“Any Other Way: The Jackie Shane Story”, documentário dirigido por Michael Mabbott e Lucah Rosenberg-Lee, reconstrói a trajetória da cantora soul trans negra Jackie Shane a partir de vestígios, vozes e invenções formais que compensam a escassez de registros visuais. Figura central da cena musical de Toronto nos anos 1960, Shane viveu um sucesso intenso e breve antes de desaparecer da vida pública por quase quatro décadas. O filme parte desse apagamento para propor não apenas uma biografia, mas um gesto político de restituição histórica, ancorado na escuta atenta da própria artista e no reconhecimento tardio de seu legado.
A espinha dorsal do documentário são as gravações telefônicas inéditas feitas por Mabbott com Shane no ano anterior à sua morte, em 2019. É pela voz dela, espirituosa, firme e por vezes melancólica, que o filme se organiza, recusando mediações excessivas. Esse testemunho direto confere ao relato uma intimidade e evita a armadilha da canonização póstuma. Shane narra sua infância em Nashville, a migração para o Canadá, os enfrentamentos com o racismo estrutural da indústria musical e sua decisão consciente de viver de acordo com sua identidade de gênero em uma era abertamente hostil.
Diante da quase inexistência de imagens em movimento da artista, o filme aposta em uma solução estética ambiciosa: longas sequências de animação por rotoscopia. Performances encenadas por atrizes trans são sobrepostas a fotografias reais de Shane e transformadas por processos híbridos que combinam animação tradicional, ambientes 3D e ferramentas de IA treinadas em arte abstrata. Inspirada na tradição experimental do National Film Board of Canada, essa escolha não busca realismo, mas evocação, criando uma presença espectral que parece surgir e desaparecer como a própria história da cantora.
O documentário é explícito ao celebrar a coragem de Jackie Shane em afirmar sua identidade sem concessões. O filme contextualiza sua recusa em se adequar às normas da indústria, marcada por programas como “American Bandstand” e figuras como Ed Sullivan, que exigiam performances domesticadas e corpos legíveis. Shane aparece como alguém que pagou o preço do ostracismo por não negociar sua autenticidade, tornando-se um símbolo de resistência trans antes mesmo de existir um vocabulário público para isso.O impacto emocional do filme é ampliado com a descoberta do legado de Shane por seus próprios familiares após sua morte. Cartas, memórias e depoimentos revelam camadas íntimas de afeto, perda e silêncio, aproximando o espectador de uma artista que foi ao mesmo tempo pública e profundamente solitária.
A música ocupa papel central nesse processo de restituição. Clássicos como “Stand by Me” reaparecem ao lado de uma canção inédita composta por Jackie Shane e Frank Motley nos anos 1960, resgatada e integrada à trilha sonora como gesto de reparação simbólica. Essa faixa funciona menos como curiosidade de arquivo e mais como afirmação tardia de um talento interrompido. Produzido com envolvimento de Elliot Page, “Any Other Way: The Jackie Shane Story” se consolida como um documentário que alia rigor histórico, invenção formal e compromisso político, devolvendo à cultura pop uma artista cuja existência sempre foi, por si só, um ato de desafio.
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