quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Ato Noturno (Brasil, 2025)

“Ato Noturno”, thriller erótico dirigido por Marcio Reolon e Filipe Matzembacher, mergulha na interseção tensa entre sexualidade e esfera pública. O filme segue Matias (Gabriel Faryas), um ator em ascensão, e Rafael (Cirillo Luna), um político emergente, cujo caso secreto desenrola-se em Porto Alegre enquanto ambos lidam com o risco de exposição. A narrativa articula de forma densa a cultura do cruising, o encontro e o sexo em lugares públicos como expressão de desejo, com as imposições do armário político que ainda molda a vida de figuras públicas queer no Brasil contemporâneo. 

O fetiche que une Matias e Rafael não é tratado como escapada ou transgressão isolada, mas como espelho das contradições que atravessam identidade, poder e visibilidade. O cruising funciona como metáfora de uma sexualidade que se afirma à margem das normas, expondo corpos em sua relação com o olho vigilante da sociedade. A escolha de explorar esse território não problematiza o ato em si, mas as estruturas institucionais e sociais que ainda condicionam como e onde o desejo pode existir. 

A escolha de Porto Alegre, terra dos diretores, como cenário é mais do que geográfica: a cidade e seus ícones, do Teatro São Pedro à Praça Marechal Deodoro, passando pelas ruas do centro e pelo Parque da Redenção, onde as orgias acontecem, são componentes narrativos que ancoram o filme em uma cartografia afetiva e política. A fotografia de Luciana Baseggio utiliza esses espaços para refletir a tensão entre público e privado, luz e sombra, desejo desinibido e olhar social vigilante, imprimindo ao longa uma textura visual que dialoga com a presença urbana e sua história queer no Sul do Brasil. 

Em “Ato Noturno”, cenas de palco, sejam ensaios teatrais, sejam performances íntimas, adicionam ao filme um deslumbramento que vai além do impacto emocional. Estas sequências funcionam como metáforas visuais da performance social que os personagens são forçados a encenar, tanto na vida artística quanto em suas vidas privadas. A maneira como o sexo é filmado é sofisticada e cheia de tesão: está integrado à estética do thriller erótico, com clareza e atenção que reforçam a potência dramática do desejo sem jamais cair no soft porn, transformando cenas íntimas em momentos de tensão narrativa e simbólica. 


A trilha musical original e atmosférica composta por Thiago Pethit, Arthur Decloedt e Charles Tixier, alterna com nomes como Maysa, Oliver Sim, Devendra Banhart e Gustavo Bassani,  e inscreve o tempo afetivo dos personagens numa cadência sensorial que reforça o clima de desejo, nostalgia e inquietude. Cada enquadramento contribui para a sensação de voyeurismo constante, um elemento que ecoa o estigma social enfrentado pelos protagonistas. O personagem Fábio (Henrique Barreira) adiciona camadas de conflito íntimo e profissional, contrapondo ambição, rivalidade e vergonha internalizada, enriquecendo o painel emocional da obra.


“Ato Noturno” caminha por territórios sombrios em que desejo e poder se entrelaçam, construindo uma narrativa que é ao mesmo tempo sensual e politicamente afiada. Reolon e Matzembacher consolidam com o filme uma obra que transcende o thriller erótico, situando o corpo não apenas como objeto de desejo, mas como vetor de reflexão sobre visibilidade, risco e agência.


quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Holy Trinity (EUA, 2019)

“Holy Trinity” , dirigido com espírito anárquico e estrelado por Molly Hewitt como a dominatrix Trinity, o filme se estabelece com gosto no território do cinema B e Camp, onde espiritualidade, fetiche, drogas e humor escrachado coexistem.  Ambientado na cena artística queer de Chicago, o longa transforma trabalho sexual, visões induzidas por aerossol e mediunidade improvisada em matéria-prima narrativa, como se John Waters tivesse resolvido filmar uma catequese anticapitalista após uma rave BDSM.

A premissa é deliciosamente absurda. Trinity inala o conteúdo da misteriosa lata Glamhag, depois rebatizada de Orishako, e passa a ouvir os mortos. O dom, longe de ser tratado como maldição solene, vira um recurso caótico que a empurra para encontros com padres confusos, drag queens iluminadas e bruxas de aconselhamento espiritual duvidoso. A herança católica opressiva, sempre à espreita, surge como vilã estética e moral, um fantasma institucional contrastando com a liberdade vibrante das espiritualidades queer e sincréticas que o filme celebra com deboche.


Ao lado de Trinity está Baby (Theo Germaine), parceira submissa, musicista e âncora emocional dessa espiral lisérgica. A relação entre ambos, construída com afeto genuíno e humor autoconsciente, impede que “Holy Trinity” escorregue para o cinismo total. O BDSM aqui não é fetiche ornamental, mas linguagem de intimidade e pacto, com direito a colar simbólico funcionando como compromisso espiritual. Heather Lynn, como Carol, encarna as dualidades místicas do filme, enquanto Imp Queen aparece como ela mesma, reforçando o clima de comunidade queer onde performance e vida cotidiana se misturam sem pudor.


