâmicas de poder. Aqui, no entanto, o diretor radicaliza o tom, inclinando-se para a comédia colorida e satírica sem abandonar seu interesse pelas fricções emocionais do desejo masculino. “Six Candies” opera como uma espécie de derivação natural desse percurso, jogando luz sobre a comunidade gay de forma descontraída, mas nunca superficial, articulando a sensualidade como uma força de afirmação identitária.

Cada subplot emerge como uma pequena variação sobre o mesmo núcleo temático, a busca pela felicidade através da autoindulgência. Aos poucos, o espectador acompanha encontros em saunas, relações casuais, ménage e flertes instantâneos, todos embalados por uma atmosfera festiva que privilegia o corpo em sua expressividade plena. O humor convive com momentos de introspecção, e a diversidade de trajetórias reforça a multiplicidade da experiência gay. Mesmo sem uma grande jornada psicológica, o filme encontra potência na variedade de perspectivas, construindo um mosaico hedonista da vida queer contemporânea.

O visual aposta em cores saturadas, ambientes luminosos e composições que evocam o artifício do erotismo pop. Há um controle rigoroso da paleta cromática, que transforma cada ambiente em um pequeno playground do desejo, reforçando a dimensão performativa dessas masculinidades. O erotismo, frequentemente explícito, nunca aparece como mero choque visual, mas como textura narrativa. Cenas de corpos expostos e situações de sexo casual são tratadas com naturalidade e ironia, dissolvendo tabus e ampliando o espaço para que a sexualidade gay seja mostrada de forma celebratória.

“Six Candies” talvez não ofereça uma reflexão profunda sobre os dilemas da comunidade gay, mas justamente por assumir essa falta de profundidade como estética, encontra um lugar singular. Seu compromisso com o hedonismo, com o sexo, a celebração dos corpos e com a leveza narrativa converte o filme em um pequeno manifesto do prazer como resistência, da liberdade sexual como antídoto ao moralismo e da diversão como prática política. 

terça-feira, 25 de novembro de 2025

I Wish You All The Best (EUA, 2024)

O coming-of-age “I Wish You All the Best” posiciona uma personagem não binária no centro da narrativa com atenção, cuidado e clareza emocional. A estreia de Tommy Dorfman, conhecida por “13 Reasons Why” na direção, também assinando o roteiro, adaptado do best-seller de Mason Deaver, mostra uma artista comprometida com histórias que exploram afetos queer sem reduzi-los a violência ou dor.

O percurso de Ben DeBacker, interpretade por Corey Fogelmanis, ganha força justamente por compreender que identidade de gênero não deve ser tratada como dispositivo dramático, mas como dimensão integral da experiência de um adolescente que precisa reconstruir seus vínculos. A expulsão de casa pelos pais conservadores estabelece o ponto de partida, embora o filme rapidamente desloque o foco para a reconstrução afetiva que se estabelece ao lado de Hannah (Alexandra Daddario) e Thomas (Cole Sprouse). A casa da irmã torna-se o ambiente no qual Ben encontra espaço para reorganizar a própria vida.


A chegada a uma nova escola expande esse universo de acolhimento, permitindo que a convivência com Nathan (iles Gutierrez-Riley) ofereça ao filme um romantismo leve e carismático. A dinâmica entre Ben e Nathan devolve o frescor ao desgaste do gênero coming-of-age, rejeitando categorizações simplistas e investindo em trocas verdadeiras, permeadas por humor, cumplicidade e descobertas. A presença de Lena Dunham como a professora Ms. Lyons adiciona um toque de excentricidade.


Entre Lykke Li e Indigo Girls, a direção de Tommy Dorfman se destaca pela atenção às expressões, aos pequenos gestos e à construção de segurança emocional entre os personagens. A diretora reconhece que histórias queer merecem camadas diversas e não apenas retrabalhos de angústias. O longa opta por uma sensibilidade que valoriza a intimidade e realça a jornada de Ben com nuances que fogem de soluções fáceis, reafirmando a centralidade do afeto e da autenticidade nas trajetórias LGBTQIA +.


A escolha de evidenciar a alegria queer insere o filme em uma tendência contemporânea que busca romper com estigmas históricos do tropo bury your gays. "I Wish You All the Best" não ignora desafios sociais, porém prefere enfatizar possibilidades, indicando caminhos de convivência e empatia.

O resultado configura não apenas uma adaptação literária bem-sucedida, mas um gesto político e afetivo que amplia horizontes dentro do cinema sobre a juventude. A história de Ben aponta para um imaginário mais generoso, sustentado por encontros que fortalecem identidades e reafirmam a potência das redes afetivas.

