terça-feira, 27 de janeiro de 2026

A Cronologia da Água (The Cronology of Water, EUA/França/Letônia, 2025)

“A Cronologia da Água”, estreia de Kristen Stewart na direção de longas, adapta as memórias de Lidia Yuknavitch a partir de uma lógica sensorial e fragmentada. O filme acompanha Lidia (Imogen Poots)  desde a juventude como nadadora competitiva, aprisionada em um ambiente familiar violento, até a vida adulta marcada por vícios, perdas e a lenta construção de uma identidade como escritora. Stewart recusa a linearidade biográfica e opta por um fluxo de lembranças, onde crises presentes colidem com imagens da infância em Super-8, sempre atravessadas pela narração íntima da própria Lidia, que funciona como eixo emocional e consciência em permanente reconstrução.

Imogen Poots sustenta o filme com uma atuação profundamente corporal. Como Lidia, ela alterna entre a disciplina física da natação e o colapso emocional fora da água, fazendo do corpo um campo de batalha constante. As sequências aquáticas evidenciam força, precisão e desejo de fuga, enquanto em terra firme predominam closes que capturam tremores, respirações irregulares e olhares assombrados. Essa dualidade define a personagem e dá unidade a uma narrativa que se move mais por sensações do que por eventos encadeados.

A estrutura narrativa reflete diretamente a experiência do trauma. Stewart constrói o filme como um ensaio em fragmentos, com cortes abruptos, elipses e montagens impressionistas que retornam obsessivamente a momentos-chave. A rejeição do pai, vivido por Michael Epp, a violência doméstica nunca explicitada, o trauma do natimorto e as oficinas de escrita surgem como nós emocionais que se repetem sob diferentes ângulos.

Os personagens que orbitam ajudam a mapear tanto seus abismos quanto suas possibilidades de sobrevivência. Thora Birch interpreta a irmã que oferece afeto e cumplicidade em um ambiente hostil, enquanto os parceiros amorosos masculinos revelam relações marcadas por desequilíbrio, agressividade e incomunicabilidade. Em contraste, Jim Belushi surge como Ken Kesey, mentor que apresenta a Lidia o universo da escrita, deslocando o eixo da narrativa da autodestruição para a criação. 

O aspecto queer do filme se manifesta de forma pontual, porém decisiva. A sexualidade de Lidia é apresentada, assim como a água do título, como fluida e em constante negociação, atravessada por experiências traumáticas com homens, mas também por um breve e significativo momento de experimentação lésbica ao lado de duas amigas. Essa cena, marcada por leveza e cumplicidade, contrasta radicalmente com o restante das relações afetivas da protagonista e funciona como um vislumbre de desejo não violento e de conexão possível. 

A água atravessa o filme como metáfora central, ora como abrigo, ora como ameaça, enquanto a escrita surge como mais um elemento líquido, capaz de reorganizar fragmentos e dar forma ao indizível. Ao evitar explicações fáceis e cenas de violência explícita, Stewart constrói um filme que aposta na sugestão, na fisicalidade e na escuta do trauma. O resultado é um retrato íntimo de sobrevivência, desejo e criação, onde a identidade queer não é tema isolado, mas parte indissociável de um corpo ferido, mas em constante movimento.

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