sexta-feira, 28 de março de 2025

Meu Nome é Maria (Maria, França, 2024)

 Meu Nome é Maria, dirigido pela francesa Jessica Palud, é um mergulho intenso na vida de Maria Schneider, a atriz que ficou marcada pelo trauma de O Último Tango em Paris. Anamaria Vartolomei entrega uma performance devastadora como Schneider, capturando sua fragilidade e fúria com uma precisão que atravessa a tela. O filme traça a jornada de Maria desde a infância, com um pai ausente e uma mãe distante, até sua ascensão meteórica e queda trágica na indústria cinematográfica.

A fotografia de Sébastien Buchmann é um dos pontos altos da produção, com closes sufocantes que refletem o estado emocional de Maria. A paleta de cores alterna entre tons frios, que evocam sua solidão, e vermelhos intensos, que simbolizam tanto a paixão quanto a violência que permeiam sua vida. A edição de Thomas Marchand, por sua vez, cria um ritmo que oscila entre momentos de silêncio contemplativo e cortes abruptos, espelhando a desorientação de Schneider diante de um mundo que a explora sem piedade.

Um respiro queer emerge na relação de Maria com Noor (Céleste Brunnquell), sua amante que representa um raro oásis de ternura em meio ao caos. As cenas entre as duas, filmadas com uma delicadeza que contrasta com a brutalidade do set de O Último Tango em Paris, sugerem uma busca por liberdade e autenticidade. A sexualidade de Maria, que na vida real era fluida e desafiadora para os padrões da época, aparece aqui como um refúgio potencial contra as imposições patriarcais da indústria. No entanto, Palud não aprofunda essa narrativa, deixando a relação como um esboço de algo que poderia ter sido mais significativo.

As rodagens de O Último Tango em Paris são o eixo central de Meu Nome é Maria, e Palud as retrata com uma honestidade que beira o desconforto. A infame cena da manteiga, na qual Schneider foi manipulada por Bertolucci e Marlon Brando (interpretado por Matt Dillon) sem consentimento, é recriada com um olhar que prioriza a perspectiva da atriz: vemos sua humilhação, o silêncio cúmplice da equipe e o peso de um “não” ignorado. O filme expõe como O Último Tango, hoje considerado um clássico maldito, foi construído às custas da dignidade de sua protagonista, ecoando outros casos de abuso em sets de filmagem.

Além de expor os bastidores de O Último Tango, Meu Nome é Maria também reflete sobre o impacto duradouro desse trauma na vida de Schneider. Após o filme, ela enfrentou o estigma de ser vista apenas como um objeto sexual, enquanto lutava contra a depressão e o vício. Palud acerta ao mostrar como a indústria, que a elevou ao estrelato, também a descartou sem cerimônia, um padrão que se repete com tantas mulheres no cinema. A relação de Maria com Bertolucci, marcada por uma mistura de admiração e ressentimento, é retratada com nuances, mas o filme não explora o suficiente o papel de Brando, que, como veterano, também teve responsabilidade no que aconteceu. Essa omissão enfraquece a crítica, deixando uma sensação de que a história de Schneider ainda não foi totalmente contada.

Nenhum comentário:

Postar um comentário