terça-feira, 28 de março de 2023

Bruno Reidal, Confissões de um Assassino(Bruno Reidal, França, 2021)


Bruno Reidal, de Vincent Le Port, é o personagem homônimo (Dimitri Doré), baseado em um adolescente da vida real que, em 1905, aos 17 anos, decapitou um vizinho de 13 anos em um pequeno vilarejo na região de Auvergne-Rhône-Alpes, no sudeste da França. É difícil. É chocante. É perturbador.


É quase como se esse assassino fosse produzido pelas teorias psicológicas emergentes de sua época. Bruno até fundamenta seu próprio deslocamento do desejo sexual em atos de violência em um tipo perverso de cena de abertura.


O filme explora os arquivos e documentos forenses do caso Bruno Reidal compilados pelo Doutor Alexandre Lacassagne(Jean-Luc Vincent). A história sórdida atinge o alvo, em parte pelo acesso à psique de um sociopata obcecado com a ideia de matar, mas principalmente porque as confissões são muito reais e absolutamente incômodas.


Há também uma inevitabilidade nítida na ação, desde a masturbação quase involuntária de Bruno sempre que ele imagina ou testemunha a brutalidade, até a eventual descrição explícita do assassinato em si, ou seus momentos de observação aos corpos de outros garotos durante sua passagem pelo seminário.


Com o subtítulo Confissões de um Assassino, o filme trata de duas formas diferentes de confissão: o rito católico que resulta na expiação dos pecados de alguém e a auto identificação às autoridades. Como mostra o impiedoso Bruno Reidal, nenhum dos dois tipos pode explicar o mal que os humanos são capazes.

Bruno Reidal conseguirá desconcertar com sua abordagem fria e muito textual, e é, como o próprio título sugere, a confissão de um assassino. Através da exploração de sua infância, aprendemos como Reidal viveu toda a sua vida com uma obsessão por assassinato, e somos alimentados com todos os seus pensamentos sombrios. 


Juntamente com o hábil trabalho de câmera de Le Port e a fotografia deliberadamente branda, de Michaël Capron, o filme revela o jovem Dimitri Doré, indicado ao César, que personifica perfeitamente Reidal em todas as suas contradições. Sentimos seu desgosto entre querer fazer bem as coisas e satisfazer seus desejos. Ele é mentalmente torturado em uma sociedade presa entre diferentes normas de disciplina, punição e sexo. 


A abordagem intransigente aos pensamentos, experiências e lutas psicológicas de Reidal é ousada. O olhar do diretor para os detalhes é impressionante, seja por meio de sua requintada recriação da França, do início do século XX, ou da pobreza no coração da vida rural de Reidal. O cineasta disseca as memórias com precisão cirúrgica desde um infeliz  abuso sexual na infância até seu isolamento e sentimento de inferioridade. 

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