“On sera heureux”, dirigido por Léa Pool, apresenta um drama de fronteiras em que o amor queer deixa de ser apenas afeto para se tornar estratégia de sobrevivência. A narrativa acompanha Saad (Mehdi Meskar), imigrante marroquino em situação ilegal, e Reza (Aron Archer), seu companheiro iraniano ameaçado de deportação e morte certa por sua orientação sexual. Desde os primeiros minutos, o filme instala um estado de urgência que não depende do suspense clássico, mas da consciência brutal de que, para certos corpos, o mundo ainda funciona sob a lógica da pena capital.
Pool conduz a história com uma delicadeza que jamais suaviza a violência estrutural em jogo. O percurso migratório entre Irã, Turquia, França, Espanha e Canadá é menos uma travessia geográfica do que um processo de desgaste emocional contínuo. Cada fronteira atravessada reforça a condição de vidas suspensas, reduzidas a documentos, entrevistas e decisões administrativas que ignoram o impacto humano de uma assinatura. A burocracia se impõe como força dramática silenciosa e opressiva, capaz de destruir afetos com a mesma eficácia de um regime autoritário.
No centro do filme está Saad, personagem que recusa a posição confortável da vítima idealizada. Sua decisão de seduzir Laurent (Alexandre Landry), funcionário do ministério de imigração, não é apresentada como traição ou vilania, mas como gesto ambíguo de desespero. “On sera heureux” se interessa menos em julgar essa escolha do que em expor o sistema que a torna necessária. O desejo, aqui, é atravessado por classe, poder e sobrevivência, revelando como relações íntimas podem se transformar em campos de negociação política.
Reza, por sua vez, encarna o custo mais extremo da homofobia de Estado. A ameaça de deportação ao Irã não é abstrata, mas concreta, corporal, mortal. O filme evita a violência gráfica e aposta em algo mais perturbador: a antecipação do fim. Essa opção acentua o contraste entre o discurso humanitário do Ocidente e a frieza de suas práticas migratórias, que muitas vezes replicam, por omissão, a violência que dizem combater.
A construção visual dialoga diretamente com essa tensão permanente. A fotografia de Yves Bélanger alterna os espaços abertos e luminosos de Montreal com interiores sufocantes, corredores institucionais e quartos onde o amor precisa ser negociado em silêncio. Pool filma os corpos com atenção aos gestos mínimos, aos olhares que acumulam culpa, desejo e medo ao mesmo tempo. O erotismo surge sem idealização, sempre contaminado pela urgência política, lembrando que, para esses personagens, amar também é colocar tudo em risco.
O que permanece após os créditos é uma esperança frágil, construída apesar das perdas e das concessões morais. “On sera heureux” transforma uma história de exílio queer em reflexão profunda sobre quem tem o direito de amar livremente e quem precisa provar, negociar ou sacrificar partes de si para continuar vivo. Léa Pool entrega um filme que entende a felicidade não como promessa abstrata, mas como ato de resistência cotidiana diante de sistemas que insistem em negar humanidade.
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