Yo, Adicto, minissérie espanhola, adapta o romance autobiográfico de Javier Giner, com Oriol Pla como Joel, um homem na casa dos 30 perdido no caos da dependência química e da vida queer noturna de Barcelona. Cocriada por Giner e Aitor Gabilondo, a série não alivia o espectador: é um retrato sem filtros de um adicto afundado em drogas, álcool e sexo compulsivo, tentando tapar um vazio que só se aprofunda.
Joel, assumidamente gay, transita entre as luzes neon das baladas e os quartos escuros de encontros casuais, onde a noite queer pulsa como um organismo vivo — sedutor, mas letal. A direção de Alfonso Albacete captura essa dualidade com uma estética que vai do frenesi das raves à solidão dos amanheceres, embalada por uma trilha eletrônica que amplifica o descontrole.
A série explora como as festas, os corpos e o hedonismo da cena gay de Barcelona são ao mesmo tempo refúgio e armadilha pra Joel. Ele se entrega às pistas de dança e às conexões fugazes com uma energia quase ritualística, como se cada noite fosse uma tentativa de exorcizar sua dor. Há momentos em que a câmera pega os olhares trocados entre homens, o suor dos corpos na multidão, e a liberdade fugaz que a noite queer promete — mas tudo vem com um custo. A narrativa deixa claro que essa busca por prazer anda de mãos dadas com a autodestruição, e a identidade queer de Joel, celebrada na superfície, também é o terreno onde sua dependência se enraíza, alimentada pela pressão de performar e se encaixar.
A gravidade da dependência química é o ponto alto de Yo, Adicto, tratada com um tom muito mais cru e realista do que o estilizado brilho de Euphoria. Joel não é um clichê de viciado — ele é complexo, articulado, consciente do que faz consigo mesmo e, ainda assim, incapaz de parar. Enquanto Euphoria embrulha o vício em cores saturadas e glamour adolescente, Yo, Adicto disseca os ciclos de euforia e colapso com precisão clínica: as linhas de cocaína que o levam ao pico, o álcool que amortece a queda, e o sexo que preenche os vazios por instantes.
Quando Joel entra voluntariamente num centro de desintoxicação, a série troca as luzes estroboscópicas pelos corredores frios da clínica, e as redes de apoio ganham destaque. O fantasma do vício ainda assombra, mas o NA (Narcóticos Anônimos) e as sessões de terapia em grupo viram âncoras frágeis na luta dele. Os outros pacientes — alguns queer, outros não — refletem a universalidade do vício, mas o passado de Joel na cena gay o marca: ele fala das baladas como um exilado da própria vida, com saudade e peso. A terapia em grupo revela como a cultura da festa, tão enraizada na vida queer urbana, normaliza as drogas como parte do pacote, enquanto a terapia individual o força a encarar o que sobrou de si. Yo, Adicto não julga essa cultura, mas pergunta: até onde a liberdade da noite é empoderadora, e quando ela vira jaula?
Yo, Adicto é um grito abafado sobre o preço de viver no excesso numa subcultura que exalta a intensidade, com uma abordagem bem mais pé no chão que o glamour de Euphoria. Pro público queer, é um espelho incômodo: a noite pode ser afirmação, mas também ruína. Pra quem conhece a dependência, é um relato honesto, sem romantismo. Giner e Gabilondo dissecam o vício com todas as suas contradições, lembrando filmes de Eloy de la Iglesia, e destacam que redes de apoio, são pilares pra quem tenta se reconstruir. Não é leve; é pra sentir na pele, como um after eterno. Entre a celebração da identidade queer e a brutalidade da dependência química, a série dança no fio da navalha — e deixa cicatrizes.
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