terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Alexina B. Vides en composició (Espanha, 2025)


 “Alexina B. Vides en composició”, dirigido por Alexis Borràs, é um documentário que acompanha de perto o processo de criação da ópera homônima composta por Raquel García-Tomás, vencedora do Prêmio Nacional de Música em 2020. A obra parte da figura histórica de Alexina B., pessoa intersexo do século XIX cujas memórias atravessam a história da medicina, da sexualidade e da violência institucional. O filme não se interessa apenas pelo resultado final no palco, mas pelo percurso íntimo, intelectual e político de transformar uma vida silenciada em linguagem musical contemporânea.

O grande mérito do documentário está em compreender a criação artística como campo de disputa simbólica. Ao acompanhar ensaios, discussões conceituais e decisões dramatúrgicas, Borràs revela como cada escolha musical carrega um posicionamento ético. A ópera não surge como exercício estético isolado, mas como resposta a um passado que patologiza corpos.  A música, aqui, funciona como ferramenta de escuta, abrindo espaço para uma narrativa historicamente sequestrada por discursos médicos e morais.

Raquel García-Tomás aparece como figura central, mas nunca como gênio isolado. O filme valoriza o trabalho coletivo, entre libretistas, intérpretes, encenadores e consultores, e evidencia a responsabilidade envolvida em representar uma experiência intersexo sem reduzi-la ao exotismo ou à tragédia. O processo criativo é atravessado por dúvidas, ajustes e tensões, revelando o cuidado em não transformar Alexina em símbolo abstrato, mas em presença viva, complexa e contraditória.

Visualmente, “Alexina B. Vides en composició” adota uma abordagem sóbria e observacional. A câmera prefere os bastidores aos grandes espetáculos, os gestos mínimos aos momentos de consagração. Partituras rabiscadas, corpos em ensaio e conversas interrompidas constroem uma intimidade rara com o fazer operístico. Essa escolha reforça a ideia de que a ópera não nasce pronta: ela é fruto de negociação constante entre forma, política e sensibilidade.

É impossível falar de Alexina B. sem lembrar que sua história já havia sido levada ao cinema em “The Mystery of Alexina” (1985), de René Féret, uma biopic que marcou época ao abordar, de forma pioneira, a experiência intersexo. O documentário de Borràs dialoga com esse legado, mas desloca o foco: em vez de dramatizar diretamente a vida de Alexina, observa como sua memória reverbera no presente, atravessando corpos, vozes e linguagens artísticas contemporâneas.

“Alexina B. Vides en composició” é mais do que um registro de processo criativo. É um gesto político de reparação simbólica, que entende a arte como espaço de reescrita histórica. Ao transformar a vida de Alexina em música, o filme reafirma que lembrar não é um ato neutro, é uma forma de resistência. Entre som, silêncio e escuta, o documentário propõe que a ópera, longe de ser um território elitista e fechado, pode se tornar espaço radical de visibilidade, memória e justiça.

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