Drone já começa jogando na nossa cara que o futuro não é tão futurista assim: Émilie, uma estudante de arquitetura interpretada por Marion Barbeau, é vigiada por um drone que parece ter saído de um pesadelo de vigilância contemporâneo. O filme não perde tempo com rodeios — o drone é uma presença quase palpável, um voyeur mecânico que vai de curioso a ameaçador em poucos minutos. E é aí que entra a camada sáfica: a relação de Émilie com sua colega de apartamento, Louise (Eugénie Derouand), não é só pano de fundo, mas o coração emocional da trama. O sci-fi aqui não é sobre naves espaciais, mas sobre como a tecnologia amplifica o desejo, o medo e a intimidade entre essas duas mulheres. Bouisson acerta ao fazer da tensão queer algo tão real quanto o zumbido do drone na janela.
O voyeurismo, que poderia ser só um truque de thriller, vira uma ferramenta narrativa brilhante. O drone não é apenas um stalker high-tech; ele reflete o olhar externo que julga e fetichiza relações sáficas, enquanto também expõe a vulnerabilidade de Émilie e Louise. Há uma cena em que as duas trocam olhares carregados e o drone está lá, capturando tudo, como se fosse o olho de uma sociedade que não sabe se condena ou se fascina. O sci-fi entra como um tempero que potencializa essa dinâmica: a tecnologia não cria os sentimentos, mas os escancara, transformando momentos de ternura em alvos de exposição. É um comentário ácido sobre como a privacidade é um luxo que o amor queer raramente tem.
Mas nem tudo é genialidade. O filme tropeça em suas próprias ambições: as quase duas horas de duração pesam com sequências repetitivas que parecem gritar “olha como eu sou conceitual!” sem acrescentar muito. O ritmo arrastado às vezes sufoca a tensão que o voyeurismo deveria sustentar, e o roteiro cai em armadilhas previsíveis — tipo o hacker providencial que surge do nada pra “explicar” o drone. Ainda assim, a representatividade sáfica não é sacrificada nesses deslizes. Émilie e Louise têm uma química que não depende de clichês de “melhores amigas que se descobrem”; elas já estão nesse lugar de afeto e desejo, e o filme não pede permissão pra mostrá-las assim. É refrescante ver um sci-fi que não usa a queerness como plot twist, mas como base.
No fim, Drone é um experimento que vale mais pela ousadia do que pela execução impecável. Simon Bouisson transforma o voyeurismo em uma lente para explorar sentimentos que vão do medo à paixão, e a representatividade sáfica é o fio condutor que dá alma ao filme. Não é perfeito — longe disso —, mas é um sci-fi queer que não tem vergonha de ser o que é: um olhar incômodo e humano sobre como a tecnologia pode tanto conectar quanto invadir. Se você curte cinema que provoca mais perguntas do que respostas, e ainda entrega um romance sáfico sem firulas.
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