sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Queer as Punk (Malásia/Indonésia, 2025)


“Queer as Punk” acompanha seis anos da trajetória da banda malaia Shh…Diam! como quem registra não apenas uma cena musical, mas um modo de existir sob permanente estado de alerta. Dirigido por Yihwen Chen, o documentário parte do punk não como estilo, mas como prática cotidiana: tocar, amar, transicionar, circular e permanecer em um país onde identidades LGBTQIA+ são criminalizadas. Desde o início, o filme deixa claro que cada acorde é também um gesto de confronto.

No centro da narrativa está Faris Saad, vocalista trans e força gravitacional do grupo, cuja presença articula política, humor e obstinação. Ao seu redor, Yon e Yoyo ampliam o retrato de uma banda que funciona como célula afetiva, abrigo e linha de frente. O filme acompanha processos íntimos, hormonização, gravidez, migração,  sem separar o pessoal do coletivo, como se cada mudança corporal ou decisão de vida fosse também resposta direta a um sistema que insiste em negar direitos básicos.

Chen adota um olhar observacional direto, com câmera na mão, imagem áspera e ritmo irregular, recusando qualquer ideia de neutralidade estética. Os shows underground, os protestos, as conversas domésticas e os silêncios carregados convivem no mesmo plano. Essa escolha aproxima o espectador da instabilidade que atravessa a vida dos personagens: o risco de uma batida policial, o medo constante, mas também a excitação de subir ao palco e gritar letras como “Lonely Lesbian” ou “I Woke Up Gay” em um país que tenta apagar essas existências.

O punk, aqui, não é nostalgia nem fetiche visual. Ele surge como linguagem direta contra a repressão religiosa e estatal, um código de reconhecimento entre corpos dissidentes que sabem que o espaço público lhes é negado. Ao transformar performances em atos políticos, “Queer as Punk” revela como a música pode ser ferramenta de sobrevivência, ironia e resistência, sem nunca romantizar o perigo que ronda cada apresentação.

Um dos méritos mais contundentes do filme está em recusar o tom heroico. As conquistas são sempre parciais, os recuos frequentes, e a alegria aparece como algo construído à força, em meio ao cansaço e à frustração. Ainda assim, há uma pulsão vital que atravessa todo o documentário, sustentada pelos laços de afeto entre os integrantes da banda e pela pequena, mas obstinada, comunidade queer underground que se forma ao redor deles.

“Queer as Punk” transcende o rótulo de documentário musical ao se afirmar como crônica política de um presente perigoso. Yihwen Chen constrói um filme que entende o punk como recusa ao silêncio e o cinema como espaço de permanência. Ao final, o que fica não é apenas o registro de uma banda, mas a memória de corpos que insistem em existir, tocar e amar mesmo quando tudo ao redor trabalha para expulsá-los de cena.


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