sábado, 29 de março de 2025

Modernos de Meia Idade (Mid-Century Modern, EUA, 2025)

“Mid-Century Modern”, nova sitcom dos criadores de “Will & Grace", Max Mutchnick e David Kohan, estreou na Disney+, trazendo uma ode à comédia, só que com um toque contemporâneo, os protagonistas são todos gays. A série segue três amigos de meia-idade — Bunny Schneiderman (Nathan Lane), Jerry Frank (Matt Bomer) e Arthur Brooks (Nathan Lee Graham) — que, após a morte inesperada de um colega, decidem morar juntos em Palm Springs, na luxuosa casa de Bunny, acompanhados pela mãe dele, Sybil (Linda Lavin). Gravada ao vivo com plateia, a sitcom ecoa a vibe das produções dos anos 80 e 90, como The Golden Girls, com cenários coloridos e um humor que mistura shade afiado e coração quentinho. Em 10 episódios, a série resgata a essência de “Will & Grace”, mas com um olhar mais maduro sobre a experiência LGBTQIA+, celebrando a amizade e a resiliência em tempos de mudança.

O humor de “Mid-Century Modern” carrega o timing característico das sitcoms americanas, que pode soar diferente para o público brasileiro, acostumado a um ritmo mais físico e espontâneo, como em "Vai que Cola". Aqui, as piadas dependem de trocadilhos rápidos, referências culturais e pausas calculadas para as risadas da plateia ao vivo, criando uma energia quase teatral. Nathan Lane, um veterano da Broadway, como o excêntrico Bunny, é o mestre desse timing, arrancando gargalhadas com suas tiradas exageradas e seu jeito de drama queen. Matt Bomer, recém saído do sucesso "Companheiros de Viagem (2023)", como o romântico Jerry, e Nathan Lee Graham, como o sarcástico Arthur, complementam a dinâmica com suas próprias nuances, enquanto a plateia ao vivo amplifica a energia cômica, remetendo à era de ouro das sitcoms.

A série também explora o choque geracional entre os protagonistas e a Gen Z, representada pela personagem Chloe (Billie Lourd), que chega com suas ideias de modernidade. Bunny, Jerry e Arthur, homens maduros que viveram a epidemia de HIV/AIDS e a luta por direitos LGBTQIA+ nos anos 80 e 90, precisam se adaptar a novas percepções de sexo, tecnologia e moda. A narrativa aborda sempre com leveza a necessidade de adaptação, mas também mostra a sabedoria dos protagonistas, que ensinam aos mais jovens o valor da autenticidade e da história que carregam, criando um diálogo intergeracional que ressoa com a experiência queer de hoje.


Um dos pilares emocionais da série é Sybil, a mãe de Bunny, interpretada pela lendária Linda Lavin, que faleceu em dezembro de 2024, aos 87 anos, durante a produção. Sybil é quase uma quarta “melhor amiga”, com suas tiradas ácidas e seu amor sarcástico pelo filho e seus amigos, trazendo camadas de humor e ternura à casa de Palm Springs. Sua saída é um dos momentos mais marcantes da série, um misto de riso e choro que reflete a perda real da atriz. A última cena de Sybil, em que ela aconselha o trio a “não deixarem de se amar, porque o mundo não vai facilitar”, é de uma emoção crua, com a voz rouca de Lavin ecoando o peso de uma despedida que transcende a ficção.

As participações especiais são outro destaque, trazendo frescor e energia à narrativa. Billie Lourd, como Chloe, injeta caos millennial com sua tentativa de “modernizar” os Golden Gays, enquanto Zane Phillips explode com sua energia sexual num ensaio de romance com Jerry. Donna Mills, interpretando a irmã de Bunny, aparece com um humor afiado que rivaliza com o do irmão, com sua energia caótica contrastando com o sarcasmo do trio.

“Mid-Century Modern” é, acima de tudo, uma celebração do poder da amizade, que sobrevive às situações mais difíceis, como a pandemia de COVID-19 e o luto pela perda de Sybil. A série nos lembra da importância de gargalhar, especialmente em tempos em que vozes LGBTQIA+ ainda lutam para não serem caladas, seja pela opressão política ou pelo peso da história. Bunny, Jerry e Arthur, com suas imperfeições e seu amor incondicional, mostram que a comunidade queer sempre encontrou força na união, transformando o caos em risadas e o luto em esperança. Em um mundo que nem sempre acolhe, a atração nos faz refletir de que o riso e mais do que a amizade, a família escolhida, são atos de resistência, e que, como Sybil diria, o melhor desastre é aquele que se vive junto.



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