“Álbum de Família”, documentário argentino dirigido e coeditado por Laura Casabé, reconstrói a trajetória de Claudia Pía Baudracco não como biografia linear, mas como gesto político de memória. Pioneira na luta pelos direitos das pessoas trans na Argentina e figura central na fundação da Associação de Travestis, Transexuais e Transgêneros da Argentina, Baudracco emerge no filme como presença coletiva, alguém cuja vida só pode ser compreendida em relação a uma comunidade historicamente empurrada para a clandestinidade, o exílio e a morte. O filme parte do reconhecimento de que, para a população travesti-trans, a ditadura não terminou em 1983, prolongando-se por décadas em violência policial, apagamento institucional e exclusão social.
A espinha dorsal do documentário é o vasto arquivo pessoal de Baudracco, hoje preservado na Biblioteca Claudia Pía Baudracco, composto por milhares de fotografias, cartas, postais, bilhetes de viagem e recortes de jornais. Casabé transforma esse acervo em um verdadeiro álbum de família simbólico, capaz de devolver rosto, corpo e cotidiano a uma história sistematicamente negada. As imagens não funcionam como ilustração, mas como prova de existência, afirmando que essas vidas sempre estiveram ali, apesar da ausência quase total de registros oficiais. A pesquisa conduzida por Paula Bistagnino, com colaboração de Fernando Krapp, organiza esse material como uma cartografia afetiva da resistência trans argentina.
Ao articular arquivos com entrevistas de sobreviventes e ativistas, como María Belén Correa, o filme evidencia que a luta de Baudracco nunca foi solitária. “Álbum de Família” insiste na ideia de comunidade como estratégia de sobrevivência, destacando as famílias escolhidas, a ajuda mútua e a irmandade como respostas diretas à violência do Estado e da sociedade. Há um contraste contundente entre as pautas da militância gay e lésbica de classe média nos anos 1990 e as reivindicações travestis, centradas no direito básico de existir, circular e não ser assassinada. Essa diferença de prioridades expõe hierarquias internas no próprio campo LGBTQIA+.
O documentário evita a solenidade. Em meio ao luto, há espaço para a alegria queer, para o humor, para o prazer de se ver e de se reconhecer nas imagens recuperadas. Casabé filma a memória não apenas como arquivo de dor, mas como território de celebração e continuidade. A montagem sublinha a dimensão coletiva da resistência, reforçando a ideia de que a história travesti-trans não é feita de exceções heroicas, mas de um coletivo que avança junto, apesar das perdas.
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