quarta-feira, 26 de março de 2025

O Pranto do Mal (El Llanto, Espanha/Argentina/França, 2024)

 

O Pranto do Mal, estreia de Pedro Martín-Calero em longas-metragens, é um terror psicológico que entrelaça as vidas de três mulheres — Andrea (Ester Expósito), Marie (Mathilde Ollivier) e Camila (Malena Villa) — unidas por um choro sobrenatural que atravessa tempos e lugares. Lançado em 2024 e premiado como Melhor Diretor em San Sebastián, o filme, coescrito com Isabel Peña, foi rodado em Madrid, e destaca-se por sua estética impecável e uma abordagem única ao gênero. A narrativa usa essa presença opressiva como um eco de violência e desamparo, criando uma experiência que ressoa além do terror tradicional.

Um ponto de brilho queer surge na personagem de Camila, interpretada por Malena Villa, que é visivelmente lésbica, uma representatividade sutil, mas marcante. O filme não se detém em explorar temas de sexualidade de forma explícita, mantendo seu foco na metáfora da violência de gênero, mas a presença de Camila traz uma camada de diversidade que enriquece o elenco. É um aceno discreto, porém significativo, que reflete a existência de identidades LGBTQIA+ sem transformá-las no cerne da trama.

A direção de Martín-Calero é magistral, com uma mise-en-scène que transforma o cotidiano — como um prédio residencial — em um espaço de tensão palpável. A fotografia de Constanza Sandoval e o design de produção constroem atmosferas claustrofóbicas, amplificando a vulnerabilidade das protagonistas. Essa sensação de ameaça invisível dialoga com experiências de marginalização onde o perigo muitas vezes vem do que não é visto ou reconhecido por outros.

As atuações são um triunfo: sempre magnética, Ester Expósito traz uma Andrea em busca de raízes e pertencimento, enquanto Ollivier entrega uma Marie sufocada pelo isolamento. Villa, como Camila, injeta uma energia distinta, e sua identidade queer, ainda que subexplorada, adiciona uma textura única à narrativa. Juntas, elas enfrentam uma maldição que ninguém mais acredita existir, um paralelo com as lutas de quem é silenciado por sistemas opressivos, sejam eles patriarcais ou heteronormativos.

Sob uma lente queer, O Pranto do Mal não é um filme sobre sexualidade, mas carrega ecos de resistência e invisibilidade que ressoam com essas narrativas. A maldição geracional que conecta as personagens pode ser lida como um comentário sobre legados de opressão que afetam tanto mulheres quanto minorias de gênero, e a inclusão de Camila reforça essa possibilidade. É uma obra que convida a múltiplas interpretações, mantendo sua força como terror psicológico enquanto abre portas para reflexões mais amplas.

O Pranto do Mal é uma adição poderosa ao cinema de gênero, equilibrando estilo e substância. Martín-Calero cria um pesadelo elegante que, mesmo focado na violência machista, prova que diversidade pode existir sem ser o holofote. É um filme que inquieta e fascina, perfeito para quem busca camadas além do susto.

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