quinta-feira, 20 de março de 2025

Tú no Eres Yo (Espanha, 2023)


"Tú no Eres Yo" começa com um soco no estômago disfarçado de surpresa natalina. Aitana (Roser Tapias) volta pra casa depois de três anos, trazendo a esposa brasileira Gabi (Yapoena Silva) e o filho adotivo, esperando abraços quentes. Em vez disso, encontra os pais tratando uma estranha, Nadia (Anna Kurikka), como a filha que ela costumava ser — dormindo no seu quarto, vestindo suas roupas, recebendo o carinho que deveria ser dela. Moisés Romera e Marisa Crespo, dupla valenciana estreante no longa, pegam essa premissa aparentemente simples e a torcem até virar um novelo de paranoia, ciúme e segredos sangrentos. É como se "O Bebê de Rosemary" tivesse um primo espanhol obcecado por dinâmicas familiares tóxicas.

Roser Tapias carrega o peso da narrativa nos ombros como Aitana, uma mulher que oscila entre a incredulidade, a raiva e um desespero palpável. É uma atuação que não exagera, mas também não se esconde. O resto do elenco, como Jorge Motos (o irmão cadeirante) e os pais (Pilar Almería e Álvaro Báguena), entrega um misto de frieza e naturalidade que torna tudo ainda mais perturbador. Nadia, a "substituta", é um enigma ambulante, e Anna Kurikka a interpreta com uma calma que te faz querer arrancar os cabelos de curiosidade.

A relação sáfica entre Aitana e Gabi é um dos pilares emocionais do filme, mas não há  um foco romantizado. Romera e Crespo usam o vínculo delas como âncora pra Aitana — Gabi é a voz da razão, o contraponto à loucura que se desenrola na casa dos pais. Há uma cena em que elas trocam um olhar silencioso, carregado de cumplicidade e medo, que diz mais sobre o amor delas do que qualquer diálogo. Não é uma história sobre ser lésbica, mas sobre como esse amor é testado num ambiente que rejeita o que Aitana se tornou. É sutil, real e, por isso mesmo, poderoso.

E aí entra a maternidade, um tema que o terror ama mastigar e cuspir de volta. "Tú no Eres Yo" usa o bebê adotivo de Aitana e Gabi como um gatilho narrativo — ele não é só um símbolo de união, mas uma ameaça percebida pelos pais, que parecem enxergar nessa nova família um desrespeito ao legado deles. Pense em "Hereditário", onde a linhagem familiar vira pesadelo, ou "O Babadook", com a mãe lutando contra o luto e o instinto materno. Aqui, a maternidade é o fio que conecta Aitana ao caos, mas também o que a faz questionar sua própria identidade frente à "substituição" por Nadia.

Visualmente, "Tú no Eres Yo" é um deleite pra quem curte o terror psicológico. A fotografia de Víctor Entrecanales transforma a casa num labirinto de memórias distorcidas, com cores frias e uma iluminação que faz cada canto parecer esconder algo podre. A edição, assinada pelo próprio Romera, corta na hora certa, deixando você na dúvida entre o que viu e o que acha que viu.

"Tú no Eres Yo" é um thriller que mistura o desconforto de um jantar de família com a tensão de um pesadelo que você não consegue acordar. Não traz nada novo para o gênero da maternidade no horror, mas faz isso com estilo, apostando num olhar fresco sobre relações fraturadas e o preço de voltar pra casa. Romera e Crespo estreiam em um longa mostrando que entendem o gênero — e, mais importante, que sabem mexer com nossas inseguranças.



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