sexta-feira, 14 de março de 2025

Um Terror de Parentes (The Parenting, EUA, 2025)

Craig Johnson entrega em "Um Terror de Parentes" um prato cheio pra quem curte um mix de comédia e terror leve, sem grandes pretensões de gelar a espinha, mas com um charme que segura a atenção do começo ao fim. O filme pega a premissa clássica de "conhecer os sogros" e joga um poltergeist na mistura – só que, aqui, o riso ganha de lavada do berro. É uma vibe que não força sustos, mas arranca gargalhadas com um elenco afiadíssimo e um roteiro esperto assinado por Kent Sublette, que costura bem os dois gêneros sem deixar buracos gritantes.

Parker Posey é Brenda, a dona da casa assombrada com um olhar vazio e uma energia que grita "eu sei mais do que vocês". Consolidada como Scream Queen em “Pânico 3”, ela rouba cada cena com uma presença enigmática que dá vontade de gritar "dá um spin-off pra essa mulher!". Enquanto isso, o casal gay Rohan (Nik Dodani) e Josh (Brandon Flynn) carrega a alma(penada)da trama: a busca pela aprovação dos sogros é clara, honesta e dá um toque contemporâneo que aquece o peito – mesmo quando o caos sobrenatural toma conta. É aí que entra a analogia, o terror de conhecer os sogros, especialmente quando se é queer. O romance deles é o fio condutor, e o filme não tem vergonha de mostrá-los como protagonistas de carne e osso, não só um acessório narrativo.

Lisa Kudrow, eternizada como Phoebe de “Friends” e diva de “Romy & Michele”, entra como Liddy, mãe de Josh, trazendo toda a energia fag hag que a gente ama. Ela é o contraponto perfeito aos pais tradicionais de Rohan, Sharon (Edie Falco) e Frank (Brian Cox), e a química entre o quarteto de pais é um dos grandes trunfos do filme. Kudrow solta tiradas com timing impecável, enquanto Cox – que tem um quê de Vincent Price no olhar carrancudo – se joga na possessão demoníaca com um humor autodepreciativo que desmonta qualquer sobriedade de Succession. 


A cereja do bolo é a maldição ativada por uma senha de Wi-Fi – sim, você leu certo. O Wi-Fi vira um portal pra discórdia, com o demônio sendo acessado pela tecnologia pra semear o caos entre as famílias. É uma sacada tão absurda quanto genial, que injeta uma vibe anos 80 no filme: os fantasmas do passado, com aquela estética de VHS e jump scares leves, parecem saídos de um terror da Sessão da Tarde, mas com um twist moderno. Não espere sangue ou gore; o foco aqui é o humor, e o poltergeist serve mais como um catalisador pras piadas, e para a analogia, do que como ameaça real.

O roteiro de Sublette merece aplausos por equilibrar os tons: o terror nunca engole a comédia, e a comédia não apaga os momentos de tensão. A direção de Johnson, que já mostrou mão boa pra humor queer em “Alex Strangelove”, mantém o ritmo ágil e sabe usar o elenco estelar pra extrair o melhor de cada cena.


No fim, “Um Terror de Família” é uma delícia despretensiosa que abraça sua vibe de "sessão pipoca" com orgulho. O demônio pode até tentar azedar o fim de semana, mas o que fica é a sensação de ter assistido a uma reunião familiar caótica e divertida (Alô BeetleJuice), com um toque de nostalgia oitentista e um elenco que sabe servir. É mais sobre rir das desgraças do que temer o além – e, olha, funciona.


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