quinta-feira, 20 de março de 2025

Las Corredoras (Argentina, 2024)

Néstor Montalbano, em “Las Corredoras”, entrega um filme que é ao mesmo tempo um tributo ao cinema clássico dos anos 50 e uma subversão astuta dos papéis de gênero tradicionais. Ambientada em 1959, a trama segue Mabel (Carola Reyna), uma oficinista solitária enviada ao interior para fechar um contrato com o misterioso estanciero Antonovich (Diego Capusotto). O que começa como um melodrama hitchcockiano logo se transforma num labirinto de identidades fluidas, onde os papéis de gênero são tanto performados quanto desmontados. Montalbano, com seu estilo inconfundível, usa essa estética retrô para questionar normas rígidas, trazendo um frescor queer ao cinema argentino.

A grande força do filme está no uso de Diego Capusotto, que interpreta quatro personagens — incluindo o próprio Antonovich e sua esposa. Essa multiplicidade não é apenas um recurso cômico ou narrativo, mas uma provocação direta aos binarismos de gênero. A esposa de Antonovich, vivida por Capusotto com uma peruca e trejeitos exagerados, assume o lugar do marido após sua morte, mantendo a farsa para proteger sua herança. Aqui, Montalbano explora a performatividade de gênero à la Judith Butler: a identidade é uma máscara que se veste por necessidade, desejo ou sobrevivência, e Capusotto a encarna com um misto de absurdo e pathos que desafia o espectador a rir e refletir.

Carola Reyna, como Mabel, também subverte o arquétipo da “mulher comum” do melodrama clássico. Inicialmente uma figura passiva, quase uma donzela em perigo, ela evolui para uma agente ativa, enredada nas tramoias da estancia La Esplendorosa. Sua interação com a esposa de Antonovich e a amiga corredora (Alejandra Flechner) — ambas pioneiras num esporte masculino como o automobilismo — cria um trio feminino que rejeita os estereótipos de fragilidade ou subserviência.

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A presença das corredoras de automóveis, interpretadas por Capusotto e Flechner, é outro destaque na desconstrução de gênero. Num contexto dos anos 50, em que o Turismo Carretera era um reduto masculino, essas mulheres não só competem como dominam o espaço, carregando uma energia transgressora que remete ao camp e ao kitsch. Montalbano as filma com um olhar que mistura admiração e ironia, sublinhando como o esporte, assim como o gênero, é um palco de performance. Elas desafiam a masculinidade tradicional não apenas pela habilidade, mas pela recusa em se encaixar nas expectativas sociais da época.

“Las Corredoras” é, enfim, um exercício de estilo e subversão. Montalbano, ao lado de um elenco afiado, homenageia Hitchcock e Almodóvar enquanto injeta uma perspectiva queer que ressoa no presente. Os papéis de gênero, aqui, são corridas de alta velocidade: perigosas, emocionantes e, acima de tudo, livres para ultrapassar as linhas traçadas. É um filme que não apenas entretém, mas convida a repensar quem somos quando as luzes da tela se apagam.

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