O dom de falar com os mortos ganha contornos inesperadamente sensíveis quando Trinity passa a mediar lutos e traumas alheios. O que começa como alucinação barulhenta se transforma em ferramenta de cuidado coletivo, conectando vivos e mortos para fechar feridas emocionais antigas. Essa mediação espiritual funciona como comentário social, propondo uma ética baseada em empatia e escuta comunitária em oposição ao dogma repressivo. O filme sugere que cura e transcendência podem muito bem vir embaladas em spray fluorescente e sarcasmo.


Visualmente, “Holy Trinity” é um ataque sensorial. A fotografia saturada, os figurinos inspirados em BDSM e drag, e o design de produção anticapitalista transformam cada cena em um pequeno manifesto estético. Cores explosivas, close-ups excessivos e cenários que parecem montados com cola quente e coragem criam um universo onde o grotesco vira glamouroso por insistência. A câmera se comporta como cúmplice dessa desordem, flertando com o exagero como método e recusando qualquer noção de bom gosto normativo.


“Holy Trinity” sabe exatamente o filme que é, e essa autoconsciência é sua maior força. Entre tentações de fama, visões sobrenaturais e dilemas comunitários, a narrativa opta por valorizar vínculos afetivos e autenticidade em detrimento do glamour vazio. O resultado é uma fábula queer debochada, espiritualmente promíscua e politicamente afiada, que transforma blasfêmia em afeto e caos em método. Cinema B, Camp até o talo, mas com coração coletivo pulsando forte.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

TOP 10 FILMES LGBTQIA+ 2025

 
Mais do que um ranking, esta lista desenha um mapa de tensões, desejos e disputas que atravessaram o cinema queer ao longo do ano. Do interior rural brasileiro às saunas de Copenhague, das estradas mexicanas aos centros urbanos filmados em sua crueza política, a seleção aposta em narrativas profundamente situadas. Os TOP 10 LGBTQIA+ DE 2025 evidenciam uma pulsão pelo risco. Thriller erótico, fábula política, animação pop, melodrama histórico e road movie coexistem sem hierarquia estética, unidos pela disposição de tensionar linguagem e expectativa.  Entre margens e consagrações, entre o desejo em risco e a liberdade encarnada, os filmes a seguir compõem um retrato de um ano em que o cinema queer se mostrou mais vivo, mais localizado e politicamente ainda mais afiado.

A Contagem Regressiva dos 10 Melhores

Animação 2D pop sobre a tímida Saira que precisa resgatar a ex, Kiki, das garras dos Straight White Maliens. Primeira animação a receber o Teddy Award em Berlim. Cria um cânone queer que celebra a alegria, transformando a labrys (arma simbólica sáfica) em herança afetiva e política.

Revisita a peça "Hedda Gabler" (Ibsen), transferindo a ação para a Inglaterra dos anos 1950. Tessa Thompson vive Hedda, mulher sofisticada e manipuladora, sufocada pelos códigos sociais. O olhar de Tessa Thompson basta para significar desejo e malícia. É um "baile em lava" onde o glamour é uma armadilha, explorando a elegância de época com tensões modernas.

Johan, jovem gay, se apaixona por William (Nina Rask), um homem trans, na sauna cruising Adonis em Copenhague. Romance ousado e terno, pioneiro por ter um homem trans como protagonista de uma trama de desejo e pertencimento em um espaço queer tradicional.

Policial Lucas (Tom Blyth) se infiltra em banheirões dos anos 90, mas entra em conflito com sua identidade ao se apaixonar por seu alvo, Andrew (Russell Tovey). Resgata a memória da repressão social na América dos anos 90. Explora com sensibilidade a vergonha, ansiedade e o conflito interno de assumir a sexualidade em um contexto repressivo.

06: VIVRE, MOURIR, RENAÎTRE , de Gaël Morel (França, 2024)

Drama nos anos 90 sobre o triângulo amoroso (Emma, Sammy, Cyril) cujas vidas são ligadas pelo amor e pela epidemia de AIDS. Retrata de forma nostálgica, mas inclusiva, as nuances de relacionamentos héteros, bi e homossexuais que resistiram à tragédia do HIV/AIDS, sendo uma celebração da amizade e do amor.

Romance homoerótico rural intenso em 1984, narrando o encontro entre o rústico Antônio (Lucas Drummond) e o motociclista Marcelo, e suas vidas ao longo de décadas (com Fernando Libonati como Antônio na maturidade). É sobre o amor que resiste ao tempo e ao silêncio do campo. Traz uma bem-vinda representatividade a corpos maduros, investigando a convivência, o desejo e o pertencimento.

Fábula árida no Atacama (1982) sobre mulheres trans e travestis lidando com uma doença misteriosa (alegoria da AIDS), misturando realismo mágico e ativismo. Obra que reescreve a história da epidemia de AIDS sob a perspectiva trans chilena. Força no rigor formal e na reivindicação da dignidade no deserto.

