Roser Tapias carrega o peso da narrativa nos ombros como Aitana, uma mulher que oscila entre a incredulidade, a raiva e um desespero palpável. É uma atuação que não exagera, mas também não se esconde. O resto do elenco, como Jorge Motos (o irmão cadeirante) e os pais (Pilar Almería e Álvaro Báguena), entrega um misto de frieza e naturalidade que torna tudo ainda mais perturbador. Nadia, a "substituta", é um enigma ambulante, e Anna Kurikka a interpreta com uma calma que te faz querer arrancar os cabelos de curiosidade.
A relação sáfica entre Aitana e Gabi é um dos pilares emocionais do filme, mas não há um foco romantizado. Romera e Crespo usam o vínculo delas como âncora pra Aitana — Gabi é a voz da razão, o contraponto à loucura que se desenrola na casa dos pais. Há uma cena em que elas trocam um olhar silencioso, carregado de cumplicidade e medo, que diz mais sobre o amor delas do que qualquer diálogo. Não é uma história sobre ser lésbica, mas sobre como esse amor é testado num ambiente que rejeita o que Aitana se tornou. É sutil, real e, por isso mesmo, poderoso.
E aí entra a maternidade, um tema que o terror ama mastigar e cuspir de volta. "Tú no Eres Yo" usa o bebê adotivo de Aitana e Gabi como um gatilho narrativo — ele não é só um símbolo de união, mas uma ameaça percebida pelos pais, que parecem enxergar nessa nova família um desrespeito ao legado deles. Pense em "Hereditário", onde a linhagem familiar vira pesadelo, ou "O Babadook", com a mãe lutando contra o luto e o instinto materno. Aqui, a maternidade é o fio que conecta Aitana ao caos, mas também o que a faz questionar sua própria identidade frente à "substituição" por Nadia.
Visualmente, "Tú no Eres Yo" é um deleite pra quem curte o terror psicológico. A fotografia de Víctor Entrecanales transforma a casa num labirinto de memórias distorcidas, com cores frias e uma iluminação que faz cada canto parecer esconder algo podre. A edição, assinada pelo próprio Romera, corta na hora certa, deixando você na dúvida entre o que viu e o que acha que viu.
"Tú no Eres Yo" é um thriller que mistura o desconforto de um jantar de família com a tensão de um pesadelo que você não consegue acordar. Não traz nada novo para o gênero da maternidade no horror, mas faz isso com estilo, apostando num olhar fresco sobre relações fraturadas e o preço de voltar pra casa. Romera e Crespo estreiam em um longa mostrando que entendem o gênero — e, mais importante, que sabem mexer com nossas inseguranças.
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