A direção de E.oni aposta num ritmo contido, quase como uma pausa entre os arranha-céus. A câmera passeia por ruas lotadas e apartamentos pequenos, capturando o contraste entre o frenesi urbano e a solidão que ele mascara. Não é um filme de grandes explosões emocionais — os silêncios dizem mais que os diálogos.
Kim Go-eun brilha como Jae-hee, uma figura que flutua entre o descompromisso e uma busca quieta por sentido. Steve Noh, como Heung-soo, traz uma vulnerabilidade crua, carregada de olhares que falam de rejeição e aceitação. A química entre eles é o coração do filme: não é romantismo forçado, mas uma amizade que resiste às rachaduras da vida.
A representatividade queer é o pulso forte de “Regras do Amor na Cidade Grande”. Heung-soo, gay e assumido, não é um estereótipo — ele é complexo, com cicatrizes de quem enfrentou o conservadorismo sul-coreano e ainda tenta se encaixar na própria pele. O filme não o reduz a uma bandeira, mas mostra suas relações, seus medos e sua escrita como espelhos de uma identidade que pulsa na marginalidade. É um retrato honesto, sem alarde, que ecoa pra quem viveu o armário ou a luta por ser visto.
A narrativa não corre pra explicar tudo. Às vezes, parece até lenta demais, como se quisesse que você sentisse o peso de cada escolha dos personagens. O amor aqui não é o clichê de cinema — é confuso, transitório, e muitas vezes só um eco na multidão. A cidade grande do título é mais que pano de fundo: é uma força que molda e engole, um labirinto onde as regras do amor são escritas e rasgadas a cada esquina.
No fim, “Regras do Amor na Cidade Grande" é um filme sobre os restos que a gente junta pra seguir em frente. Não tem lição de moral, nem final embrulhado pra presente. É um olhar sobre conexões humanas num mundo que as torna frágeis — e, por isso, preciosas. A estética limpa e a sensibilidade de E.oni fazem dele um respiro no cinema asiático atual, mas exige paciência pra quem espera mais barulho que silêncio.
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