"La Sirène à Barbe", de Nicolas Bellechombre e Arthur Delamotte, é um filme que transforma a simplicidade de uma cidade portuária em um palco de esplendor. Ambientado em Dieppe, o longa nos apresenta Erwan, um pescador introspectivo vivido por Maxime Sartori, cuja vida ganha cor ao cruzar com o cabaré que dá nome à obra e que existe de fato, o que garante autenticidade. É uma narrativa que equilibra o mundano com o extraordinário, usando o contraste entre a rotina cinzenta de Erwan e a vitalidade das drag queens como motor emocional.
A direção de Bellechombre e Delamotte é um dos pontos altos, com uma abordagem que mistura realismo e burlesco. Eles criam um ritmo visual que reflete o pulsar do cabaré: os planos abrem espaço para as performances respirarem, enquanto os closes capturam a vulnerabilidade dos personagens.
A fotografia, traz um olhar atento aos detalhes. Os tons frios e desbotados do porto contrastam lindamente com os interiores quentes e saturados do cabaré, onde luzes douradas e vermelhas banham os artistas em um brilho quase mítico. É um trabalho que não só emoldura a história, mas a amplifica, usando a paleta de cores para sublinhar a transição de Erwan de um mundo apagado para outro cheio de vida.
Os figurinos são um luxo impressionante, elevando o filme a um patamar de puro deleite visual. Cada look das drag queens é uma obra de arte, plumas, paetês e cortes exagerados que celebram a extravagância sem perder a personalidade. Há uma atenção minuciosa na construção dessas peças, que refletem tanto o glamour quanto as histórias individuais das personagens. Fora do palco, os trajes simples de Erwan e dos moradores locais criam um contraponto eficaz, destacando ainda mais o impacto transformador do cabaré.
Os números musicais são o coração pulsante de "La Sirène à Barbe", e a trilha sonora os coloca num nível de excelência. Com canções que vão de refrãos contagiantes a baladas melancólicas, a música não é apenas pano de fundo, mas uma força narrativa por si só.
O romance, por outro lado, é um elemento mais contido, quase tímido. A conexão entre Erwan e uma figura do cabaré cresce aos poucos, com trocas de olhares e silêncios que dizem mais do que palavras, mas gritam SEXO. Embora funcione como um fio emocional, falta um pouco de emoção para torná-lo tão marcante quanto os outros aspectos do filme. No fim, "La Sirène à Barbe" é uma celebração da arte como esperança e resistência, um trabalho que, mesmo com suas pequenas falhas, deixa uma impressão duradoura graças à sua estética impecável e ao coração que pulsa.
Nenhum comentário:
Postar um comentário