quarta-feira, 12 de março de 2025

O Senhor dos Mortos(The Shrouds, França/Canadá, 2024)

“The Shrouds", de David Cronenberg, é um soco na mente, um filme que troca o body horror escancarado por um horror psicológico que rasteja devagar e te pega desprevenido. Vincent Cassel é Karsh, um viúvo que cria uma tecnologia pra espiar cadáveres no caixão, bem mórbido mesmo, e o terror não tá na carne rasgada, mas no vazio que o consome enquanto ele tenta segurar o que sobrou da esposa Becca (Diane Kruger). É sobre luto, sim, mas também sobre identidade se desfazendo, e isso já acende um farol para uma leitura queer que desafia as convenções.

Não rola bandeira arco-íris na tela, é lógico, mas “The Shrouds” tem subversão nas entrelinhas. Karsh tá preso num amor que não cabe nas gavetinhas hétero: ele deseja Becca morta, flerta com Terry (também Kruger), e essa tech que ele usa pra “ver” o corpo dela é quase uma amante que borra tudo — homem/mulher, vivo/morto. A tecnologia aqui rompe o binarismo, vira um portal pro desejo sem manual, e Cronenberg joga isso na cara com um sorriso torto. É queer no sentido de quem não se encaixa, e isso é puro fogo.


O horror, diferente do clássico Cronenberg, é mais cabeça que corpo. Nada de vísceras explodindo, o pesadelo tá nos silêncios, nos monitores mostrando Becca apodrecer enquanto Karsh se apaga junto. Comparado com “Videodrome", onde a carne virava máquina, aqui a máquina reflete a alma, e o clima é de um terror íntimo que sufoca.


E tem fetiche, claro, porque Cronenberg não vive sem. Quem viu “Crash” vai sacar o paralelo: lá, o tesão vinha de carros destruídos; aqui, é a morte virando voyeurismo digital. Karsh encarando as mortalhas tem aquela energia de desejo que não explica, só existe, frio, estranho e hipnotizante. É o mesmo impulso esquisito que o diretor sempre cutuca, mas agora misturado com um luto que deixa tudo mais desconfortável e, ao mesmo tempo, humano.


Na parte técnica, o filme é um deleite. A fotografia de Karim Hussain (“Possessor") é gelada, com cinzas e azuis que parecem um necrotério futurista, e foca nos detalhes, os sudários brilhando, o rosto de Cassel em colapso. A direção de arte cria cemitérios que são puro sci-fi minimalista, e o som, todo contido, amplifica o silêncio da morte. Cronenberg tá no comando, mas com um refinamento que surpreende, entregando um visual que é estéril e sufocante na medida certa.


No fim, “The Shrouds" é Cronenberg em essência: torto, profundo e transgressor. Não é pra quem quer tudo mastigado, mas pra quem topa mergulhar num desejo que desafia normas e numa tech que vira espelho da alma. A lente queer vê Karsh como alguém que ama além do óbvio, e a troca do body horror por algo mais psicológico mostra um diretor que ainda sabe reinventar.


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