sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Paloma - A Série (Brasil, 2026)

 “Paloma – A Série”, dirigida por Maria Clara Escobar e Marcelo Gomes, nasce como continuação expandida do longa “Paloma” (2022), mas rapidamente se afirma como obra com identidade própria. Exibida no Canal Brasil a partir de 29 de janeiro, Dia da Visibilidade Trans, e disponível no Globoplay, a minissérie em quatro episódios amplia o universo da personagem. Onde o filme era o gesto inaugural de resistência amorosa e religiosa, a série é o capítulo político e coletivo que responde à pergunta que ficou no ar: o que acontece depois do sonho?

Kika Sena retorna como Paloma com a mesma força que lhe rendeu o Troféu Redentor de Melhor Atriz no Festival do Rio em 2022, tornando-se a primeira atriz trans a vencer na categoria. Aqui, sua interpretação amadurece junto com a personagem. Paloma já não é apenas a agricultora que sonha casar na igreja; é mãe de Jenifer (Maria Alice Santos), adolescente de 13 anos, e mulher pressionada por um sistema judiciário que ameaça retirar-lhe a guarda.

A série ganha densidade ao introduzir a transfobia com o reencontro com o homem acusado de assassinar Rickelly (Wescla Vasconcelos), melhor amiga de Paloma. Esse fio narrativo injeta suspense e desloca a trama para o terreno da investigação e da memória traumática. Ao mesmo tempo, o roteiro constrói com cuidado o embate judicial contra Miltinho (Erivaldo Oliveira) e a disputa pela guarda da filha, revelando como o Estado frequentemente opera sob preconceitos silenciosos. O terceiro episódio, ao lançar Paloma como candidata a vereadora, transforma a dor íntima em projeto coletivo. A política surge não como ambição pessoal, mas como extensão natural de uma liderança forjada na adversidade.

Um dos méritos centrais da série está na representatividade queer. Diferentemente de produções que isolam a personagem trans como exceção, “Paloma – A Série” aposta na normalização. Kika Sena e todo o elenco de mulheres trans, incluindo Patricia Dawson e Núbia Kalumbi, que a apoiam, e formam uma família, incluindo o fantasma de Rickelly. Com grandes momentos de realismo fantástico, para aliviar as aspereza do tema, a série desloca o eixo da representatividade do “evento” para a existência contínua, mostrando maternidade, amizade, fé e ambição política como dimensões legítimas da experiência trans. É a nossa POSE, do agreste.

O formato episódico permite desenvolver personagens secundárias, explorar conflitos internos do grupo e aprofundar as contradições de Paloma como mãe e líder. Filmada entre Recife, Bezerros e Caruaru, a produção valoriza o agreste pernambucano como espaço de vida e tensão, fugindo da centralização de que narrativas trans precisam estar restritas aos grandes centros urbanos. A direção compartilhada traz equilíbrio entre intimidade e comentário social, sem abandonar a ternura que marcou o filme original.

“Paloma – A Série” reafirma a personagem como símbolo de resiliência, mas evita santificá-la. Ela erra, hesita, coloca a relação com a filha em risco ao perseguir justiça e espaço político. Essa complexidade é o que dá à obra sua força. Mais madura e mais ambiciosa que o longa, a série transforma a trajetória individual em possibilidade de transformação coletiva. Paloma já não luta apenas para existir; ela reivindica poder, voz e futuro. E ao fazer isso no interior do Brasil, desloca o centro da narrativa e amplia o horizonte da ficção televisiva nacional.

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