“Capitanes”, curta de Kevin Castellano e Edu Hirschfeld, condensa em 15 minutos uma tensão que o futebol profissional evita há décadas. Ambientado durante a semifinal de uma copa, o filme parte de uma briga explosiva entre dois capitães para revelar um segredo mantido a portas fechadas: o pacto de silêncio em torno de jogadores homossexuais na primeira divisão. O curta transforma o vestiário, espaço simbólico máximo da virilidade esportiva, em campo de batalha moral e afetivo.
Héctor Juezas, como Óscar Lorente, e Jorge Silvestre, como Sergio Moreno, sustentam o filme com uma química física e emocional que convence desde o primeiro confronto. Amigos de longa data dos diretores e com vivência no futebol, ambos incorporam a energia bruta exigida por seus papéis, mas deixam transparecer fissuras sob a superfície competitiva. A briga inicial não é apenas disputa de liderança, é acerto de contas com o medo e o desejo. O que está em jogo não é somente a vaga na final, mas a possibilidade de existir fora da máscara heteronormativa que o esporte impõe.
Castellano e Hirschfeld, que já haviam trabalhado juntos em “Cuando Haces Pop” e no documentário “El arte de los analfabetos”, demonstram aqui domínio de ritmo e atmosfera. Fãs declarados do futebol valenciano, eles buscaram autenticidade obsessiva nos detalhes, dos dorsais ao desenho do vestiário, construído após recusas de clubes reais em ceder espaço. O resultado é um ambiente claustrofóbico e palpável, onde o suor, o eco das chuteiras e o peso do silêncio criam uma sensação quase documental, ainda que o filme se assuma como fábula surrealista e folclórica.
Essa dimensão alegórica se intensifica na sequência mais comentada do curta: a orgia no vestiário. Ousada, explícita e inesperada, a cena funciona menos como provocação gratuita e mais como gesto político. Ao transformar o espaço tradicionalmente associado à homofobia e ao policiamento da masculinidade em território de desejo compartilhado, o filme realiza uma subversão perfeita do imaginário esportivo. A orgia não é fetiche, é ruptura simbólica. Ali, o corpo deixa de ser instrumento de performance atlética e se torna afirmação de liberdade, desmontando a lógica do armário coletivo que sustenta o silêncio no futebol.
A trilha que evoca o pasodoble “Gallito” e a presença de elementos populares espanhóis ampliam o alcance metafórico da narrativa. O filme dialoga com um país onde futebol, orgulho nacional e tradição se entrelaçam, tensionando o contraste entre modernização social e resistência conservadora nos estádios. A estreia em Cinema Jove, coincidindo com Eurocopa e Orgulho, criou um contexto quase perfeito de recepção, um verdadeiro hat trick de visibilidade cultural e esportiva.
“Capitanes” não pretende oferecer soluções fáceis nem discursos didáticos. Sua força está na imagem final que ecoa como um gol por la escuadra, inesperado e impossível de ignorar. Ao escancarar o desejo onde só se admitia virilidade performática, o curta confronta o espectador com a pergunta que o futebol insiste em adiar: quantos talentos continuam escondidos por medo? Em vez de pedir inclusão tímida, o filme responde com excesso, erotismo e coragem, lembrando que às vezes é preciso incendiar o vestiário para que o jogo mude.
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