“Wicked: For Good”, de Jon M. Chu, reafirma como o musical pode funcionar como território simbólico para narrativas queer ao revisitar Oz por meio de figuras historicamente marginalizadas. A jornada de Elphaba (Cynthia Erivo), marcada pela rejeição desde o nascimento devido à pele verde, transforma o mito da “Bruxa Má” em uma reflexão sobre diferença e estigma. Glinda (Ariana Grande) ganha nuances que vão além da bondade idealizada, exibindo privilégios, inseguranças e a busca por pertencimento. O filme estabelece, desde o início, que histórias sobre bruxas são histórias sobre quem vive fora das normas.
A partir desse eixo, Chu amplia a alegoria política ao mostrar Elphaba como alvo de perseguição estatal, usada como símbolo para justificar pânico moral. Os Animais Falantes surgem como metáfora para grupos marginalizados cuja voz é apagada, ecoando legislações contemporâneas anti-LGBTQIA+. “Wicked: For Good” se afasta do escapismo puro e assume um comentário social claro, aproximando Oz de debates atuais sobre controle, desinformação e violência institucional.
O elo afetivo entre Elphaba e Glinda torna-se a espinha dorsal da narrativa. O filme não verbaliza um romance, mas constrói uma intimidade sáfica reconhecível, onde transformação e cuidado mútuo moldam o percurso das duas. “For Good” funciona como síntese dessa relação, não como gesto subtexto, mas como confirmação emocional. É um vínculo queer estruturante, capaz de sustentar o peso do melodrama e das perdas.
Fiyero (Jonathan Bailey), concebido como figura de fluidez afetiva, reforça um imaginário onde desejo não se apresenta de forma fixa. Chu não o utiliza como triângulo romântico convencional, mas como personagem que vive sua própria amplitude. Sua presença sugere um universo onde pluralidade sexual é regra, não exceção, e onde relações afetuosas existem sem hierarquias previsíveis.
A integração entre este universo e a mitologia original de Oz fornece ao filme seus momentos mais engenhosos. Dorothy torna-se o ponto de convergência que redefine destinos, e o longa revela as origens de figuras clássicas como o Espantalho e o Homem de Lata a partir das consequências das escolhas de Elphaba e Glinda. Essa amarração cria continuidade emocional, sustentando a transição entre as obras.
Entre os pontos frágeis, está uma certa irregularidade no ritmo, especialmente em sequências musicais longas que diluem o impacto narrativo. Algumas cenas priorizam tanto o espetáculo que afrouxam a construção emocional, e há momentos em que a grandiosidade visual compete com o desenvolvimento dos personagens. Além disso, o CGI, às vezes satura a visão, com trechos em que a artificialidade compromete a imersão.
Mesmo com essas oscilações, “Wicked: For Good” é uma fantasia de grande impacto, guiada por ambição estética e compromisso com seu público histórico. Chu articula espetáculo e sensibilidade queer sem didatismo excessivo, permitindo que Elphaba e Glinda se solidifiquem como figuras de emancipação e transformação. O resultado é uma obra que reconhece sua herança, expande seu alcance e oferece ao cinema musical um gesto de renovação política e afetiva.
Nenhum comentário:
Postar um comentário