Thriller erótico ambientado em Porto Alegre que acompanha o caso secreto entre Matias (Gabriel Faryas), um ator em ascensão, e Rafael (Cirillo Luna), político emergente em plena construção pública de imagem. Entre encontros furtivos, sexo em espaços públicos e jogos de poder, o filme tensiona o desejo como força íntima e risco social.

Road movie sombrio e ardente sobre Veneno (garoto de programa em fuga) e Muñeco (seu cafetão), que cruza o país em uma jornada de desejo, violência e sobrevivência. Filme sobre corpos que vendem prazer e compram tempo. Pablos compõe uma narrativa que transforma a prostituição masculina em paisagem e linguagem, expondo o desejo de ser visto à beira do abismo.

Cinebiografia vibrante de Ney Matogrosso, focada em sua luta por personalidade desde a infância (conflitos com o pai militar) até sua consagração como performer revolucionário. Coroação merecida do maior ícone da liberdade na cultura brasileira. Num tour de force de Jesuíta Barbosa, o filme pulsa com a energia subversiva de Ney, equilibrando fidelidade histórica com uma estética ousada e espetacular.

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Do thriller erótico em Porto Alegre à estrada mexicana, culminando na consagração de um ícone nacional, o nosso pódio reafirma que as narrativas mais viscerais e urgentes estão sendo contadas aqui e agora. Que essas histórias continuem a nos provocar, a nos excitar e, acima de tudo, a nos lembrar que a liberdade é um exercício diário de coragem. Até 2026!

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

TOP 10 SÉRIES LGBTQIA+ 2025

Chegamos ao momento de coroar o que de mais instigante e politicamente relevante a televisão nos entregou neste ano. Esta seleção não se prende a coming-of-age fofo; é uma lista de resistência que mergulha em dramas sobre a AIDS, analogias monstruosas, ficção científica existencial e resgate de memória histórica. 

🏆 O Ranking 

10: COBRAS E ESCADAS, de Manolo Caro (México, 2025)

Manolo Caro entrega um novelão ácido em uma escola de elite em Guadalajara, onde a professora ambiciosa Dora (Cecilia Suárez) e seu filho gay Toño navegam por chantagens ao lado do influente Oslo Muriel (Juan Pablo Medina). É Sociedade dos Poetas Mortos com A Usurpadora.

09: WHAT IT FEELS LIKE FOR A GIRL, de  Paris Lees (Reino Unido, 2025) Baseada nas memórias de Paris Lees, segue Byron, uma adolescente transicionando em Nottinghamshire nos anos 2000, enfrentando a hostilidade da classe trabalhadora.A série recusa filtros para mostrar o lado cru da sobrevivência trans, transformando o drama da exploração em uma poderosa narrativa de resiliência.

08: HEATED RIVALRY, de Jacob Tierney (Canadá, 2025)

“Heated Rivalry”, criada por Jacob Tierney para o Crave, surge como um raro exemplo de romance esportivo queer que entende o erotismo não como adereço, mas como motor. Adaptando o livro de Rachel Reid, a produção acompanha quase uma década da relação secreta entre Shane Hollander (Hudson Williams) e Ilya Rozanov (Connor Storrie), dois astros de hóquei no gelo, rivais da NHL. O que poderia facilmente descambar para o melodrama genérico  assume aqui, ser um estudo sobre desejo reprimido, masculinidade performativa e os custos emocionais de existir sob vigilância constante.

Minissérie que une vampiras, pandemias e memória histórica, conectando a Peste Negra à crise da AIDS nos anos 80 na Espanha. Horror queer como ferramenta política. Com estética rosa açucarada e horror camp, Casanova cria uma genealogia de dor e resistência, usando a figura da vampira para denunciar o silêncio do Estado (Silence = Death).

Benny (Benito Skinner), um ex-jogador de futebol americano, tenta esconder sua sexualidade em uma faculdade obcecada por fraternidades, ao som de hinos pop.Uma desconstrução queer do coming-of-age com sátira mordaz. A química explosiva entre Benny e Carmen ("fada viada") é o coração cômico que sustenta a crítica social.


05: JUICE (2ª TEMPORADA), de  Mawaan Rizwan (Reino Unido, 2025)

Jamma navega pela crise existencial e o desemprego morando no sofá de uma amiga, em um universo surreal que mistura animação e sitcom. O tom de Michel Gondry britânico-paquistanês. A série funde humor nonsense com drama profundo, colocando o espectador dentro da mente caótica e poética do protagonista.

Cameron Cope (Miles Heizer) tenta sobreviver ao treinamento em Parris Island no início dos anos 90, quando ser gay nas Forças Armadas era ilegal. Um mergulho tenso na repressão masculina. A série mostra a vulnerabilidade como resistência em um ambiente desenhado para esmagar a identidade.

Após a humanidade ser conectada em uma consciência coletiva pacífica, a única imune é Carol Sturka (Rhea Seehorn), uma lésbica cínica e mal-humorada. Ficção científica existencial de alto nível. Carol torna-se a última representante da humanidade imperfeita, questionando se a felicidade forçada vale o preço da individualidade.