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Éden & Charlie (França, 2024)


“Éden & Charlie” surge como um desses encontros dentro do cinema onde forma e emoção se articulam de maneira orgânica. Benoît Duvette, artista multidisciplinar com profundo interesse na expressividade do corpo, constrói um média-metragem que trabalha a intimidade como força estética. A atmosfera rural francesa, com sua quietude suspensa, torna-se o cenário ideal para que Éden (Augustin Dewinter) e Charlie(Néven Carron) ensaiem seus primeiros movimentos afetivos em território desconhecido.

A proposta narrativa se estrutura a partir da ocupação de uma casa desabitada, espaço que concentra vestígios de outras vidas. Papeis de parede antigos, madeira desgastada e fachos de sol que se infiltram por janelas abertas formam um ambiente que intensifica a sensação de descoberta. Duvette utiliza esses elementos não apenas como composição visual, mas como parte de uma coreografia emocional que acompanha os dois jovens enquanto exploram seus sentimentos e confrontam seus medos iniciais.


A relação criada entre Éden e Charlie se estabelece de forma gradual, delicada, orientada por gestos pequenos que ganham potência e poesia. Dewinter projeta em Éden uma vulnerabilidade que nunca se confunde com fraqueza, permitindo que sua trajetória seja percebida como um processo de abertura. Carron faz de Charlie um corpo que segurava mundos não ditos, agora disposto a acolher novas possibilidades.

A trilha sonora ocupa papel decisivo na construção desse sensível desenho afetivo. A inclusão de “Dido’s Lament”, em versão que enfatiza a densidade emocional da obra, cria um estado de suspensão entre ferida e cuidado. Esse uso musical contribui para a criação de um clima etéreo, quase místico, que prepara o espectador para acompanhar as hesitações e aproximações dos personagens sem pressa, respeitando o ritmo interno da experiência.


A direção de Benoît Duvette demonstra maturidade ao optar por um cinema de observação, concentrado em detalhes e nas sensações despertadas pela convivência entre dois jovens que se encontram justamente quando precisavam ser vistos. A presença de elementos naturais, animais e luz que se move pelo espaço reforça o lirismo do filme. Há um entendimento claro de que a conexão afetiva se forma pela soma de olhares, toques e confissões que precisam de tempo para emergir.


“Éden & Charlie” alcança potência por abordar o despertar homoerótico com sensibilidade e escuta. É uma obra que entende o afeto como experiência transformadora e que encontra no cinema de câmara um veículo ideal para narrar o florescimento de novos caminhos emocionais. Duvette entrega um filme que reverbera pela precisão estética e pela delicadeza com que trata seus personagens.

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Scarlet Blue (França, 2024)


Em “Scarlet Blue", Aurélia Mengin entrega uma experiência cinematográfica hipnótica e visceral, lançando mão de um surrealismo psicodélico para retratar a turbulência mental de Alter (Anne-Sophie Charron), uma mulher marcada por depressão e esquizofrenia. A narrativa se movimenta como um sonho, imagens saturadas, cores neon intensas e enquadramentos oblíquos evocam um universo à la David Lynch e Bertrand Mandico, enquanto Mengin explora a psique de sua protagonista por meio de sessões de hipnose mística conduzidas por um curandeiro sexy (Léandro Lecreulx).

A estética do filme é sedutora e ousada, imprimindo ao mesmo tempo uma sensação de afeto e estranhamento. A cena em que Alter encontra Chris (interpretada pela própria Mengin) num posto de gasolina, em meio a sua crise, tem um tom de encontro místico e romântico, reforçado por uma trilha sonora que sussurra e vibra, refletindo a instabilidade emocional de Alter.

Mais do que um retrato de doença mental, “Scarlet Blue” carrega uma sensibilidade queer muito clara. A relação entre Alter e Chris não funciona apenas como romance convencional, mas como um gesto de afirmação identitária: o encontro entre essas duas mulheres, em meio às angústias de Alter, sugere que sua identidade queer está profundamente entrelaçada com sua dor e sua resistência.

Mengin constrói sua protagonista com nuances delicadas. Alter é uma mulher que vive assombrada: por uma mãe (Rosy) distante, por impulsos carnais que surgem em seus episódios psicóticos, e pelo vazio de lembrar de si mesma. A hipnose, nesse sentido, torna-se uma ferramenta narrativa poderosa para desvelar memórias reprimidas e traumas profundos, dando ao filme uma dimensão de mistério e revelação. É como se cada sessão fosse uma porta para labirintos psíquicos, onde o público testemunha vislumbres da verdade escondida.

