quinta-feira, 20 de julho de 2023

Barbie(EUA/Reino Unido, 2023)

A boneca Barbie povoa o imaginário da infância de muitas pessoas queer. O antigo slogan ‘Tudo o que você quer ser’ nos dizia algo, enquanto tínhamos que brincar escondidos com nossas irmãs, primas ou amigas. Greta Gerwig, tomou o desafiou e fez um filme, um tanto inusitado, sobre o icônico brinquedo, e realizou uma espécie de sonho. É uma reparação histórica com quem tinha que brincar escondido.

O início é fascinante, com a citação explícita de 2001: Uma Odisseia no Espaço(1968), clássico de Stanley Kubrick com narração de Helen Mirren, para não só revelar a marca estética do filme, mas também o seu registo narrativo: uma obra pop e cheia de referências, que quer fazer uma reflexão lúdica sobre um produto da cultura de massas e da sua história. 


Barbie, Margot Robbie, nascida para o papel, vive uma vida feliz com Ken (Ryan Gosling) em Barbie Land, uma utopia comandada por mulheres. Um dia, ela descobre que não tem mais a aparência perfeita que sempre teve e começa a questionar sua própria mortalidade. Com a ajuda de Barbie Estranha (Kate McKinnon), ela e Ken se aventuram a sair da Barbie Land para o mundo real, em Los Angeles.

O roteiro escrito com, o marido de Greta, Noah Baumbach, transborda sagacidade, humor ácido, ironia e, surpreendentemente, cordialidade, ternura, nostalgia e sabedoria. A trama não se trata apenas da busca da Barbie para encontrar seu mundo; é fundamentalmente sobre sua busca para encontrar seu verdadeiro eu e aprender o significado de ser um  humano. 


Quando Barbie e Ken viajam para Los Angeles juntos, eles descobrem que o mundo real é governado pelo patriarcado e, enquanto Barbie parte para descobrir como é ser uma mulher real, de carne e sangue, ele começa sua própria aventura de autodescoberta, que acabará levando a uma batalha altamente divertida dos sexos, quando eles retornam à Barbie Land.


E é em Los Angeles, que Barbie se depara com a Mattel, o filme faz piadas às custas da empresa, que podem parecer subversivas no início, mas à medida que avança parece mais uma crítica controlada. Will Ferrel interpreta o CEO. E o filme brilha ao conseguir fazer sarcasmo social, ao mesmo tempo em que é uma deslumbrante jogada de marketing. Este certamente não é um ataque ao capitalismo.


O longa é, sem dúvida, contado a partir de uma perspectiva feminista, há uma grande variedade de Barbies em exibição, e politicamente Gerwig deixa claro que o mundo seria um lugar melhor se as mulheres governassem ou pelo menos compartilhassem o poder com os homens. 


Cada Barbie tem sua própria função: Issa Rae interpreta a Barbie Presidente, Emma Mackey é a Barbie Física, Dua Lipa é Barbie Sereia, Sharon Rooney é Barbie Advogada, Alexandra Shipp é uma autora célebre, a atriz trans Hari Nef é uma médica, Ritu Arya é uma jornalista e Emerald Fennell é a quase esquecida Midge. Há um bando de Kens, e um Allan (Michael Cera), na Barbie Land também. No mundo real, America Ferrera é o destaque como Gloria, uma funcionária da Mattel.


Ryan Gosling é o Ken principal e o único que oferece camadas e complexidade.  Desde o início fica claro que os Kens são apenas acessórios. O Ken de Gosling simplesmente fica na praia o dia todo tentando impressionar a Barbie de Robbie, mas há mais além da superfície.

Life in Plastic is Fantastic! O design de produção extravagante é brilhante e nos mais variados tons de rosa e os inúmeros cenários são manuseados com muita destreza pelo diretor de fotografia, o mexicano Rodrigo Prieto, de colaborações com Alejandro Gonzáles Iñarritu, e pela própria Gerwig.


Barbie também faz o melhor de sua música pop; canções de Lizzo, Billie Eilish, Karol G, Nicki Minaj, Charlie XCX, HAIM, Sam Smith, Ava Max e Dua Lipa absolutamente funcionam aqui enquanto brincam com a estética onírica de como deve ser ser uma boneca Barbie perfeita. 


Com Barbie, Gerwig fez um deleite visual e espiritual que usa sua estética de algodão doce e bola de sabão para contar algumas verdades duras que são inerentemente conhecidas, mas raramente discutidas. Assim como o aspecto mais leve da comédia, Barbie está interessada em investigar temas mais profundos. É uma celebração sincera das forças e tribulações da feminilidade, em todas as suas muitas formas. É mais que um filme, é um acontecimento!



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