Docusérie de conversa profunda entre o mestre Pedro Almodóvar e seus herdeiros espirituais, Los Javis. Um documento cultural essencial. É uma aula magna íntima que recria momentos e revela o impacto de Almodóvar no cinema queer mundial através de confissões inéditas e belas recriações e depoimentos.

Minissérie brasileira sobre a epidemia de HIV/AIDS nos anos 80, focada no contrabando de AZT e nas redes de solidariedade clandestina. Necessária, ao transformar dor e estigma em memória viva, a produção se recusa a deixar o passado cair no esquecimento e celebra a resistência afetiva brasileira.


domingo, 28 de dezembro de 2025

Heated Rivalry (Canadá, 2025)

A primeira temporada de “Heated Rivalry”, criada por Jacob Tierney para o Crave, surge como um raro exemplo de romance esportivo queer que entende o erotismo não como adereço, mas como motor narrativo. Adaptando o livro mais popular da série “Game Changers”, de Rachel Reid, a produção acompanha quase uma década da relação secreta entre Shane Hollander (Hudson Williams) e Ilya Rozanov (Connor Storrie), dois astros de hóquei no gelo, rivais da NHL. O que poderia facilmente descambar para o melodrama genérico  assume aqui, ser um estudo sobre desejo reprimido, masculinidade performativa e os custos emocionais de existir sob vigilância constante.

Desde os primeiros episódios, “Heated Rivalry” revela sem pudor sua dimensão de soft porn, apostando em cenas sexuais frequentes, coreografadas com atenção ao prazer mútuo e à fisicalidade dos corpos. Longe de funcionar como exploração vazia, essa ênfase no sexo constrói intimidade e tensão dramática, sublinhando o contraste entre a violência ritualizada do hóquei e a vulnerabilidade dos encontros privados. O sucesso estrondoso da série nas redes sociais, com cenas viralizando no TikTok e no X, confirma que há uma audiência ávida por narrativas queer que não tratem o desejo como tabu ou punição.

A química entre Hudson Williams e Connor Storrie sustenta a série com notável precisão. Shane, capitão contido e estrategista, e Ilya, provocador e emocionalmente mais exposto, encarnam arquétipos clássicos que ganham densidade ao longo do tempo. A série acompanha sua evolução de 2008 a 2017 sem pressa, permitindo que ressentimentos, dependências e afetos se acumulem. O roteiro entende que rivalidade esportiva e atração sexual operam sob lógicas semelhantes, ambas alimentadas por obsessão, comparação constante e necessidade de validação.

Jacob Tierney imprime à adaptação uma assinatura autoral clara, mesmo trabalhando com orçamento limitado e cronograma apertado. Montagens ágeis, trilha sonora pulsante e um uso inteligente de elipses transformam restrições produtivas em escolhas estilísticas. Episódios como o terceiro, que rompe a linearidade, e o quarto, frequentemente apontado como o mais inspirado da temporada, demonstram uma confiança narrativa rara em séries de romance. O episódio cinco cristaliza a proposta da série ao fundir sexo, humor e angústia emocional sem hierarquizá-los.

As tramas paralelas ampliam o universo temático de “Heated Rivalry”, especialmente o arco de Scott Hunter (François Arnaud) e Kip (Robbie G.K.), que culmina em um coming out público de grande repercussão. Ao contrastar esse gesto político com o silêncio estratégico de Shane e Ilya, a série evita respostas fáceis sobre visibilidade e coragem. Cada personagem negocia sua sobrevivência de maneira distinta, expondo as assimetrias internas do próprio universo.

O finale da temporada sintetiza o que “Heated Rivalry” faz de melhor. Mais interessada em catarse afetiva do que em resoluções definitivas, a série encerra seu primeiro ciclo reafirmando o conflito entre desejo e carreira, amor e autopreservação. Ao combinar romance explícito, crítica à masculinidade tóxica e uma estética assumidamente sensual, “Heated Rivalry” se consoolida não apenas como fenômeno pop nas redes, mas como um marco recente do melodrama queer televisivo, um que entende que prazer também é política.


sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

A Centésima Noite (100 Nights of Hero, Reino Unido, 2025)

“100 Nights of Hero”, de Julia Jackman, constrói um universo de fantasia histórica que aposta declaradamente no visual over, na composição plástica e na estilização como eixo principal de sua experiência. Inspirado na graphic novel de Isabel Greenberg e em “As Mil e Uma Noites”, o filme segue Cherry (Maika Monroe), deixada à própria sorte pelo marido Jerome (Amir El-Masry) depois de uma aposta com Manfred (Nicholas Galitzine), enquanto a empregada Hero (Emma Corrin) usa a narrativa como estratégia de sobrevivência e subversão. Desde o início, o longa deixa claro que sua ambição está menos na progressão dramática clássica e mais na criação de um espaço de fábulas onde imagens, cores e gestos falam mais alto que conflitos psicológicos densos.

