“Holy Trinity” , dirigido com espírito anárquico e estrelado por Molly Hewitt como a dominatrix Trinity, o filme se estabelece com gosto no território do cinema B e Camp, onde espiritualidade, fetiche, drogas e humor escrachado coexistem. Ambientado na cena artística queer de Chicago, o longa transforma trabalho sexual, visões induzidas por aerossol e mediunidade improvisada em matéria-prima narrativa, como se John Waters tivesse resolvido filmar uma catequese anticapitalista após uma rave BDSM.
A premissa é deliciosamente absurda. Trinity inala o conteúdo da misteriosa lata Glamhag, depois rebatizada de Orishako, e passa a ouvir os mortos. O dom, longe de ser tratado como maldição solene, vira um recurso caótico que a empurra para encontros com padres confusos, drag queens iluminadas e bruxas de aconselhamento espiritual duvidoso. A herança católica opressiva, sempre à espreita, surge como vilã estética e moral, um fantasma institucional contrastando com a liberdade vibrante das espiritualidades queer e sincréticas que o filme celebra com deboche.
Ao lado de Trinity está Baby (Theo Germaine), parceira submissa, musicista e âncora emocional dessa espiral lisérgica. A relação entre ambos, construída com afeto genuíno e humor autoconsciente, impede que “Holy Trinity” escorregue para o cinismo total. O BDSM aqui não é fetiche ornamental, mas linguagem de intimidade e pacto, com direito a colar simbólico funcionando como compromisso espiritual. Heather Lynn, como Carol, encarna as dualidades místicas do filme, enquanto Imp Queen aparece como ela mesma, reforçando o clima de comunidade queer onde performance e vida cotidiana se misturam sem pudor.
O dom de falar com os mortos ganha contornos inesperadamente sensíveis quando Trinity passa a mediar lutos e traumas alheios. O que começa como alucinação barulhenta se transforma em ferramenta de cuidado coletivo, conectando vivos e mortos para fechar feridas emocionais antigas. Essa mediação espiritual funciona como comentário social, propondo uma ética baseada em empatia e escuta comunitária em oposição ao dogma repressivo. O filme sugere que cura e transcendência podem muito bem vir embaladas em spray fluorescente e sarcasmo.
Visualmente, “Holy Trinity” é um ataque sensorial. A fotografia saturada, os figurinos inspirados em BDSM e drag, e o design de produção anticapitalista transformam cada cena em um pequeno manifesto estético. Cores explosivas, close-ups excessivos e cenários que parecem montados com cola quente e coragem criam um universo onde o grotesco vira glamouroso por insistência. A câmera se comporta como cúmplice dessa desordem, flertando com o exagero como método e recusando qualquer noção de bom gosto normativo.
“Holy Trinity” sabe exatamente o filme que é, e essa autoconsciência é sua maior força. Entre tentações de fama, visões sobrenaturais e dilemas comunitários, a narrativa opta por valorizar vínculos afetivos e autenticidade em detrimento do glamour vazio. O resultado é uma fábula queer debochada, espiritualmente promíscua e politicamente afiada, que transforma blasfêmia em afeto e caos em método. Cinema B, Camp até o talo, mas com coração coletivo pulsando forte.
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