quarta-feira, 19 de março de 2025

Inky Pinky Ponky (Nova Zelândia, 2023)

"Inky Pinky Ponky", dirigido por Damon Fepulea'i e Ramon TeWake, é uma joia rara que brota direto das Ilhas do Pacífico, trazendo uma história queer e Pasifika para o centro da tela. Baseado na peça de Amanaki Prescott-Faletau e Leki Jackson-Bourke, o filme segue Lisa, uma jovem fakaleitī tonganesa — um "terceiro espírito" na cultura do Pacífico —, vivida com magnetismo pela própria Prescott-Faletau. Em St. Valentine’s High, na Nova Zelândia, ela enfrenta intolerância e encontra amor onde menos espera: com Mose, o capitão do rugby (John-Paul Foliaki). É uma narrativa coming-of-age que pulsa com autenticidade, enraizada nas experiências de uma equipe totalmente Pasifika, de Tonga a Aotearoa.

O filme é um banquete visual e emocional, misturando o humor afiado dos adolescentes pardos da Nova Zelândia com a estética vibrante das Ilhas do Pacífico. Lisa quebra a quarta parede com um charme que lembra Fleabag, mas com um sotaque tonganês e um olhar que carrega séculos de resiliência cultural. As cenas do baile escolar, com seus vestidos coloridos e danças improvisadas, ecoam as celebrações comunitárias do Pacífico, enquanto a trilha sonora — com hits como “They Don’t Know”, de Kirsty MacColl, logo nos primeiros minutos — dá um toque de nostalgia que conecta gerações. É como se o filme dissesse: "Nós, Pasifika, estamos aqui, e nossa história é agora."


A força de "Inky Pinky Ponky" está em sua autenticidade cultural. A mãe de Lisa, interpretada por Sesilia Pusiaki, é um retrato fiel das mães tonganesas, com maneirismos que vão do sermão ao carinho em um piscar de olhos — um eco das dinâmicas familiares das ilhas. O filme não foge das tensões entre tradição e identidade queer; pelo contrário, as encara com um diálogo honesto, como na cena em que Lisa questiona estar presa em um corpo que não a reflete. É um grito universal, mas profundamente enraizado na experiência Pasifika.


O romance entre Lisa e Mose é o fio que costura a narrativa, e a química entre Prescott-Faletau e Foliaki é puro fogo. Ele começa como uma aposta cruel — típica dos clichês de high school —, mas evolui para algo genuíno, desafiando as expectativas tanto dos colegas de Mose quanto do público. Aqui, o filme mostra sua raiz Pasifika ao subverter o tropo do "príncipe encantado": o amor não é só redenção, mas um espelho das complexidades da aceitação em uma comunidade que valoriza a coletividade acima de tudo. É delicado, é real, é Tonga em cada olhar trocado.


Claro, nem tudo é perfeito. Com apenas 60 minutos, o filme às vezes parece correr demais, deixando subtramas — como a relação de Lisa com a mãe ou os amigos de Mose — pedindo mais espaço para respirar. A montagem também tropeça em momentos, com transições que poderiam ser mais fluidas para dar peso às emoções. Mas esses deslizes não ofuscam o brilho do que "Inky Pinky Ponky" representa: uma vitória da soberania narrativa Pasifika, feita por e para sua gente, com um elenco e equipe que carregam o Pacífico no sangue.


No fim, "Inky Pinky Ponky" é mais do que um filme — é um marco. Ele leva as histórias queer das Ilhas do Pacífico para o mundo, mostrando que a identidade fakaleitī não é novidade, mas parte de uma tradição rica e viva. De Tonga à Nova Zelândia, ele valida as lutas e os triunfos dos jovens Pasifika, oferecendo um espelho para os pēpēs (bebês) trans do futuro. Com sass, coração e um toque de humor escolar, é um convite para celebrar a diferença,

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