A encenação de Jackman privilegia um mundo deliberadamente artificial, quase teatral, no qual figurinos exuberantes, cenários estilizados e uma fotografia de tons saturados criam um conto de fadas queer autoconsciente. Essa escolha estética é sedutora e coerente com a proposta de reescrever mitos a partir de uma perspectiva feminista e sáfica, mas também impõe um limite. Muitas vezes, a forma se sobrepõe ao conteúdo, transformando tensões políticas e afetivas em ornamentos visuais bem-acabados, porém menos incisivos do que poderiam ser.

A essência do filme está na relação entre Cherry e Hero, que se desenvolve como um romance de descoberta queer marcado pela delicadeza e pela curiosidade. Emma Corrin oferece uma Hero carismática, de gênero fluido, cuja presença organiza tanto o desejo quanto a rebelião simbólica do filme. Maika Monroe, por sua vez, encarna Cherry como uma figura em transição, menos uma personagem plenamente complexa e mais um corpo atravessado por despertar e deslocamento.

A crítica ao patriarcado é satírica e alegórica, com homens apresentados como figuras de bravata vazia, paranoia moral e controle institucionalizado. O Birdman interpretado por Richard E. Grant funciona como caricatura de um poder religioso e de gênero que dita regras absurdas, enquanto mulheres são punidas por falhas que não lhes pertencem.

Nesse contexto, a presença de Charli XCX surge como exemplo emblemático dessa lógica ornamental. Sua participação adiciona camadas de estilo, carisma pop e iconografia queer ao universo do filme, mas permanece superficial, funcionando mais como adereço estético do que como elemento narrativo com peso dramático real. É um gesto que reforça o caráter fashion e performático de “100 Nights of Hero”, mas também evidencia como certas escolhas parecem existir mais para compor um imaginário cool do que para aprofundar sentidos.

“100 Nights of Hero” é uma fábula queer feminista visualmente cativante, que celebra o poder da narrativa, da imaginação e do desejo entre mulheres como formas de resistência. No entanto, sua força reside muito mais na elegância da forma do que na complexidade do conteúdo. É um filme que prefere seduzir pelo brilho, pela composição e pelo encanto do artifício, deixando a sensação de que, por trás de tamanha beleza, havia espaço para um gesto mais radical, menos decorativo e mais disposto a ferir as estruturas que critica.



quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Pluribus (EUA, 2025)

“Pluribus”, criada por Vince Gilligan para a Apple TV+, é uma ficção científica pós-apocalíptica, mas opera, sobretudo, como um estudo ácido sobre autonomia, trauma e a violência embutida em discursos de felicidade compulsória. Ambientada em um mundo devastado por um vírus alienígena que transforma a humanidade em uma mente colmeia pacífica chamada Others, a narrativa segue Carol Sturka (Rhea Seehorn), uma das poucas imunes ao processo de assimilação conhecido como Joining. Desde o início, fica evidente que o conflito central não reside na ameaça externa em si, mas na imposição de um consenso emocional e moral que elimina a discórdia.

Carol é construída como uma protagonista deliberadamente antipática, sarcástica, isolada e emocionalmente endurecida, uma escolha que distancia “Pluribus” de heroísmos confortáveis. Autora de romances de fantasia, ela carrega uma relação tensa com o mundo, marcada por perdas. Essa caracterização é potencializada pela performance de Rhea Seehorn, que imprime à personagem uma fisicalidade defensiva e um humor corrosivo, transformando cada interação em uma granada explosiva de ironias e resistência.

A representatividade queer da série se destaca justamente por sua recusa aos estereótipos. Carol é explicitamente lésbica, com um relacionamento afetivo significativo com Helen L. Umstead (Miriam Shor), explorado em flashbacks. A morte de Helen, ocorrida no caos inicial da epidemia, não funciona como um gatilho descartável de sofrimento, mas como uma ausência persistente que molda as decisões, os medos e as contradições da protagonista. Ao evitar o tropo do “Bury Your Gays”, “Pluribus” preserva a densidade emocional da relação e mantém a identidade queer de Carol como eixo ativo do enredo.

Esse eixo se complexifica ainda mais na relação ambígua com Zosia (Karolina Wydra), uma integrante dos Others designada como acompanhante de Carol. A atração latente entre as duas tensiona a lógica binária entre resistência e assimilação. O fato de Zosia ser moldada a partir das memórias de Helen adiciona uma camada inquietante à dinâmica, transformando o desejo em terreno ético instável, onde afeto e violação simbólica se confundem.

O episódio “Please, Carol” marca um ponto de mudança ao explicitar o trauma queer da protagonista. Em uma conversa sob efeito de soro da verdade, Carol revela ter sido enviada pela mãe, ainda adolescente, a um acampamento de terapia de conversão no Tennessee. A série estabelece um paralelo direto entre os conselheiros sorridentes que prometiam “cura” e os Others, cuja felicidade permanente funciona como instrumento de apagamento identitário. Ao fazer essa conexão, “Pluribus” articula uma crítica contundente às práticas forçadas, expondo a violência psicológica disfarçada de cuidado.