Aurélia Mengin foi premiada como “Melhor Diretora” no FOGFEST, no Canadá, o que reforça a força autoral da obra. “Scarlet Blue” é um drama visualmente arrebatador que mistura terror, romance e introspecção para dar voz a uma personagem cuja saúde mental e identidade queer são centrais para sua narrativa.



quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Two Black Boys in the Paradise (Reino Unido, 2025)

“Two Black Boys in Paradise”, de Baz Sells, transforma um poema de Dean Atta em uma pequena epifania visual sobre amor negro e queer. Em nove minutos, a animação em stop motion reivindica a ternura como gesto político, construindo um romance entre Edan (19) e Dula (18) que se afirma no limiar entre o sensorial e o poético. O curta nasce como leitura cinematográfica do poema homônimo incluído na coletânea “There Is (Still) Love Here”, e preserva tanto sua cadência literária quanto sua pulsação política, traduzindo em textura, luz e movimento um desejo que recusa ser disciplinado pelo mundo exterior.


A trama acompanha Edan e Dula enquanto eles se aproximam, se tocam, se olham com a intimidade de quem descobre que o amor entre garotos negros também pode ser um lugar de alegria e orgulho. O “paraíso” do título não é uma geografia literal, mas um estado construído com a recusa da vergonha, onde homofobia e racismo perdem força diante do desejo de existir plenamente. Esse paraíso se revela no gesto simples de caminhar de mãos dadas em um mercado, uma cena que nasce de um episódio pessoal de Jackson e que se torna aqui um dos símbolos mais potentes de visibilidade pública.


Há fricção constante entre o mundo hostil e o espaço afetivo que eles criam, e o filme não suaviza essa tensão. A presença policial em uma das cenas reforça a vigilância direcionada a corpos negros queer, produzindo uma quebra de atmosfera que evidencia o peso dessas estruturas. Ainda assim, “Two Black Boys in Paradise” insiste em devolver a Edan e Dula o direito à sensualidade e ao prazer, incluindo uma cena sexual tratada com beleza e cuidado, fruto da decisão da equipe de não retirar dos personagens aquilo que tantos filmes ainda lhes negam.


A estética em stop motion é parte essencial dessa força. Tudo no curta parece pulsar com as marcas da mão que molda e anima, criando um espaço tátil e onírico onde o real se entrelaça à fantasia. Os corpos dos personagens carregam textura, peso e presença, e os cenários retomam a lógica do cinema-poema, alinhando visualidade artesanal com a dimensão lírica do texto original.

“Two Black Boys in Paradise” é uma celebração carregada de sensibilidade política, onde a animação stop motion emerge como linguagem para imaginar liberdades ainda negadas. Ao transformar o poema de Atta em imagem, o filme oferece a Edan e Dula um lugar que tantas histórias lhes tiraram, um espaço de sonho, desejo e beleza que afirma que existir em amor também é resistir. 

DRIVE COM O CURTA NOS COMENTÁRIOS

E Seu Corpo é Belo (Brasil, 2024)


"E Seu Corpo é Belo”, de Yuri Costa, é um curta que pulsa como um coração em brasa, vibrando entre terror, romance e musical. Ambientado nos bailes Black do subúrbio carioca nos anos 1970, o filme cria uma atmosfera hipnótica em que Carlos (João Pedro Oliveira) reencontra Tony (Paulo Guidelly). É um retorno tão íntimo quanto explosivo, marcado por mágoas antigas e por um desejo que insiste em sobreviver ao tempo. A narrativa, compacta, cria uma pequena cartografia afetiva de um período decisivo para a cultura Black brasileira, resgatando o espaço desses bailes como territórios de pertencimento e resistência.

A estética do filme é um mergulho direto no imaginário blaxploitation, evocando ícones como “Shaft” e “Foxy Brown” por meio da luz, do figurino e dos enquadramentos. É um cinema que carrega o corpo como afirmação cultural e política, ecoando também o afro-surrealismo que Yuri Costa mobiliza em sua filmografia. A trilha sonora reforça essa imersão com potência: Luiz Melodia em “Pérola Negra”, Milton Nascimento em “Pelo Amor de Deus” e Cassiano em “Onda” funcionam como guias emocionais que aproximam o público do calor e da melancolia desse universo. Nada é meramente decorativo, tudo é dramaturgia.


O filme abraça o terror como uma metáfora de fúria e ferida. Não se trata de monstros tradicionais, mas de espectros emocionais que se acumulam em corpos negros e queer historicamente marcados pelo apagamento. Ao transformar mágoa afetiva em atmosfera de horror, Costa se alinha a tradições politizadas do cinema negro, aproximando-se de obras de Marlon Riggs na forma como convoca estética e política como uma mesma força. O medo aqui é uma linguagem para tensões que nunca foram nomeadas, mas sempre estiveram presentes na experiência dessas comunidades.


A dimensão queer é estruturante e irredutível. O reencontro entre Carlos e Tony não é apenas uma história de amor interrompido, mas uma reencenação da violência simbólica que cerca corpos dissidentes dentro da própria cultura Black da época. O curta cria um romance que nunca escorrega para o melodrama fácil, priorizando camadas de desejo, culpa e sobrevivência.


