sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

A Friend of Dorothy (Reino Unido, 2025)

Indicado ao Oscar de Melhor Curta-Metragem em Live Action, “A Friend of Dorothy” chega à temporada de prêmios como um daqueles filmes pequenos em escala, mas imensos em afeto e precisão emocional. Escrito e dirigido por Lee Knight, o curta britânico aposta numa comédia dramática delicada para falar de solidão, herança cultural queer e encontros improváveis que mudam trajetórias. Sem alarde ou sentimentalismo fácil, o filme constrói sua força na intimidade, no gesto cotidiano e na escuta atenta entre gerações.

A trama se organiza a partir de um acidente banal. Dorothy (Miriam Margolyes), uma viúva idosa de saúde frágil e humor afiado, vive isolada até que uma bola de futebol invade seu jardim, chutada por JJ (Alistair Nwachukwu), um adolescente de 17 anos. O que poderia ser apenas um encontro fugaz se transforma numa amizade genuína, marcada por conversas sobre teatro, frustrações silenciosas e o peso das expectativas sociais. Knight observa esse vínculo com paciência, permitindo que a relação cresça sem pressa, sustentada mais por olhares e silêncios do que por grandes viradas dramáticas.

O eixo queer do filme surge de maneira orgânica, especialmente quando o teatro se torna ferramenta de libertação. Dorothy compartilha com JJ sua coleção de mais de cinquenta anos de peças, apresentando textos como “Bent”, de Martin Sherman, e “The Inheritance”, de Matthew López. Essas leituras revelam o medo do garoto de ser visto como “afeminado” ou inadequado em ambientes masculinizados como o futebol. Ao entrar em contato com uma história cultural gay que lhe era desconhecida, JJ começa a transformar vergonha em pertencimento, compreendendo que seu desejo e sua sensibilidade não são desvios, mas continuidades de uma memória coletiva.

O título do curta carrega uma camada simbólica fundamental. “A Friend of Dorothy” faz referência direta ao código histórico usado para identificar homens gays, ligado à figura de Judy Garland e ao imaginário de “O Mágico de Oz”. Dorothy explica esse significado a JJ, abrindo uma ponte entre gerações queer separadas pelo tempo, pela linguagem e pela experiência social. Inspirada em uma mulher real que protegeu homens gays durante a guerra, a personagem encarna um tipo de acolhimento silencioso, aquele que não exige explicações nem rótulos, apenas presença.

O filme também trata a velhice com uma sensibilidade rara. Dorothy encontra em JJ companhia contra o isolamento que marca sua rotina, enquanto celebra um mundo que mudou, ainda que tarde demais para ela viver certas liberdades. Há uma dimensão política sutil nessa troca. Mulheres idosas e jovens queer aparecem como sujeitos frequentemente descartados, mas que aqui se reconhecem como necessários um ao outro. A presença de Stephen Fry e Oscar Lloyd em papéis de apoio reforça esse universo de afetos sem desviar o foco do núcleo central.

“A Friend of Dorothy” emociona justamente por saber onde parar. Lee Knight evita discursos didáticos e finais grandiosos, preferindo apostar na delicadeza das pequenas transformações. O curta fala de mentoria, herança queer e conexões humanas como atos de sobrevivência em um mundo cada vez mais desconectado. Em poucos minutos, ele lembra que crescer, envelhecer e se assumir raramente são processos solitários, e que às vezes tudo começa com uma bola chutada para o jardim errado.


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