Ao longo da temporada, “Pluribus” se mostra menos interessada em resolver seus mistérios de ficção científica do que em explorar as fissuras morais de um mundo sem conflito aparente. A origem do vírus, sua possível reversão e o futuro da humanidade permanecem em suspensão, deslocando o foco para a pergunta mais incômoda da série: o que se perde quando a diferença é tratada como erro a ser corrigido. Nesse sentido, o final aberto não funciona como gancho protocolar, mas como extensão coerente de uma narrativa que desconfia de soluções fáceis. A série encontra sua força justamente na recusa ao conforto, apostando em uma protagonista falha, em uma sexualidade atravessada por trauma e em uma crítica social que prefere o incômodo ao didatismo.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Tudo é Justo (All's Fair, EUA, 2025)

“All’s Fair”, criada por Ryan Murphy, apresenta um melodrama jurídico pop como um exercício deliberado de exagero, superficialidade e ironia. A série acompanha um grupo de advogadas especialistas em divórcios milionários que rompem com um escritório dominado por homens para fundar a LVLUP Legal, em Los Angeles, transformando batalhas judiciais em arenas de poder, vingança e moda. Desde o início, fica claro que o interesse central não está na verossimilhança jurídica, mas na encenação de rivalidades femininas, alianças instáveis e na sátira de uma elite que consome o próprio colapso como entretenimento.

No centro desse tabuleiro está Allura Grant, interpretada por Kim Kardashian, uma protagonista moldada pela fusão entre persona pública e ficção. Advogada implacável e estrategista, Allura carrega marcas evidentes do próprio divórcio midiático de Kardashian e de seus estudos em Direito. O power dressing maximalista, construído com peças do closet real da atriz e com figurinos assinados por Paula Bradley, funciona como extensão narrativa da personagem, ocupando o tribunal como quem ocupa uma reality show. Ainda assim, a série não se esforça para aprofundar seus dilemas éticos, preferindo tratá-los como combustível dramático rápido.

O fogo cruzado de “All’s Fair” é a rivalidade entre Allura e Carrington Lane, vivida por Sarah Paulson. Carrington é a encarnação do ridículo consciente, uma vilã que abraça o exagero como método e rouba a cena justamente por não temer o caricato. O momento em que se disfarça de Allura, replicando maquiagem, figurino e postura para infiltrar-se simbolicamente na firma rival, sintetiza o projeto estético da série, identidade como performance, poder como farsa e humilhação como entretenimento. Paulson transforma a personagem em uma força caótica que sustenta o ritmo da temporada, mesmo quando o roteiro escorrega na repetição.

O elenco de apoio amplia esse jogo de contrastes. Glenn Close, como Dina Standish, surge como a matriarca ambígua da LVLUP Legal, uma mentora experiente cuja autoridade nunca é totalmente confiável, oferecendo conselhos tão afiados quanto manipuladores. Naomi Watts, como Liberty Ronson, traz um sarcasmo britânico elegante e uma recusa afetiva ao compromisso que dialoga com o cinismo estrutural do universo jurídico. Já Emerald Greene, (Niecy Nash-Betts), com seus chapéus de Carmen San Diego, apresenta um dos arcos mais promissores da temporada ao abordar abuso e sobrevivência, ainda que seu impacto seja diluído pela pressa narrativa e pelo tom caricato dominante. Teayana Taylor, atriz em ascensão, é completamente subaproveitada.

Visualmente, “All’s Fair” aposta em uma estética pop glamourosa que remete tanto a “Feud” quanto a “The Good Wife”, filtradas pelo gosto camp característico de Murphy. Ombreiras largas, cores codificadas por personagem e cenários que misturam luxo corporativo e teatralidade compõem um mundo onde tudo é performance. Essa estilização constante, embora sedutora, contribui para a sensação de superficialidade que marca a recepção crítica da série, frequentemente apontada como rasa, mas curiosamente eficaz em sua proposta de entretenimento autoconsciente.

Depois desse surto, Ryan Murphy merece uma intervenção. “All’s Fair” parece apenas querer alimentar seu ego e funciona menos como drama jurídico e mais como uma comédia cruel sobre poder, imagem e rivalidade feminina no capitalismo tardio. Ao tentar tocar em temas sérios como abuso, ética profissional e desigualdade de gênero, a série frequentemente os esvazia em favor das frases de efeito e do choque visual. Com uma season finale abrubta, e já renovada para a 2ª, a atração é um produto excessivo que assume o artifício e tenta encontrar forças não na profundidade, mas na coragem de ser escandalosamente superficial. Cliffhanger? Meu c*!

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

TOP 10 SÉRIES GAYS 2025, por @mont6147


A lista a seguir nasce do meu olhar para quem acompanha o blog. Notei um imparável @mont6147 no X, um seguidor assumidamente apaixonado pelas séries que entendem o sexo, o humor e o melodrama (e os finais felizes) como linguagens legítimas da experiência gay. Mais do que um ranking definitivo, esta seleção funciona como um retrato do momento atual das séries gays, em que o desejo não pede desculpas, o prazer não é tratado como culpa e o romance insiste mesmo nos ambientes mais hostis. Entre nudez, humor, melodrama e fantasia, o que surge é uma televisão queer que prefere o risco ao conforto e a entrega à contenção.


