“Went Up the Hill”, de Samuel Van Grinsven, é um horror queer assumidamente íntimo, que desloca o medo do susto para o território do trauma herdado. Ambientado nas paisagens verdes e opressivas da Nova Zelândia, o filme segue Jack (Dacre Montgomery), um jovem gay que retorna ao local ligado à morte da mãe e se vê obrigado a conviver com Jill (Vicky Krieps), a viúva dela. Van Grinsven sinaliza que não está interessado em repetir convenções do gênero, mas em distorcê-las, colocando personagens queer no centro de uma narrativa de fantasmas que fala menos de casas mal-assombradas e mais de corpos ocupados por histórias que não conseguem morrer.
A dinâmica inicial entre Jack e Jill é construída a partir de uma identificação imediata e inesperada. Ambos são queer, ambos carregam marcas profundas deixadas por Elizabeth, a mãe falecida de Jack, e essa partilha de identidade cria um laço de “família encontrada” que dispensa qualquer expectativa heteronormativa de romance. Jill funciona como ponte para uma descoberta tardia de Jack sobre a sexualidade da própria mãe, e essa revelação produz uma intimidade estranha, feita de reconhecimento e desconforto. O filme encontra aí um de seus gestos mais interessantes: retirar do espectador a segurança dos arquétipos e instaurar uma relação afetiva ambígua, sustentada mais pela dor comum do que por desejo.
É a partir da possessão espiritual de Elizabeth que “Went Up the Hill” assume seu aspecto mais perturbador. O espírito da mãe passa a habitar os corpos de Jack e Jill como uma extensão de seu controle em vida, usando o afeto como instrumento de manipulação. Inicialmente apresentada como uma presença quase protetora, a possessão revela-se gradualmente egoísta, invasiva e abusiva, transformando o sobrenatural em metáfora direta de dependência emocional e maternidade tóxica. Van Grinsven não suaviza esse processo: a câmera insiste nos gestos cotidianos que se tornam ameaçadores quando atravessados por uma vontade que não pertence mais aos vivos.
A sexualidade queer torna-se eixo central do horror. As cenas em que a possessão leva a atos de agressão sexual e intimidade forçada, como quando Elizabeth ocupa o corpo de Jack para se impor a Jill, introduzem um desconforto profundo ao tocar em temas como consentimento, incesto simbólico e violência intra-comunitária. O filme recusa qualquer idealização da experiência queer e confronta o espectador com uma realidade mais dura, onde vítimas e abusadora compartilham a mesma identidade, complexificando noções fáceis de pureza ou redenção.
O longa aposta em um ritmo deliberadamente lento, que privilegia o acúmulo emocional em vez do choque gratuito. As paisagens da Nova Zelândia funcionam como extensões do estado psicológico dos personagens, amplificando o isolamento e o sentimento gótico de aprisionamento. É um horror que opera pela repetição, pela invasão gradual e pela sensação de não conseguir escapar de um passado que insiste em se reencarnar.
A aliança queer que se forma se consolida como resistência ao fantasma manipulador, deslocando o foco do medo para a possibilidade de cura. “Went Up the Hill” subverte os tropos tradicionais do terror ao transformar a possessão em linguagem para falar de abuso, luto e autonomia, oferecendo uma abordagem ousada e incômoda do horror queer contemporâneo, imperfeita em sua forma, mas potente em suas implicações.
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