terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Météors (França, 2025)

 

“Météors”, segundo longa de Hubert Charuel, firma seu olhar agudo do interior francês contemporâneo. Coescrito com Claude Le Pape, parceiro desde “Petit Paysan”, o filme estreou na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes 2025 e reafirma o interesse de Charuel por personagens esmagados por estruturas econômicas e afetivas que mal compreendem. Ambientado novamente em Saint-Dizier, sua cidade natal, o longa mergulha na chamada “diagonale du vide”, região rural marcada por despovoamento e falta de perspectivas, onde sonhos parecem sempre pequenos demais para sobreviver.

A trama acompanha três amigos de infância: Mika (Paul Kircher), Dan (Idir Azougli) e Tony (Salif Cissé). Tony trabalha num aterro de resíduos nucleares e encarna a versão possível de “sucesso” local; Mika e Dan vivem entre festas, álcool, maconha e fantasias improváveis, como abrir um canil na ilha de La Réunion. Depois de um golpe desastrado, a justiça impõe um ultimato: seis meses para se desintoxicar e arrumar emprego ou prisão. O retorno forçado ao canteiro nuclear cria o eixo dramático do filme, que combina crônica social, comédia amarga e uma tensão quase de thriller.

Charuel filma esse universo com realismo melancólico, mas não miserável. Há humor absurdo nas trapalhadas da dupla, mas ele nunca neutraliza o peso do fracasso estrutural. A precariedade do trabalho, o vício e a sensação de estagnação são retratados como sintomas de uma geração que herdou pouco além de ruínas industriais.

A dimensão queer de “Météors” não é explícita, mas é decisiva para sua leitura contemporânea. Não há personagens assumidamente LGBT, nem cenas de romance declarado. No entanto, a relação entre Mika e Dan é atravessada por uma devoção intensa, quase codependente, que “beira o romance sem nunca mergulhar nele”.. A ausência de namoradas, o silêncio sobre mulheres e a intimidade física entre os dois criam um subtexto poderoso. Paul Kircher, que já interpretou um jovem gay em “Le Lycéen”, de Christophe Honoré,  traz a Mika uma vulnerabilidade que alimenta essa ambiguidade. O desejo aqui é feito de olhares e proximidade corporal, reprimido por um ambiente rural onde masculinidade é sinônimo de dureza.

Essa tensão entre aspereza e ternura é também estética. Charuel explora a textura do campo, lama, metal, poeira,  em contraste com a pele e o toque, como se o corpo fosse o último território possível de sensibilidade. A paisagem não é pano de fundo, mas força que molda e limita identidades. Ser diferente ali é como os “meteoros” do título: algo que brilha intensamente, mas parece vir de outro mundo, fadado a se extinguir ao tocar o solo conservador.

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