Recebi um convite mais que especial para escrever um "Top 10 séries gays do ano de 2025". Muitos que estão lendo isso devem estar se perguntando o porquê de eu ter sido escolhido. Para quem não me conhece, sou o montygomery (@mont6147) e me dedico a fazer GIFs de séries e filmes LGBTs. Então, sem mais delongas, aqui está a lista:

10 - HOUSE OF GUINNESS (Netflix) Quem não ama uma série de ÉPOCA, não é mesmo? E esse smash hit global não decepciona no quesito entretenimento. De casamentos arranjados a personagens gays gemendo alto enquanto recebem uma "boca amiga", essa série não decepcionou em mostrar que, não importa a época, personagens gays sempre estiveram aqui.

9 - BOOTS (Netflix) ATENÇÃO, CADETES: ESSA AQUI VAI PARA QUEM TEM FETICHE EM HOMENS FARDADOS! Essa série lançada pela Netflix mostrou as dificuldades de um jovem gay em sua passagem pelo exército. Particularmente, o que mais me chamou a atenção (fora os homens nus) foi o casal Sullivan e Wilkinson — desde o ato de se ajoelharem para beijar um ao outro até a declaração de amor fantasiosa. Torço firmemente por uma segunda temporada para ver esses dois amantes juntos e felizes.

8 - BRILLIANT MINDS (2ª Temporada - NBC) HÁ ALGUM AMANTE DE OLD MEN YAOI POR AÍ? Esse hit indie, sem intenção de charts, promete muito e cumpre seu papel ao nos apresentar Wolf, um homem gay na casa dos 40 que trabalha em um hospital e se apaixona por seu chefe. De beijos em elevadores a flertes com armas, essa série não só serve um slow burn delicioso, como também um enemies to lovers que faz você querer se internar nesse hospital para ver esses dois pombinhos apaixonados de perto.

7 - PRIME TARGET (Apple TV+) SÓ ODEIA ESSA QUEM NÃO ENTENDE MATEMÁTICA BÁSICA. Essa comédia romântica nos mostra Edward, um homem viciado em matemática que desvenda o segredo dos números primos. O que chama a atenção aqui é o fato de que a série foge do genérico "homem hétero salvador" e coloca um homem gay autista como protagonista. Edward, mesmo com sua timidez, consegue até um namorado: o magnífico Adam. Definitivamente uma das melhores séries do ano. Quem me conhece sabe: sou EDAM WARRIOR (Edward + Adam forever)!

6 - CASSANDRA (Netflix) DOMO ARIGATO, MR. ROBOTO. Minissérie com final aberto, esse lacre nos apresenta uma família que, após uma tragédia, se muda para uma casa tecnológica comandada por uma robô, a enigmática Cassandra (Alexa fracassada!). Na família há um adolescente chamado Finn, que se apaixona por seu colega de classe no primeiro dia de aula e tenta a todo custo fazer o relacionamento dar certo. Cassandra nos mostra que odeia todos, mas quando o assunto é gays, ela se torna uma verdadeira mãe.

5 - JUICE (2ª Temporada - BBC) POSSO INVADIR SUA CASA NO MEIO DA NOITE E FALAR QUE É UM HELL OF A VIEW? Essa comédia deliciosa da BBC nos apresenta o fantasioso Jamma, que tenta navegar a vida adulta com seu namorado Guy. Cenas envolvendo fantoches, montes de travesseiros, ratos falantes e um nude extremamente delicioso de Guy. O relacionamento dos dois sofreu altos e baixos, mas eles provaram que o amor (ou o hell of a view) pode, sim, vencer tudo.

4 - THE RIGHTEOUS GEMSTONES (HBO) NÓS, CRENTES! Essa sátira focada em uma família dona de várias igrejas nos mostra que performance e glamour nunca saíram do gosto popular. Homens nus andando de jatos, padres usando mochilas voadoras enquanto louvam ao Senhor e um casal gay magnífico e apaixonante. Essa série foi embora cedo demais e não sei o que farei sem o meu casal do ano: Kelvin e Keefe.

3 - OLYMPO (Netflix) ANABOLIZANTES? ADORO, USO SEMPRE. Que tal uma série sobre um centro esportivo onde atletas de alto rendimento são magicamente transformados em máquinas olímpicas prontas para qualquer coisa? No meio dessa "Drogasil", temos Roque e Sebas, jogadores de rugby que se apaixonam perdidamente e enfrentam tudo e todos para ficarem juntos. Definitivamente merecem o Top 3, não só pela química absurda, mas pelas cenas sexuais que fizeram os gays gozarem... digo, gritarem! (BOTA UMA FOTO AQUI, ADM! O POVO QUER VER!)

