sábado, 17 de janeiro de 2026

Darklands: Are You Ready to Go Deep? (Bélgica, 2025)

 “Darklands: Are You Ready to Go Deep?” não é um documentário sobre choque, é sobre estrutura. Roland Javornik entra no maior festival indoor de fetiche gay da Europa sem a ansiedade de explicar tudo para quem está de fora. O Darklands, realizado anualmente no Waagnatie, em Antuérpia, surge menos como evento espetacular e mais como organismo vivo, com regras próprias, rotinas, afetos e uma lógica comunitária muito bem definida. O filme entende que fetiche não é exceção: é cultura.

A escolha por uma abordagem observacional e discreta coloca a câmera como presença constante, mas nunca invasiva. Javornik prefere acompanhar os bastidores, os deslocamentos, as conversas práticas e os silêncios, em vez de transformar corpos em vitrine. O foco nos organizadores Jeroen Van Lievenoogen e sua irmã Nathalie cria uma camada inesperada: o festival não é só desejo, é trabalho, negociação, cuidado e responsabilidade. O fetiche aparece como construção coletiva, não como performance isolada.


A dinâmica familiar entre os dois é um dos pontos mais fortes do filme. Nathalie, uma mulher hétero, ocupa um lugar de escuta e gestão que desmonta ideias fáceis sobre quem “pertence” a esse tipo de espaço. O documentário ganha densidade justamente aí, ao mostrar como o Darklands também é atravessado por laços afetivos, confiança e colaboração. A sexualidade não exclui a logística, a planilha, o cansaço, ela convive com tudo isso.


Visualmente, o filme aposta no formato 1.33:1, quase quadrado, que reforça a sensação de imersão e confinamento nos espaços industriais do Waagnatie. Couro, borracha, metal e concreto formam uma paisagem tátil, pesada, mas nunca fetichizada pela câmera. A iluminação baixa e os enquadramentos mais abertos evitam o apelo explícito e deslocam o interesse para gestos, circulação e presença. É um filme mais interessado em atmosferas do que em atos.


A divisão entre o festival diurno e as festas noturnas aparece de forma orgânica, sem didatismo. Workshops, mercado fetish, performances acessíveis e playrooms convivem com a ideia de um espaço seguro, especialmente à noite, pensado para homens,  incluindo homens trans, viverem sua sexualidade sem mediação externa. O documentário entende que essas regras não são exclusão gratuita, mas parte de uma ética construída ao longo do tempo.


Não surpreende que “Darklands: Are You Ready to Go Deep?” tenha encontrado recepção tão positiva em nichos queer e festivais. O filme não tenta legitimar o fetiche para o olhar normativo, nem suavizá-lo para consumo amplo. Ele observa, acompanha e confia. Ao fazer isso, acaba oferecendo uma das representações mais honestas da cultura fetish contemporânea: menos sobre transgressão performática e mais sobre pertencimento, continuidade e desejo vivido como prática coletiva.



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