sábado, 24 de janeiro de 2026

O Cativo (El Cautivo, Espanha/Itália, 2025)

 
“O Cativo”, novo filme de Alejandro Amenábar, revisita o período de cativeiro de Miguel de Cervantes em Argel, em 1575, para propor uma releitura ousada, deliberadamente queer, da formação do autor de “Dom Quixote”. Longe do academicismo reverente, o cineasta transforma o trauma histórico em matéria dramática pulsante, combinando aventura, melodrama e erotismo contido. Interpretado por Julio Peña, Cervantes surge como um jovem soldado capturado por corsários árabes, mantido vivo à espera de um resgate improvável, mas já movido por uma imaginação narrativa que o ajuda a resistir física e espiritualmente ao encarceramento.

Amenábar estrutura o filme a partir da ideia de que contar histórias é um ato de sobrevivência. No cativeiro, Cervantes usa a palavra como moeda simbólica, alimentando a esperança dos companheiros e, sobretudo, despertando o interesse de Hasán Bajá, o governador de Argel vivido por Alessandro Borghi. A relação entre prisioneiro e captor, marcada por assimetria de poder, se torna o eixo emocional do filme, oscilando entre proteção, desejo e ameaça. A encenação sublinha essa tensão constante, fazendo da espera pelo resgate um pano de fundo para um vínculo que nunca é seguro, nem plenamente consensual.

O aspecto mais provocador de “O Cativo” está na forma como assume a hipótese da homossexualidade ou bissexualidade de Cervantes como motor dramático. O Bajá é assumidamente 'sodomita' e Amenábar, que é abertamente gay, utiliza pistas históricas, como registros de expulsão de Madri por “atos malignos”, para sugerir uma vida sexual dissidente, reinterpretando o passado com liberdade assumida. Argel é retratada como um espaço paradoxalmente mais permissivo que a Espanha cristã da época, com cenas explícitas de homoerotismo, beijos entre homens, cross-dressing e encontros furtivos que inserem o desejo queer no centro da narrativa, e não à margem.

A relação entre Cervantes e Hasán Bajá ganha contornos de romance trágico, carregado de melodrama gay, no qual a atração intelectual e sexual se confundem com estratégia de sobrevivência. Borghi constrói um Bajá complexo, dividido entre a brutalidade do cargo e uma curiosidade genuína pelo prisioneiro que narra mundos impossíveis em um cenário de vapor e momentos de homoerotismo leve. Essa dinâmica, embora envolvente romantiza uma relação atravessada por dominação colonial e sexual, ainda que consciente dessas ambiguidades.

Amenábar investe em uma Argel sensual, solar e carnal, filmada como um cruzamento cultural efervescente onde religiões, línguas e corpos se misturam. A mise-en-scène aposta em corpos masculinos expostos, rituais cotidianos e espaços de intimidade coletiva, como a barbería, para normalizar o desejo entre homens dentro daquele contexto histórico ficcionalizado. Ao mesmo tempo, a presença de um personagem cross-dresser, revela o conflito interno e a violência moral da repressão religiosa.

“O Cativo” funciona tanto como drama histórico quanto como comentário social contemporâneo. Ao sugerir que a experiência queer de Cervantes foi parte constitutiva de sua visão de mundo e de sua arte, Amenábar transforma o filme em uma reflexão direta sobre apagamentos históricos e sobre a persistente dificuldade de aceitar a diversidade sexual, mas dependendo da classe social, no passado e no presente. 

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