2 - BELLEFLEUR (Crave) RELACIONAMENTO ABERTO? NÃO. TRAIÇÃO? ÓBVIO QUE SIM! Bellefleur é uma comédia romântica que apresenta Max e Samir, dois empresários que, após jogarem tênis, compartilham um beijo acalorado. Sem muitas dúvidas, os dois começam um caso extraconjugal (puritanas, sem latir aqui!). Isso vai desde declarações de amor no meio da noite até homens chorando em festas dizendo que sentem falta do namorado. Para mim, eles são o casal do milênio e Bellefleur o hit do ano.

1 - HEATED RIVALRY (Crave) "WE DIDN'T EVEN KISS. I NEED YOU. I WANT YOU." Essa série estupenda nos apresenta Ilya e Shane, dois jogadores de hóquei de times rivais que, após um encontro "tenso" no banheiro, decidem jogar tudo para o ar e partir para o jogo. No episódio 3, a série também nos mostra Kip e Scott, um bartender e um jogador de hóquei que compartilham um pequeno romance. Butt plugs, meia de bananas e homens chorando implorando por amor: essa masterpiece mereceu o número #1 não só pelas cenas sexuais deliciosas, mas por mostrar que não dá para impedir o tesão dos gays. HIT!

MENÇÕES HONROSAS: XO Kitty, Adults, Overcompensating, Happiness e Etoile.


Nota do Editor: Abrir espaço para o olhar do seguidor é entender que a experiência queer na TV é múltipla. Enquanto minha curadoria muitas vezes busca o rigor técnico e o peso histórico, o @mont6147 nos lembra que o prazer, o "ship" e o impacto visual são motores essenciais do nosso consumo. Uma lista viva, pulsante e, acima de tudo, DIVA! E calma, o TOP 10 SÉRIES do CINEMATOGRAFIA QUEER sai em 29/12!

O Leve Bailar das Borboletas (Brasil, 2025)

“O Leve Bailar das Borboletas”, curta-metragem dirigido por Leandro Fasoli e roteirizado em parceria com Guilherme Aniceto, aposta no sensorial e no fantástico como vias legítimas para elaborar o luto amoroso. Primeiro trabalho de Fasoli, o filme já nasce atravessado por um reconhecimento expressivo no circuito de festivais, acumulando prêmios que atestam a força de sua proposta estética e emocional. A história segue Frederico (Adolfo Moura) após a morte do companheiro, Antonio, situando sua experiência em um espaço doméstico que deixa de ser abrigo para se tornar arquivo afetivo. A casa, saturada de vestígios do amor vivido, configura o território inicial de uma dor que não encontra tradução imediata em palavras, apenas em matéria, textura e corpo.

A descoberta da coleção de borboletas de Antonio, especialmente o espaço reservado para uma rara borboleta azul ainda ausente, funciona como disparador narrativo e simbólico. Esse vazio não remete apenas à perda concreta, mas a um desejo de continuidade que se desloca do outro para o próprio sujeito enlutado. A borboleta azul concentra a ideia de um afeto que se recusa a se cristalizar, permanecendo em trânsito. O curta compreende o luto queer não como ruptura definitiva, mas como processo contínuo de reinscrição do amor no mundo, mesmo na ausência.

É nesse ponto que o filme radicaliza sua aposta ao introduzir a metamorfose corporal de Frederico. O corpo que floresce não opera como ornamento visual, mas como tradução física de uma experiência emocional que transborda os limites do realismo. Fasoli investe em um fantástico corporal alegórico, onde dor e beleza coexistem sem hierarquia, transformando o luto em matéria viva. A floração não apaga a ausência, mas a incorpora, sugerindo que amar após a perda implica reorganizar a própria carne em diálogo permanente com a memória.

A dimensão queer do curta se afirma justamente na recusa a normalizar o luto ou enquadrá-lo em trajetórias previsíveis de superação. A relação entre Frederico e Antonio é apresentada como um grande amor. Ao eleger a fantasia e o sensorial como linguagem, o filme se alinha a uma escolha que é também política, ao legitimar a dor homossexual como experiência central, complexa e digna de elaboração poética.

“O Leve Bailar das Borboletas” constrói sua força a partir de estados afetivos e de uma relação íntima entre corpo e natureza. A direção de fotografia de Geraldo Sampaio é decisiva nesse percurso, criando imagens que privilegiam texturas, luz e proximidade, reforçando a dimensão tátil do filme. A canção “Viento de Otoño”, composta e interpretada por Adolfo Moura, amplia essa camada emocional, dialogando diretamente com o roteiro e funcionando como extensão do estado interno do protagonista.

O reconhecimento acumulado em festivais, incluindo prêmios de júri e de voto popular, não surge como validação externa casual, mas como resposta a um filme que articula com precisão forma, afeto e imaginação. A borboleta azul e a metamorfose corporal não oferecem fechamento, e sim continuidade. “O leve bailar das borboletas” surge assim, como uma obra socialmente relevante ao afirmar que o luto pode gerar novas formas de existência, onde a memória não paralisa, mas impulsiona o corpo a seguir em constante transformação.