terça-feira, 18 de março de 2025

Misericórdia (Miséricorde, França/Espanha/Portugal, 2024)

Alain Guiraudie, cineasta francês conhecido por sua habilidade em misturar o poético com o transgressor, entrega em “Misericordia” uma obra que desafia classificações fáceis. Escolhido pela prestigiada Cahiers du Cinéma como o melhor filme do ano de 2025, este thriller rural minutos mergulha em um vilarejo isolado onde segredos, desejos reprimidos e culpa cristã se entrelaçam. A trama começa com Jérémie (Félix Kysyl), um jovem que retorna a Saint-Martial para o funeral de seu antigo patrão, um padeiro local. O que parece uma visita de cortesia logo se transforma em um emaranhado de tensões sexuais, humor ácido e reflexões morais. Guiraudie, que também assina o roteiro, adapta aqui um trecho de seu próprio romance “Rabalaïre (2021)”.

Jérémié se hospeda na casa de Martine (Catherine Frot), a viúva do padeiro, e logo desperta suspeitas e desejos em figuras como Vincent (Jean-Baptiste Durand), o filho dela, e Walter (David Ayala), um vizinho solitário. A presença de Jérémie é como uma pedra jogada num lago calmo: as ondulações revelam o que estava escondido sob a superfície.O filme não demora a tomar um rumo sombrio com um assassinato no bosque — um evento que Guiraudie filma com uma mistura de naturalismo e absurdo, sem jamais apelar para o sensacionalismo. A partir daí, Misericordia se transforma num thriller hitchcockiano tingido de comicidade, onde a busca por cogumelos (um detalhe recorrente) vira metáfora para os instintos que brotam na escuridão. A direção de Guiraudie é precisa ao capturar a fisicalidade dos corpos em tensão, algo que ele já havia explorado em “Um Estranho no Lago (2013)”, mas aqui com menos ênfase no sexo explícito e mais no subtexto psicossexual. Cada olhar, cada gesto carrega um peso que o espectador é convidado a decifrar.


Um dos grandes trunfos do filme é o elenco. Félix Kysyl interpreta Jérémie com uma ambiguidade magnética: ele é ao mesmo tempo vulnerável e ameaçador, um catalisador que desnuda as fragilidades alheias. Catherine Frot, como Martine, traz uma ternura cortante, enquanto Jean-Baptiste Durand e David Ayala injetam doses de paranoia e rusticidade à dinâmica. Mas é Jacques Develay, no papel do padre Philippe Griseul, quem rouba a cena em momentos de humor inesperado — como numa confissão invertida que expõe as fraquezas do próprio clérigo. Esses personagens, tão humanos quanto contraditórios, são o coração de “Misericordia”.


A religiosidade, aliás, é um fio condutor que Guiraudie trata com irreverência e profundidade. O título — que evoca a compaixão cristã — é quase irônico diante das ações dos personagens, movidas mais por desejo e culpa do que por redenção. Há ecos de Buñuel na forma como o filme subverte a moral católica, mas também de Pasolini, especialmente "Teorema (1968)", com seu estranho que desestabiliza uma família. Guiraudie, porém, não se limita a homenagens: ele cria um universo próprio, onde a religião é menos dogma e mais espelho das contradições humanas.


A narrativa de “Misericordia” flui entre gêneros — drama, comédia, suspense — sem jamais se prender a um só. Essa fluidez é tanto sua força quanto seu desafio: quem busca respostas claras pode sair frustrado. Guiraudie prefere o mistério, deixando buracos na trama que o espectador preenche com suas próprias interpretações. O assassinato, por exemplo, é menos um enigma a ser resolvido e mais um gatilho para explorar temas como responsabilidade coletiva e a hipocrisia que permeia as relações. É um filme que pede entrega, que exige que você se perca no bosque junto com os personagens.


Visualmente, “Misericordia” é um deleite. A fotografia de Claire Mathon transforma o outono francês numa paleta de dourados e vermelhos que contrasta com a frieza emocional da trama. Os planos longos e a câmera que se demora nos detalhes — as folhas secas, os cogumelos, os rostos tensos — criam uma experiência sensorial que reforça a ideia de um mundo vivo, mas à beira do colapso. A trilha de Marc Verdaguer, discreta mas eficaz, pontua os momentos de tensão sem nunca roubar o foco das imagens. É um trabalho técnico que serve à visão autoral de Guiraudie, nunca o contrário.


O filme me causou uma mistura de fascínio e desconcerto. O longa me pegou desprevenido com sua capacidade de rir da tragédia e me fez pensar nas máscaras que todos usamos — nas relações, na fé, na vida. A cena final, com Jérémie e o padre num momento de cumplicidade improvável, ficou comigo dias depois, como um lembrete de que o desejo, mesmo nas suas formas mais tortuosas, é o que nos mantém humanos. Guiraudie me desafiou a olhar para o caos sem julgamento.


Nenhum comentário:

Postar um comentário