O elenco sustenta essa densidade com força. João Pedro Oliveira constrói um Carlos inquieto, preso entre orgulho e ferida, enquanto Paulo Guidelly dá a Tony uma mistura de charme e melancolia, compondo um personagem dividido entre o que viveu e o que teme revisitar. Dandara Lorena, em participação de apoio, amplia o universo musical e espiritual que envolve a narrativa.


“E Seu Corpo é Belo” condensa em 24 minutos uma estética vibrante, uma crítica social contundente e um gesto de memória que devolve centralidade à vivência Black e queer. É um curta que afirma beleza como resistência e terror como linguagem política, criando uma obra que ecoa muito depois de suas últimas imagens.


quarta-feira, 19 de novembro de 2025

O Filho de Mil Homens (Brasil, 2025)

 

“O Filho de Mil Homens” é uma adaptação do romance de Valter Hugo Mãe dirigida por Daniel Rezende, cuja sensibilidade visual e narrativa delimita o filme como uma fábula poética que revisita e expande conceitos profundos de família, identidade e afeto. A seu modo, Rezende costura contos paralelos não lineares que se entrelaçam para formar um panorama humano repleto de dor, resistência e ternura,  e é nessa teia que brota uma narrativa queer essencial.


No centro da história está Crisóstomo (Rodrigo Santoro), um pescador de 40 anos, solitário e imerso em sua própria culpa por não ter filhos. Seu desejo de paternidade não nasce de uma ambição social ou de legado, mas de algo visceral: ele sonha alto. A relação entre Crisóstomo e Camilo (Miguel Martines), um garoto órfão, é o fio condutor mais claramente queer do filme: um vínculo escolhido, não biológico, baseado no cuidado, no amor e na construção mútua. Esse laço desmonta expectativas tradicionais de paternidade, mostrando uma masculinidade sensível e transformadora, não autoritária, mas vulnerável. 


Além desse núcleo, o longa introduz outros personagens que enriquecem esse universo de margens. Há Antonino (Johnny Massaro), um jovem homossexual amplamente oprimido pela mãe religiosa e pela violência machista da vila. Sua presença revela, por meio de flashbacks e tensões silenciosas, as múltiplas pressões que sustentam a masculinidade tóxica e a homofobia internalizada. É notável como o filme maneja o erotismo queer. Há cenas de contemplação de corpos masculinos e até uma simbólica masturbação de Antonino representada por borboletas , uma escolha poética que articula desejo, repressão e liberdade de forma delicada, sem se render ao choque fácil.



Também merece destaque Isaura (Rebeca Jamir), uma mulher marcada pela reprovação social e familiar, empurrada para um casamento de conveniência, com Antonino, vivendo em reclusão emocional. Sua trajetória de dor, abandono e recomeço dialoga com a do marido, mostrando que exclusão social, repressão sexual e crueldade moral afetam diferentes corpos e identidades. Por fim, há Francisca, mulher com nanismo, vivida por Inez Viana, um personagem que sofre com o capacitismo da comunidade, servindo como microcosmo para refletir discriminações sociais mais amplas.

Esteticamente, o filme conjuga realismo mágico com sensibilidade quase garciamarquiana. A natureza (o mar, as rochas, as paisagens da Chapada Diamantina) é fotografada por Azul Serra com uma beleza austera, evocando tanto força quanto vulnerabilidade. A narrativa sugere elementos fantásticos, como luzes etéreas ou uma “conexão extraordinária” entre Crisóstomo e os segredos enterrados da vila. Essa poética visual reforça a natureza fabulosa da história, transformando o cenário em personagem, e fazendo da água,  o mar, a pesca,  um elemento metafórico e transformador, símbolo de mudança, de ciclo e de purificação.


Narrativamente, apesar de contornos antológicos, “O Filho de Mil Homens” converge para um clímax comum, desafiando o espectador a lembrar que essas vidas fragmentadas são, na verdade, interligadas. Há sofrimento e violência,  machismo, homofobia, exclusão, , mas também um gesto de resistência: Crisóstomo, Antonino, Isaura, Camilo, Francisca, juntos, mostram que a reconexão é possível, que a família pode ser feita de muitas coisas, e que o amor pode nascer de uma escolha continuada.

Ao fim o sentimento que persiste é de esperança com delicadeza. A fábula de Rezende não promete que o mundo vai mudar magicamente, mas afirma que transformações íntimas são possíveis, que laços inventados têm tanta força quanto os biológicos, e que a família queer, comunitária e sensível pode ser uma resposta para a exclusão social. “O Filho de Mil Homens” é uma ode àqueles que resistem, que se acolhem, que sonham e reinventam e isso faz dele, no cenário do cinema queer contemporâneo brasileiro, uma obra de grande significância estética e política.